Estava o grego de caneta na mão, sentado à mesa e com papelada à frente. No final de várias folhas tinha um espaço com o nome escrito, para assinar, rubricar e assinar. Estava preocupado em pôr o preto no branco com o Benfica e, ao lado, tinha um homem cujo telemóvel tocava. Trim, trim. As chamadas chegavam. Era alguém de verde e branco a ligar, insistente, a puxar pela insistência de conseguir, à última, pregar uma partida e desviar o avançado do rival: “No dia que assinei pelo Benfica, o meu empresário recebeu chamadas do Sporting”. Os leões queriam o homem de barba no queixo a tentar marcar golos por eles e, mesmo à última hora, ligaram-lhe muito, disse ele.
Continuaram a ligar-lhe no relvado. Rara era a vez que Mitroglou tinha um palmo de relva para receber, virar-se e encarar de frente a baliza. O grego era seguido em Alvalade, os centrais Coates e Ewerton, à vez, a encostarem-se nas costas do avançado nas vezes que os encarnados o procuravam para respirarem no meio da confusão. O dérbi arrancou trapalhão, cheio de passes feitos à pressa, ressaltos de bola, chutos para a frente, um jogo teimoso a meio campo. Os leões ligavam tanto ao grego que não tinham tempo para fazer as jogadas chegarem a Bryan Ruiz e João Mário, os melhores amigos da bola.
Não se viam cinco passes seguidos no dérbi. Renato Sanches cumpria no que falhara no anterior dérbi para o campeonato e mantinha-se bem perto de Samaris. Eram guarda-costas da área e não tinham tempo para serem os escudeiros do ataque porque lhes faltava tempo de chegarem à frente — Mitroglou segurava poucas bolas devido ao muito que os leões lhe ligavam. Nem Jonas o conseguia e o brasileiro portava-se como sempre o tem feito nos jogos grandes. Longe da bola, incapaz de arranjar espaço, espremido entre os centrais e os médios. Por isso fez o que não costuma e fugiu dali.
O avançado pediu a bola no espaço em vez do hábito de a querer sempre no pé. Desmarcou-se a sprintar, para a direita. William não lhe fez caso e Sebástian Coates não teve o apoio que lhe faltou para impedir que o brasileiro dos 26 golos no campeonato tivesse dois segundos com a bola e se livrasse do uruguaio para cortar um passe longo para a área. Pizzi dominou a bola e até esta chegar a Samaris, na entrada da área, houve um ressalto antes de haver outro — o tal que bateu em William e serviu para desmarcar a Mitroglou. Os centrais do Sporting deixaram de lhe ligar por meio segundo o grego ficava com a bola à frente de Rui Patrício. E rematava-a para dentro da baliza pelo segundo dérbi seguido, em Alvalade.
Os leões tinham que acordar, mas demoraram. João Mário andava na sombra de Slimani e não conseguia trocar um passe com o avançado, enquanto Adrien e William trocavam mais a bola para os lados do que para a frente. O argelino fazia o que faz sempre, corria de fora para dentro e recebia bolas ao lado da área para, quase sempre, ninguém ocupar o espaço que deixava vago à frente da baliza do Benfica. Por isso é que só aos 40’, quando Bruno César acelerou na direita e cruzou rasteiro, para trás, é que Jefferson pôde estoirar a bola que foi bater na barra. Foi o primeiro remate do Sporting no jogo.
Bryan Ruiz não queria acreditar no que (não) fez na segunda parte. Foto: José Sena Goulão/Lusa
Os últimos cinco minutos antes do intervalo acordaram a equipa para os primeiros 25 que vieram depois do balneário. Os leões tornaram-se mais agressivos. William passou a afastar-se menos dos centrais para precaver as aventuras que Jefferson e João Pereira passaram a ter no ataque. Era preciso arriscar. E a equipa arriscou, mas só depois de Renato Sanches aquecer as mãos de Rui Patrício no único pontapé à baliza dos encarnados na segunda parte. Foi aos 47’.
Porque depois a equipa ligou muito à própria área, percebeu que a melhor maneira de se defender era fechar-se no seu meio campo e proteger os espaços onde Ruiz, João Mário e Adrien pudessem montar o jogo de tabelas e toca-e-vai que Jorge Jesus os manda a fazer. Os encarnados encolheram-se como as últimas cinco equipas que visitaram Alvalade o fizeram e daí talvez Jesus dissesse, no final, que “o Benfica jogou como uma equipa pequena”. E também eles complicaram muito a vida aos leões. Só pelas laterais é que o Sporting chegava lá perto, mas as duas bolas que João Pereira cruzou com pontaria (54’ e 61’) não deram em nada. Uma porque André Almeida esticou a cabeça e a outra porque o pé esquerdo de Bryan Ruiz entalou a bola na relva quando a tentou rematar à baliza.
Mas faria pior.
E esse pior até foi péssimo quando, aos 72’, conseguiu atirar por cima da barra a bola que rematou a um metro de uma baliza sem guarda-redes, após Slimani cruzar rasteiro, na direita. O costa-riquenho ficava de rastos, cabisbaixo, e nem o espicaçar que o argelino lhe deu no minuto seguinte, depois de ver Ederson parar-lhe um pontapé, o animou. Nem ao resto da equipa, que desanimou e se foi abaixo a partir do falhanço de Bryan Ruiz e a partir do momento em que Rui Vitória deu Fejsa ao jogo e Jesus apostou em Gelson e Schelotto para ficar sem João Pereira e Adrien — que, no banco, seria expulso depois de dizer algo que o árbitro não gostou de ouvir. A segunda parte deu sempre mais bola ao Sporting (andou à volta dos 60%), a equipa rematou oito vezes à baliza, os laterais tiveram mais bolas nas costas de Eliseu e André Almeida, mas o golo não apareceu.
Quando o dérbi sorriu pela primeira vez esta época ao Benfica já Mitroglou estava sentado, a descansar desde os 66’, minuto em que andou a passo lento campo fora para Alvalade lhe ligar com assobios em uníssono. O 15.º golo do grego que o Sporting quis no campeonato tornou a equipa de Rui Vitória líder, com mais dois pontos que os leões. Por isso é que a equipa ficou quase uma hora no balneário a comemorar, como disse o treinador. Enquanto ligavam a Mitroglou para lhe dar os parabéns, provavelmente.
“Faltam nove ‘finais’. Comemorámos no balneário, sim, cerca de uma hora, mas não somos nem mais, nem menos favoritos do que éramos antes”, disse Rui Vitória, no final .Foto: Francisco Leon/AFP/Getty Images