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Pedrógão. As mortes, as cautelas e as dúvidas

Este artigo tem mais de 3 anos

Um mês depois do incêndio em Pedrógão Grande, a dúvida voltou. O número total de vítimas mortais estava fixado em 64, mas uma morte por atropelamento veio provocar a confusão.

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PAULO NOVAIS/LUSA

PAULO NOVAIS/LUSA

A lista de vítimas mortais na sequência do incêndio de Pedrógão Grande fixava o número em 64 mortos. Mas, desde a informação avançada no passado sábado pelo semanário Expresso, surgiram dúvidas e complicações. É que Alzira Costa, que foi atropelada enquanto fugia ao fogo, alargaria a lista para 65. O que dizem os vários responsáveis.

Ministra da Administração Interna. Não há lista secreta mas há segredo de justiça

Para a ministra da Administração Interna, o número de vítimas mortais permanece o mesmo: 64. “O Governo não mantém uma lista secreta”, garantiu a ministra. Constança revelou que a lista das vítimas está com o Ministério Público e consta de um processo que está em “segredo de justiça”.

Essa lista está “devidamente certificada pela Polícia Judiciária e pelo Instituto de Medicina Legal”, acrescentou Constança Urbano de Sousa, que atribuiu à PJ e ao Ministério Público a investigação de “todas as mortes”.

António Costa. A contagem não compete ao Governo e não é assim que se mede a “dimensão desta tragédia”

No dia seguinte à notícia avançada pelo Expresso, o primeiro-ministro, António Costa, disse que estava tudo “esclarecido”. Ainda assim, foi cauteloso e não adiantou nenhum número oficial.

Depois das declarações da ministra da Administração Interna, esta segunda-feira, o primeiro-ministro destacou que “não é o Governo que contabiliza [os mortos]”. Para o primeiro-ministro, a contagem é da responsabilidade do Instituto Nacional de Medicina Legal, que deverá comunicá-las ao Ministério Público e à Polícia Judiciária.

António Costa garantiu que “todas as aldeias foram vistas casa a casa pelas autoridades, quer por técnicos da Segurança Social, quer pela Guarda Nacional Republicana, quer pelas Forças Armadas e que “a lista de desaparecidos” foi toda verificada e foram “todos identificados”.

O primeiro-ministro destacou várias vezes que a “dimensão desta tragédia não se mede pela dimensão dos números” e que “a estatística não altera a realidade”.

Procuradora-geral da República. Cabe ao Ministério Público divulgar lista

Contactada pelo primeiro-ministro, a Procuradora-geral da República “confirmou” que a lista de vítimas está abrangida pelo segredo de justiça e que a sua divulgação depende do Ministério Público. Esta posição consta de uma nota enviada à comunicação social pelo gabinete do primeiro-ministro, António Costa, a propósito da lista de vítimas resultantes do incêndio de Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, em junho passado.

Relativamente às solicitações que têm vindo a ser formuladas para que o Governo divulgue a lista cumpre esclarecer o seguinte: no dia 14 de julho o Instituto Nacional de Medicina Legal foi notificado pelo Ministério Público de que o processo das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande se encontrava em segredo de justiça”, lê-se no comunicado.

PGR. Dois inquéritos (ou mais), um apelo e a lista em segredo de justiça

A Procuradoria-Geral da República confirma que tem dois inquéritos abertos sobre os incêndios de Pedrógão Grande, mas admite abrir outros sobre mais vítimas que terão ficado fora da lista oficial por não estarem dentro dos critérios estabelecidos pela GNR/PJ e Medicina Legal e pede que lhe sejam enviadas todas as informações sobre o caso, disponibilizando mesmo uma morada.

Apela-se a todos os que tenham conhecimento de quaisquer factos relacionados com os incêndios de Pedrogão Grande o envio dos mesmos ao Ministério Público”, pode ler-se no comunicado.

O Ministério Público está a trabalhar em “investigações desde logo iniciadas em estreita colaboração com a Polícia Judiciária (PJ) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) e o apoio do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF) e das demais instituições envolvidas. No âmbito deste inquérito foram identificadas, até ao momento, 64 vítimas mortais”, diz ainda o comunicado.

Ministro da Defesa. Lista não é divulgada “porque o Ministério Público entende que assim deve ser”

Azeredo Lopes afirmou que foi realizado “um trabalho de rastreio muito intenso” por parte das Forças Armadas e da GNR no terreno para apurar se existiriam mais vítimas no incêndio de Pedrógão Grande.

“A partir de certa altura, o que se tentou apurar foi, para além daquelas 64 vítimas – o número oficial dado pelo Instituto Nacional de Medicina Legal –, ver se havia ainda a hipótese de haver outros corpos e outras vítimas que não tivessem sido encontrados”, disse aos jornalistas o membro do executivo, que esteve esta segunda-feira em Pedrógão Grande, na cerimónia do Dia do Município.

Segundo Azeredo Lopes, para averiguar tal possibilidade foi realizado “um trabalho de rastreio muito intenso levado a cabo quer pelas Forças Armadas quer pela GNR”, que foram “terreno a terreno, espaço a espaço, casa a casa, para ver se, infelizmente, haveria mais corpos ou mais vítimas a reportar”. O ministro da Defesa sublinhou ainda que o facto de não se conhecerem os nomes das vítimas é algo que não passa pelo Governo. Além disso, acrescentou, “nem pode” ser conhecida a identidade das vítimas, visto que o Ministério Público está a desencadear “um inquérito de natureza criminal” e entendeu, “até agora, que esses nomes não deveriam ser desvendados para proteção da investigação”.

“A lista de nomes não é divulgada não porque o Governo queira ou deixe de querer, mas porque o Ministério Público entende que assim deve ser para salvaguardar devidamente a investigação”, reforçou.

Porém, Azeredo Lopes defendeu que qualquer cidadão que considera que o nome de uma determinada vítima “não está a ser devidamente registado” deve “dar a conhecer esse nome” e as circunstâncias da sua morte ao Ministério Público ou a outras autoridades, que “não deixarão de reportar esse facto”.

“Até ver – e já passaram muitos dias sobre a tragédia –, ainda ninguém se dirigiu ao Ministério Público para esse efeito” ou a qualquer outra autoridade “para reportar essa morte”, frisou, criticando o facto de se pensar que haveria uma “qualquer artimanha” para diminuir o número de mortos no incêndio de Pedrógão Grande.

Ministério da Justiça. Não resta nenhum corpo por identificar, examinar ou entregar à família

O Governo assegurou que todos os 64 corpos das vítimas mortais da tragédia de Pedrogão Grande conhecidas das autoridades foram entregues até 25 de junho às respetivas famílias, não restando nenhum corpo à guarda das autoridades por identificar, examinar ou entregar à respetiva família.

Um comunicado divulgado pelo Ministério da Justiça (MJ) refere que o Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF) fez esta segunda-feira o levantamento de todos os processos relativos a corpos que deram entrada nos seus 28 serviços desde 18 de junho até esta segunda-feira, não tendo sido obtida qualquer informação adicional relativamente à que já existia e assim se mantendo a nota da identificação de 64 vítimas mortais.

O Governo aconselha porém que, havendo suspeita ou informação sobre eventuais vítimas mortais do incêndio para além das 64 já referidas, devem as mesmas ser transmitidas ao Ministério Público (MP). A identificação das vítimas é matéria do processo-crime que se encontra neste momento sob direção do MP a quem compete definir os termos e modos da sua divulgação”, adianta a nota enviada pelo Ministério da Justiça.

Na sequência do incêndio de Pedrógão Grande, o MJ recorda que, na noite de domingo (18 junho) e madrugada do dia seguinte, foram transportados para a Delegação Centro (de Coimbra) do INMLCF os corpos de 61 vítimas mortais.

“Na segunda-feira de manhã [20 junho] foram ainda levantados os corpos de mais duas vítimas mortais que, entretanto, tinham sido referenciados pela GNR à PJ e ao INMLCF, e que também foram transportados para a Delegação Centro do INMLCF, perfazendo o total de 63 vítimas mortais cujos corpos foram localizados e removidos”, lembra ainda o MJ, observando que a estas 63 vítimas mortais veio posteriormente a juntar-se um bombeiro da corporação de Castanheira de Pera, falecido já no hospital, para onde tinha sido transportado na sequência dos graves ferimentos sofridos no combate ao incêndio.

“Até à presente data não foram comunicadas às autoridades, nem estas delas tiveram conhecimento, notícias de mais pessoas desaparecidas ou mortas, para além das 64 acima referidas”, insiste o MJ, precisando que um atropelamento com uma vítima mortal do sexo feminino é “conhecido desde o primeiro momento”, estando o MP a averiguar as concretas circunstâncias em que o acidente de viação ocorreu.

Deputados do PSD. Governo tem 24 horas para divulgar a lista

Os deputados do PSD Teresa Morais, Carlos Abreu Amorim e Miguel Morgado mostraram-se indignados esta segunda-feira com o “silêncio do Governo” perante as dúvidas que consideram inadmissíveis acerca do número real das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande. Os deputados utilizaram as suas páginas do Facebook para criticar ainda o facto de o processo se encontrar em segredo de justiça.

“Não é digno de um país do primeiro mundo — como Portugal ainda é e tem de continuar a ser — este crescendo de suspeições acerca da possibilidade de um encobrimento feito a partir do primeiro dia”, pode ler-se na publicação de Carlos Abreu Amorim.

Miguel Morgado criticou a ação do governo desde o início por ter querido “reter informação, multiplicando contradições flagrantes e induzir “conclusões” que se confirmaram falsas”. “O silêncio do governo continua e pesa como chumbo sobre uma Nação incrédula!”, disse Teresa Morais na sua publicação.

Hugo Soares, presidente da bancada parlamentar do PSD, deu esta segunda-feira 24 horas ao Governo para divulgar lista nominativa dos mortos: “Eu não quero acreditar que o senhor primeiro-ministro e o Governo estão a fazer gestão política da tragédia que assolou Pedrógão Grande”

Presidente da Câmara de Pedrógão Grande. “Sempre houve boateiros. Quero que corram com os boateiros”

O presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande garantiu esta tarde de segunda-feira em declarações à SIC Notícias não ter conhecimento da lista global, acrescentando que as autarquias têm a sua própria lista,r do conhecimento que têm das pessoas que faleceram.

Valdemar Alves disse que a zona afetada pelo incêndio foi passada a “pente fino”. “Eventualmente, poderá aparecer um cadáver aqui ou acolá”, notou, apesar de duvidar que tal tenha acontecido, visto que ninguém se dirigiu à Câmara “a reivindicar a morte ou desaparecimento de fosse quem fosse”.

Valdemar Alves lamentou e criticou as pessoas que afirmam aos órgãos de comunicação terem listas com o número total de vítimas mortais. O presidente defende que essas pessoas devem ser “responsabilizadas”. Valdemar Alves sublinhou que há que “ter boa-fé”, frisando que há “pessoas que gostam de contrariar e de perseguir o poder”. “As pessoas que andam com estas histórias [de mais vítimas mortais] devem ter o bom senso e a vergonha de parar. Sempre houve boateiros. Quero que corram com os boateiros”, disse o presidente do município.

Autarcas de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos. Divulgação da lista para serenar populações

Os municípios de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos sugeriram a divulgação da lista de vítimas do incêndio de junho. “Para serenar as populações, se calhar não era desajustado que se tornasse público ou se compilasse o nome e a relação de todas as pessoas”, disse à agência Lusa o presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos, Jorge Abreu, que referiu ainda não ter tido acesso à lista oficial de vítimas. No entanto, o autarca frisou que, no terreno, todos têm conhecimento “de quem faleceu e de quem foi vítima”.

Também o autarca de Castanheira de Pera, Fernando Lopes, considerou que, “se calhar, o melhor é divulgar a lista” para acalmar as populações, visto que têm corrido várias listas e rumores de mais vítimas mortais nos concelhos mais afetados. Porém, Fernando Lopes recordou que os familiares das vítimas também poderão não estar “disponíveis para autorizar a divulgação”. “Quem tem responsabilidade nesta matéria tem de responder por ela e desfazer as dúvidas todas”, frisou.

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