É uma estucha, mas tem que ser. De Saint-Étienne para Paris e da capital de volta ao sul, o destino é Lyon e a azia é minha. São mais de quatro horas de estrada em reta, de manter o volante direito e de poucas distrações para fintar o sono. A pressa também está comigo porque, ora bem, há um Inglaterra-Eslováquia a 60 quilómetros do hotel e a dois dias do Portugal-Hungria. Uma coisa nada teria a ver com a outra se no meio não houvesse um jogador a ligá-las, um ponto comum. É ele que me faz largar as malas no hotel em Lyon e ser simpático com o acelerador para o carro correr connosco para Saint-Étienne.

Começam a aparecer os problemas. Um caminho que não devia demorar mais que 30 minutos a fazer leva quase uma hora a completar. Há trânsito e há radares em todo o lado, chatos, que limitam o peso no pedal até o ponteiro marcar 90 quilómetros por hora. Quanto mais demoro, mais outro problema aumenta de tamanho na minha cabeça e a culpa, que apenas o é porque a pressa me faz embirrar, é das regras da UEFA. Que até são simpáticas.

Antes do Europeu, qualquer jornalista tinha de pedir acreditação para os jogos aos quais queria assistir. Certo. Para aquele não pedi, o que está errado. Mas as tais regras deixam que, para cada partida, haja uma lista de espera, em que os escribas sem licença para entrar no estádio pedem uma e fazem figas para que exista uma vaga. Mas eu chego numa altura em que os outros que já pediram estão prestes a saber se têm lugar. Já fui, penso. Mas não, fico porque, estranhamente, sobram muitos lugares para um encontro que pode decidir o primeiro, o segundo e o terceiro classificados de um grupo.

Espetáculo. Assim fico mais perto da pessoa que me levou até ali.

O jogo passa, os dedos mexem com o teclado e os olhos miram com mais atenção o Eric Dier. Ele joga bem e joga muito, é o trinco que sempre foi central e que já é como um patrão nesta equipa de inglesas. É com ele que quero falar. Há a hipótese de Portugal jogar contra a Inglaterra nos oitavos-de-final se as coisas correrem mal e arranjarem uma forma de até correrem bem. Que é como quem diz, se a seleção nacional ficar em segundo lugar no grupo. Daí o Eric Dier.

Porque ele foi muito novinho para Portugal, quando os pais ingleses emigraram para lá. Como tinha jeito para jogar à bola, o Sporting pegou-lhe, fê-lo crescer e ele aprendeu a jogar como um português. Com a bola no pé, a fortalecer a técnica em vez do físico, não como os ingleses, que querem os miúdos grandes e fortes antes de habilidosos e com pezinhos. Dier fez-se jogador da bola ao lado de outros como Cédric Soares, João Mário, William Carvalho ou até Adrien. O português dele é como o inglês, impecável, e conhece meia seleção portuguesa. É por isso que não quero outra coisa que não falar com ele após o jogo.

Outro problema: entrar na zona mista. Sem acreditação não há bilhete e sem bilhete é preciso torcer para que haja espaço por lá. Felizmente há. Em Saint-Étienne a zona mista é grande, quem a fez pensou nos jornalistas e levou muitas grades para ali, tornando longo e aos ésses um caminho que podia ser curto e em linha reta. Não senhor, os jogadores têm de passar ali e demorar algum tempo a fazê-lo. É suposto que parem para responder a umas perguntas, falem connosco, escolham quem lhes apetecer, que conversem. É a única oportunidade para eles e nós conversarmos sem filtros.

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Roy Hodgson aparece na zona mista, mas não é fácil chegar até ele @Diogo Pombo/ Observador

Os ingleses começam a aparecer e há marosca. Há uma fila, logo a primeira, mal os jogadores aparecem, em que só entram uns certos jornalistas ingleses. É lá que Roy Hodgson pára, durante uns bons 15 minutos, para falar. Coisa rara, um selecionador aparecer e conversar. Fico otimista antes de o pessimismo me começar a derrotar. Surgem Joe Hart, Jordan Henderson e Nathaniel Clyne, escoltados por uma assessora inglesa, para orarem naquela certa fila para um certo grupo de jornalistas. Sacanas. Nos entretantos, os outros jogadores vão saindo e nada. “I am not allowed to speak”, todos dizem, entre uma ou outra variação. Mais do que não quererem, parecem não falar porque não os deixam.

Se por acaso um se distrai e bate um papo com alguém, logo aparece a assessora, a mandá-lo seguir. Jack Wilshere, o talento inglês em pessoa que nunca mais o comprova em campo, até vai, volta e vai outra vez, pois esquece-se de um leão de peluche no balneário e regressa para o ir buscar. Uma trupe de jornalistas eslovacos entoa uma gargalhada quando ele passa. O problema é que nem assim ele fala.

Até que surge Eric Dier. Há esperança, tem que haver. Ele se ouvir português fala. Eu, por ser português, talvez não me inclua no lápis azul que fecha a boca aos ingleses. Aí vem ele. Ali estamos três jornalistas portugueses, separados, todos o inquirimos em português. Ele olha para todos, responde qualquer coisa aos três, apenas trava a marcha no último, que não sou eu, mas está ao meu lado. O jogador quer falar, não se importa, mas está com cara de preocupado. É como um traquina que sabe que vai fazer asneira e teme ser apanhado. Começa a falar, mas stop. “Eric! Eric!”, ouve-se, alguém o chama. É Gary Neville, o adjunto inglês, que vê isto, não gosta e vocifera para o tirar dali.

Dier obedece, logo. Caminha a um passo apressado até ele, que envolve um braço aos ombros do jogador, que lhe ganha em 20 centímetros. Ri-se. É quem mais sorri enquanto se dirigem para o autocarro da equipa. Nada feito, ele não fala, como os outros ingleses antes dele, e o maior problema é mesmo este. Parece crime os jogadores falarem com quem leva o que eles dizem até quem os pode ler. Pelos vistos é assim com os ingleses, como o é com os portugueses, como o era com os austríacos, embora mais assim-assim.

E assim fica difícil e não dá para perceber. Também porque, uma semana antes, qualquer islandês que ali passa responde a todas as perguntas e mais algumas, sejam elas quantas forem, no final do empate com Portugal. Em Paris, a seguir ao nulo contra a Polónia, até os alemães — campeões do mundo — o fazem, só alguns torcendo o nariz quando lhes pedem para falar em inglês. A diferença que é a abertura que uns têm e outros não. É a diferença que faz ter uma mini-entrevista imaginada e não conseguir que ela se torne real. Toca a voltar, de cabisbaixo, com fome, cansaço e tristonho, para Lyon.