Não estava identificado como tendo ligações ao Estado Islâmico e não tinha ficha na unidade de combate ao terrorismo. Mas o suspeito do ataque em Nice era conhecido da polícia por crimes menores, posse de armas e violência conjugal, e chegou a ser detido no início do ano. É mais um sinal de alerta e preocupação para o esforço de prevenção de ataques terroristas em França.

Os acontecimentos na cidade do Sul de França foram o sétimo ataque terrorista desde janeiro de 2015, quando um grupo de terroristas entrou a disparar na redação do jornal humorístico Charlie Hebdo, provocando 12 mortos. Desde então, a contagem de vítimas mortais já vai em 230. E os discursos políticos e as promessas de uma resposta dura, têm-se reproduzido. O que disse Hollande depois do atentado no Charlie Hebdo no inicio de 2015:

“A França é grande quando consegue levantar-se ao nível que sempre lhe permitiu ultrapassar as dificuldades. A liberdade vai sempre ser mais forte do que a barbárie. A França tem conseguido sempre vencer os seus inimigos quando se manteve unida e permaneceu fiel aos seus valores. É isso que vos peço: para se unirem, de todas as maneiras possíveis. Esta deve ser a nossa resposta. Vamo-nos juntar neste momento difícil e vamos vencer porque somos capazes de acreditar no nosso destino e nada pode enfraquecer a nossa determinação”.

O tom endureceu depois dos ataques de novembro em Paris, os mais mortíferos no país, com 130 vítimas mortais. Hollande falou em ato de guerra perpetrado contra a França e prometeu “ser impiedoso para com os bárbaros” do grupo Estado Islâmico. “Vamos atuar por todos os meios e em todo o lado, dentro e fora do país”.

O país perseguiu os autores dos atentados, mas não conseguiu evitar que um dos envolvidos estivesse implicado no atentado ao aeroporto de Bruxelas, em março. A França está em estado de emergência desde novembro, reforçou o controlo de fronteiras e a presença de forças de segurança. E preparava-se para regressar à normalidade no final do mês. E agora?

Ainda antes de o atentado ser reivindicado, Hollande afirmou que a “França como um todo está sob a ameaça do terrorismo islâmico. Nestas circunstâncias, temos de demonstrar vigilância absoluta e mostrar uma determinação infalível”. O presidente anunciou o prolongamento do estado de emergência por mais três meses, a mobilização de 10 mil soldados para proteger locais considerados mais vulneráveis, o reforço do controlo das fronteiras e a intensificação dos ataques na Síria e Iraque contra o Estado Islâmico. Mas será suficiente?

Uma investigação recente feita pelo Parlamento francês aos ataques terroristas do último ano, e divulgada pelo jornal britânico Guardian, identificou múltiplas falhas nos serviços de informação do país. A comissão parlamentar de inquérito foi lançada para encontrar respostas à série de atentados no país que só em 2015 mataram 147 pessoas e concluiu que se verificou uma “falha global” no funcionamento dos serviços de informação franceses. A comissão recomendou também a revisão de todos os serviços e a criação de uma unidade nacional de combate ao terrorismo, ao estilo dos Estados Unidos.

Serviços de informação: são demais e não comunicam bem

A França conta com seis unidades de serviços de informação que respondem a várias tutelas: ministérios da Administração Interna, Defesa e Economia. O presidente da comissão parlamentar comparou o aparelho com várias camadas a um exército de soldados a usar botas de chumbo. “O nosso país não estava pronto. Agora temos de ficar prontos”, sublinhou Georges Fenech. Mas não houve tempo. Estas conclusões foram conhecidas no início de julho.

Um das debilidades expostas é a constatação de que todos os extremistas envolvidos nos ataques foram previamente sinalizados pelas autoridades. Alguns tinham sido condenados ou estavam sob a vigilância das autoridades na Bélgica e na França. Depois de 200 horas de audições, a comissão descobriu também que os diferentes serviços de informação tinham dificuldades em comunicar entre si a informação sobre extremistas islâmicos que estavam a ser vigiados, na prisão ou cujos telefones estiveram sob escuta.

O autor do atentado contra uma mercearia judia, que aconteceu em janeiro de 2015, era um radical conhecido e um criminoso reincidente. Tinha sido condenado por ter participado numa conspiração para libertar outro terrorista e estava sinalizado como radical, mas esta informação não foi passada pelos serviços prisionais aos serviços de informação.

Um dos atacantes ao jornal Charlie Hebdo estava sob vigilância, mas as autoridades perderam-lhe o rasto quando mudou de residência, para a cidade de Reims. Um dos envolvidos no tiroteio no clube Bataclan viajou até à Síria em 2013, apesar de estar impedido de sair de França. Foi com outro dos suspeitos deste ataque.

O relatório apontou falhas quando criminosos condenados são libertados da prisão. E um juiz antiterrorista revelou que os acusados de terrorismo eram sujeitos ao mesmo tipo de vigilância e acompanhamento que “pequenos criminosos que traficam marijuana”, depois de serem libertados da prisão por ordem do tribunal.

Foram igualmente assinaladas falhas nos serviços de informação europeus e ao nível da coordenação e comunicação. Em janeiro de 2015, Abedlhamid Abaaoud, um suspeito de nacionalidade belga que terá estado envolvido nos ataques de novembro em Paris, surgiu no radar das autoridades gregas que sabiam ser uma figura importante ligada ao Estado Islâmico que estaria a planear atentados contra alvos europeus. As autoridades belgas fizeram um raide para desativar uma célula terrorista com ligações diretas a Abaaoud.

Segundo a comissão de inquérito, as autoridades belgas só avisaram as autoridades gregas meia hora antes da operação, o que terá permitido a Abaaoud escapar do país.

Governo de Hollande sob pressão

Mas não são apenas os serviços de informação que estão debaixo de fogo. Parecem estar a crescer em França as suspeitas sobre se Hollande será o homem certo para liderar o país em tempos de crise profunda. Este é o sétimo ataque com Hollande no poder e o terceiro com número elevado de vítimas.

Vários analistas reconhecem que o atentado nas ruas de Nice perpetrado com um camião era quase impossível de antecipar e muito difícil de conter. Mas uma ação tão brutal em pleno dia nacional de França, que assinala a tomada da Bastilha, num dos principais destinos turísticos do país, exige outra capacidade de resposta. Ainda que, como revelou o primeiro-ministro, tenham sido evitados três ataques terroristas no último mês, quando o país recebeu o campeonato europeu de futebol vencido por Portugal. Manuel Valls admitiu que é possível a ocorrência de novos ataques que a polícia não vai conseguir travar.

As autoridades do país avisam que esta é uma guerra que vai ser longa e ensombrar o país durante anos. E quem está do outro lado do “campo de batalha”? A maioria dos suspeitos identificados como tendo participado nestes atos tem nacionalidade francesa (ou também nacionalidade francesa), ainda que sejam descendentes de pessoas oriundas de países muçulmanos que vêm sobretudo do Norte de África.