As opções para as crianças sírias: ficar ou ir embora. E nenhuma é digna. É essa a mensagem de uma ilustração divulgada esta quinta-feira pelo artista Khalid Albaih, ativista pelos direitos humanos. O cartoon junta duas imagens icónicas da crise que se vive na Síria: a imagem de Omran Daqneesh, após uma explosão em Aleppo, e a imagem de Aylan Kurdi, que apareceu morto numa praia de Bodrum, na Turquia.

Omran Daqneesh foi retirado das ruínas de um edifício bombardeado em Aleppo na quarta-feira. Coberta de pó e sangue, a criança foi colocada na cadeira de uma ambulância. As imagens, recolhidas pelos ativistas do Aleppo Media Centre, retratam Omran, atónito, sem se aperceber do que lhe acontecia, sem chorar, a olhar para as objetivas das câmaras que o fotografavam. Em poucas horas, a imagem de Omran correu o mundo e transformou-se num símbolo da guerra civil da Síria.

O jornalista que filmou as imagens, Mustafa al-Sarout, testemunhou ao The Guardian a agonia do momento. “Já fotografei muitos raides aéreos em Aleppo, mas havia muito mais naquela cara, o sangue e o pó misturados, e sobretudo naquela idade”, disse al-Sarout. O fotógrafo lembra que Omran “pôs a mão na cara e viu sangue. Nem sabia o que lhe tinha acontecido”.

“Já vi muitas crianças resgatadas de ruínas, mas esta, com a sua inocência, não fazia ideia do que se passava”, recorda o repórter. O médico que tratou Omran no hospital disse ao jornal britânico que “ele estava em choque total, desnorteado sobre o que tinha acontecido”, e explicou que “o sangue se misturou com o pó”.

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Aylan Kurdi (à direita), encontrado em setembro numa praia turca. Omran Daqneesh (à esquerda), resgatado dos escombros de um edifício bombardeado esta quarta-feira em Aleppo, Síria. (Imagens: AFP/Getty Images e Aleppo Media Centre)

Mas a imagem de Omran não é a primeira a tornar-se um ícone da guerra civil na Síria. Em setembro de 2015, Aylan Kurdi, uma criança de três anos, foi encontrado morto numa praia turca. Aylan vinha da Síria com a sua família, quando o barco em que seguiam naufragou (como acontece a tantos milhares). Morreu Aylan, o seu irmão e a sua mãe. A fotografia de Kurdi despertou, na altura, as consciências para o drama dos refugiados.

Como recorda o fotógrafo Mustafa al-Sarout, “estas crianças são bombardeadas todos os dias, não é um caso excecional”. Al-Sarout ficou até surpreendido por o vídeo de Omran ter despertado tanta atenção. “É um acontecimento diário dos raides aéreos dos governos russo e sírio. Eles fazem turnos a bombardear civis em Aleppo perante a indiferença do resto do mundo. Esta criança é representante de milhões de crianças que sofrem na Síria e nas suas cidades”, conclui o repórter.