Depois da campanha para as legislativas em outubro, das presidenciais que agora decorrem e onde apoia dois candidatos (Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa), o primeiro-ministro português, António Costa, começa a preparar-se para outra campanha – agora quer levar António Guterres à liderança da Organização das Nações Unidas. Uma candidatura que conta com o apoio de Paulo Portas, líder do CDS, em nome dos “interesses permanentes do Estado português”.

Ao Público, Costa revelou  que “o Governo vai apresentar a candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas”. No próximo mês de fevereiro deverá ser oficializada a candidatura do antigo Alto Comissário para os Refugiados da ONU, avança o mesmo jornal.

A intenção é de tal maneira vincada que António Costa já terá iniciado as movimentações necessárias para avançar com todo o processo tendo informado já o Presidente da República, Cavaco Silva, e todos os líderes partidários com assento parlamentar – poderá ficar assim explicado um momento curioso no final do debate quinzenal de dia 15 de janeiro quando o socialista se reuniu com Pedro Passos Coelho.

Mas as diligências não se cingem a Portugal. Ao que tudo indica o Governo liderado pelo Partido Socialista já começou a encetar contactos internacionais para garantir apoios à candidatura. Ou seja, segundo o Público, o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem estado embrenhado em verdadeiras ações do chamado “lobbying diplomático”. Até agora esta ação já terá começado a colher frutos conquistando a promessa de que Guterres não sofrerá o veto da parte de nenhum dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – são eles França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos.

Apesar de ter granjeado grande prestígio durante o mandato enquanto Alto Comissário para os Refugiados da ONU, Guterres poderá enfrentar forte resistência do leste europeu. Isto porque a preferência pode recair sobre uma mulher para liderar os destinos da organização, o que a acontecer seria uma estreia.

Tendo em conta esta situação são vários os candidatos ou candidatas que se perfilam e ganham força: Kristalina Georgieva, vice-presidente da Comissão Europeia; Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO; Kevin Rudd, primeiro-ministro australiano; Helen Clarke, antiga primeira-ministra da Nova Zelândia; Vesna Pusić, ministro dos Negócios Estrangeiros croata; Danilo Turk, antigo Presidente da Eslovénia e número dois de Ban Ki-Moon; e fala-se até numa possível candidatura da chanceler alemã Angela Merkel.

Tudo isto fez com que o Ministério dos Negócios Estrangeiros considerasse ao Observador , esta quinta-feira, “prematuro responder” se Portugal está ou não a realizar as movimentações diplomáticas necessárias à formalização da candidatura de António Guterres.

Candidatura de Guterres à ONU junta-se às de quatro países do leste europeu

A candidatura do ex-primeiro-ministro António Guterres ao posto de secretário-geral das Nações Unidas junta-se a várias outras já oficialmente apoiadas pelos governos da Bulgária, Croácia, Macedónia ou Eslovénia.

Da Bulgária surgiram dois nomes, a diretora geral da Unesco, Irina Bokova, que é apoiada oficialmente pelo governo, e a comissária europeia para o Orçamento e Recursos Humanos, Kristalina Georgieva.

A Macedónia apresentou o nome do seu ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e atual presidente da Assembleia Geral da ONU, Srgjan Kerim.

A Croácia apoia a candidatura da sua ministra dos Negócios Estrangeiros e Assuntos Europeus, Vesna Pusíc.

Quanto à Eslovénia, apresentou o nome do ex-Presidente da República Danilo Türk.

Na Carta das Nações Unidas estabelece-se que o cargo de secretário-geral é designado pela Assembleia Geral da organização, depois de aprovado pelo Conselho de Segurança, onde tem que passar pelo crivo dos cinco países com assento permanente e poder de veto: Estados Unidos da América, Reino Unido, Rússia, França e China.

Paulo Portas também apoia candidatura de Guterres

O presidente do CDS-PP, Paulo Portas, expressou, esta, sexta-feira em nome dos centristas e a título pessoal o seu apoio e empenhamento na candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas, salientando que há dificuldades nesse processo.

“A primeira condição para uma candidatura ser bem-sucedida é o consenso interno à volta do nome proposto e eu disse ao primeiro-ministro que o CDS evidentemente participaria desse consenso. Nós sabemos distinguir o que são controvérsias políticas do que são interesses permanentes do Estado português e por isso mesmo não quero deixar de dar esta palavra favorável, com o nosso empenhamento”, afirmou Paulo Portas.

Falando aos jornalistas no parlamento, o líder centrista disse que, na conversa que manteve com o primeiro-ministro, por iniciativa deste, acerca da candidatura, lhe pareceu que “o Governo português estava consciente de que uma candidatura terá de fazer um longo trajeto e vencer uma série de etapas, que não é isenta de dificuldades”.

“Também me parece evidente que o engenheiro António Guterres é, como europeu ocidental, um nome muito forte e saberá sempre honrar a imagem de Portugal lá fora”, frisou.

Portas aludiu a “um conjunto de circunstâncias que não dependem apenas dos candidatos” e que fazem da próxima eleição do secretário-geral das Nações Unidas um processo não clássico de eleição pessoal e difícil para António Guterres.

“É preciso nomeadamente ter a disposição favorável do Conselho de Segurança, a não oposição dos membros permanentes do Conselho de Segurança e ter em atenção uma regra, que é mais um costume do que uma formalidade, em que essa eleição segue uma rotação continental e geográfica”, sustentou.

O líder do CDS, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, declarou ter sido “testemunha do elevado prestígio e apreço que existe pelo engenheiro António Guterres no âmbito da Nações Unidas, das suas agências e do seu corpo de servidores”.

“O engenheiro António Guterres como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, em circunstâncias internacionais muito exigentes, foi evidentemente notado e é aplaudido e reconhecido”, afirmou.