Caso José Veiga

Paulo Santana Lopes: de vendedor de livros a braço direito de José Veiga

O irmão do ex-primeiro-ministro teve vários negócios sem sucesso. Chegou a ser vendedor de livros mas foi com Veiga que vingou. Agora, vai ficar em prisão domiciliária à espera de julgamento.

Fotografia partilhada por Paulo Santana Lopes no Facebook em 2013

Já vendeu livros, teve uma empresa do ramo da construção civil e participou numa outra de tomate enlatado. Paulo Santana Lopes, que chegou a apresentar-se como tesoureiro do próprio irmão, o ex-primeiro ministro Pedro Santana Lopes, tem um percurso profissional cheio de novos desafios que acabam em falências ou demissões. E terá sido ao lado do empresário de futebol José Veiga que viu a sua vida mudar. Os dois são agora arguidos num processo de corrupção no comércio internacional que ganhou o nome de código “Rota do Atlântico”. Paulo Santana Lopes sabe agora que ficará em prisão domiciliária.

Quem o conhece num contexto familiar diz que reúne num só os papéis de pai e avô dedicado. E nem se colocam mais questões. Mas quem já trabalhou com ele fala de instabilidade nos negócios e nas várias tentativas frustradas de ganhar dinheiro.

Paulo Santana Lopes tinha cerca de 20 anos quando começou a vender livros porta a porta. Anos mais tarde acabou a trabalhar numa empresa de tomate, a Tocan. Quem trabalhou com ele naquela altura conta ao Observador que o negócio começou a correr mal e que a empresa acabaria por falir.

Mas o empresário não desistiu. E abriu uma outra empresa do mesmo ramo: enlatados de tomate e derivados. A sua participação acabaria comprada por um grupo espanhol. E Paulo Santana Lopes não perdeu o lugar de diretor-geral. Até ao dia em que acabou despedido.

Sem trabalho, acabou por juntar-se a um empresário de Cascais e mudar o rumo profissional. Criou uma empresa de construção civil, a Tetris. Mas o negócio não chegou a durar meia dúzia de anos. Depois de alguns desentendimentos, a empresa acabou comprada em 2011 por uma das empresas da Sociedade Lusa de Negócios, que na altura detinha o BPN.

pauloSantanaLopes_perfil

Paulo Santana Lopes, 57 anos

Quem conhece Paulo Santana Lopes diz que ainda o viu a comprar e a vender casas para “uns africanos na Quinta da Marinha”. Nesta altura, Paulo Santana Lopes já estava ligado ao empresário do futebol José Veiga e aos negócios no continente africano. Em 2009, aliás, até quis comprar ao advogado António Pragal Colaço um crédito de 16 mil euros que detinha na Superfute – a empresa de José Veiga e Alexandre Pinto da Costa que chegou a movimentar milhões de euros com a transferência de futebolistas. Deu dois passos atrás no negócio quando o advogado avançou com o pedido de insolvência.

No papel, Paulo Santana Lopes e Veiga estão juntos, pelo menos, desde 2013. Segundo os registos empresariais canadianos, Veiga criou o Norwich Group — sociedade com a qual pretende adquirir o Banco Internacional de Cabo Verde — e pôs Paulo Santana Lopes como secretário. Nos registos, os dois partilham a mesma morada no Congo.

Foi neste ano que o ex-primeiro-ministro Pedro Santana Lopes, em entrevista a Daniel Oliveira, para o programa Alta Definição, admitiu a sua proximidade com o irmão dois anos mais novo. O pai dos dois tinha morrido meses antes, tornando-se num dos principais temas da entrevista. “O meu irmão Paulo é o sucessor do meu pai”, admitiu, depois de descrever a falta que a figura paterna lhe fazia. O provedor da Santa Casa da Misericórdia disse que era com Paulo que mais falava, mesmo estando ele a trabalhar no estrangeiro.

Anos antes, era Pedro Santana Lopes presidente do PSD, Paulo apareceu publicamente a defender o irmão e a assumir-se como seu contabilista. Isto porque as declarações de rendimentos de Pedro Santana Lopes ao Tribunal Constitucional de 1997 a 2001 não coincidiam com a declaração de IRS.

Paulo Santana Lopes apareceu mencionado no caso Face Oculta. No processo surgem três cheques que lhe foram passados pelo sucateiro Manuel Godinho.

Compra de terreno na Figueira da Foz

Apesar da proximidade e da amizade, Pedro Santana Lopes tentou sempre que a sua relação com o irmão fosse independente dos cargos políticos que ocupou. No livro biográfico Figueira, a minha história, Pedro Santana Lopes lembra que quando foi eleito presidente da Câmara o irmão comprou um terreno e submeteu aos serviços de Urbanismo um projeto. Pedro Santana Lopes recusou aprovar o licenciamento enquanto presidente. Não queria ser acusado de beneficiar a família.

Paulo Santana Lopes chegou, ainda, a integrar o conselho consultivo da Fundação António Quadros, numa lista de nomes que inclui Marcelo Rebelo de Sousa e Adriano Moreira. Mafalda Ferro, à frente da fundação, explicou ao Observador porquê. “O meu filho é casado com uma filha de Paulo”, conta. Paulo Santana Lopes tem cinco filhos e, na altura do casamento, disponibilizou-se para integrar o conselho e ajudar “no que fosse preciso”, explica Mafalda Ferro. Mas acabou por nunca participar em qualquer reunião e cedo se percebeu que “não era necessário ele integrar o conselho, porque não tinha muita disponibilidade”.

Mafalda Ferro desconhece as atividades profissionais de Paulo Santana Lopes. Sabe apenas que se dividia entre Portugal e África. “É uma pessoa de quem gosto muito. Um ótimo avô. Mas só nos encontramos em festas de família”, admite.

Quem falou ao Observador, pedindo o anonimato, também desconhece em que termos Paulo Santana Lopes trabalhava “lá fora”. Mas Paulo chegou a dizer que estava ao serviço da Asperbras — uma empresa brasileira com uma filial em Cascais — que “planeava construir 12 hospitais no Congo”. A Asperbras é uma das empresas que estará a ser investigada pela Polícia Judiciária.

Paulo Santana Lopes foi detido quarta-feira juntamente com José Veiga e uma advogada por suspeitas de corrupção no comércio internacional, branqueamento de capitais, tráfico de influências, participação económica em negócio na compra e venda de ações de uma instituição financeira e fraude fiscal. Segundo a PJ, celebrariam contratos de fornecimento de bens e serviços – entre os quais obras públicas, construção civil e venda de combustível a várias entidades públicas e privadas do Congo. Os lucros destes negócios seriam “utilizados na aquisição de imóveis, veículos de gama alta, sociedades não residentes e outros negócios, utilizando para o efeito pessoas com conhecimentos especiais e colocadas em lugares privilegiados, ocultando a origem do dinheiro e integrando-o na atividade económica licita”.

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