A relação entre a infeção das grávidas com o vírus zika e o desenvolvimento de microcefalia nos respetivos fetos ainda não está completamente confirmada cientificamente, mas a evidência crescente de que os dois acontecimentos podem estar relacionados faz com que a diretora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Chan, recomende que as grávidas não viajem para zonas onde onde o surto está ativo.

Margaret Chan considera que não é preciso esperar por provas definitivas para aconselhar as grávidas sobre os riscos da viagem, refere a agência AFP. Desta forma, as recomendações tornam-se mais restritas do que no início do mês de fevereiro, em que as grávidas eram aconselhadas a informar-se sobre os riscos antes de viajar. Nessa altura, a 1 de fevereiro, a OMS declarou a possível associação entre o vírus zika e a microcefalia e outros problemas neurológicos uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Tirando as recomendações às grávidas, as viagens e trocas comerciais com os países afetados com o vírus não devem ser interrompidas, defende a OMS.

“A microcefalia é apenas um dos defeitos registados na altura do nascimento e que podem estar associados com a infeção com zika durante a gravidez”, disse, citada pela AFP, a diretora-geral da OMS. “Outros problemas graves são morte do feto, insuficiência da placenta, retardamento do crescimento do feto e lesões no sistema nervoso central.”

Desde o início do surto, já foram notificados 6.158 casos de microcefalia, refere o Ministério da Saúde brasileiro. Destes 745 foram confirmados como casos de microcefalia ou de outras alterações do sistema nervoso e 1.182 casos foram descartados. O ministério acrescenta que até dia 5 de março tinham sido confirmados 37 óbitos devido a microcefalia ou outras alterações do sistema nervoso central.

A Organização Mundial de Saúde recomenda que os indivíduos e respetivas comunidades reforcem as medidas de proteção contra as picadas do mosquito e que tentem eliminar os mosquitos das habitações. Mas a OMS também refere, segundo a Reuters, que o controlo dos mosquitos Aedes aegypti, que transmitem o vírus, não se mostrou eficaz no controlo do vírus dengue e que agora também não se está a mostrar eficaz no controlo do vírus zika.

As medidas de controlo do mosquito pelas autoridades brasileiras têm-se baseado na utilização de inseticidas, quer nas águas paradas onde as larvas do mosquito se desenvolvem, quer nos inseticidas espalhados nas paredes das casas. A utilização de mosquitos modificados ou infetados com Wolbachia são alternativas possíveis, mas a OMS diz que a avaliação destes métodos alternativos tem de ser feita com um “rigor extremo”.

O desenvolvimento das vacinas continua a ser uma área em que se deve apostar, especialmente as vacinas que sejam seguras para grávidas e mulheres em idade de se tornarem mães, refere Marie-Paule Kieny, diretora-geral adjunta da OMS. Mas não vão chegar a tempo do surto que agora afeta a América do Sul. De facto, as candidatas a vacinas contra o zika que estão mais avançadas em termos de investigação, ainda levarão alguns meses a entrar em ensaios clínicos, diz Marie-Paule Kieny.

Ainda assim, o desenvolvimento de vacinas que previnam a infeção com zika, o estabelecimento de testes múltiplos para os vários flavivírus (como zika, dengue e chikungunya) e a criação de técnicas inovadoras para o controlo do mosquito, foram definidos como áreas prioritárias de investigação pela OMS esta quarta-feira. Já o desenvolvimento de medicamentos para tratar o zika, que tem normalmente sintomas leves, não foi considerado prioritário.

A principal via de transmissão do vírus continua a ser o mosquito Aedes aegypti, mas existe uma preocupação crescente de que possa haver transmissão por via sexual. “A investigação em vários países sugere que a transmissão sexual do vírus é mais comum do que inicialmente se previa”, refere a diretora-geral da OMS. Por isso, os homens que regressem de zonas afetadas com o surto de zika devem abster-se de manter relações sexuais ou usar preservativo durante 28 dias após o regresso.