59 mortos e 527 feridos, eis o saldo final daquele que ficou conhecido como o pior massacre da História dos Estados Unidos, levado a cabo no passado dia 1 de outubro por Stephen Paddock, a partir de um quarto de hotel em Las Vegas e contra uma multidão que assistia na altura a um festival de música country.

Na imprensa norte-americana e internacional, multiplicaram-se as imagens do terror e os relatos pungentes dos sobreviventes. Como o de Braden Matejka, um canadiano de 30 anos que conseguiu fugir com a namorada, não sem antes ter sido baleado pelo atirador na cabeça. Coberto de sangue, correu até ao parque de estacionamento e foi socorrido por um outro homem que tinha escapado ileso e o levou até ao hospital mais próximo.

“Se tivesse sido um centímetro acima, tinha atingido o cérebro e eu tinha morrido. Estou só tão agradecido por ainda estarmos aqui e não consigo sequer explicar quanto lamento pelas pessoas que não se salvaram”, disse Matejka numa entrevista, ao lado da namorada, em lágrimas.

És um mentiroso de merda, espero que alguém te dê mesmo um tiro na cabeça“, escreveu-lhe, uma semana apenas após o tiroteio, um homem que não conhecia no seu perfil de Facebook. “A tua alma é nojenta e negra! Vais pagar as consequências”, disse-lhe outro. “Vais pagar no outro lado”, ameaçou um terceiro.

Várias pessoas o acusaram, tanto naquela rede social como no Instagram, de ser um ator (“crisis actor” é a expressão utilizada) a soldo do governo dos Estados Unidos — não só não tinha sido ferido, garantiam, como o massacre tinha sido uma encenação engendrada para legitimar o aumento das políticas de controlo de armas no país. Não terá sido o único, garante o The Guardian.

A Mike Cronk, um ex-professor de 48 anos que relatou aos media a forma como conseguiu proteger e salvar o melhor amigo, também ele atingido por uma das balas disparadas por Paddock, aconteceu o mesmo. Ou pior: entretanto foram descarregados no YouTube uma série de vídeos em que é apresentado como “Mike Cronk, ator de crise” e acusado de fingir ferimentos e tratamentos.

https://www.youtube.com/watch?v=qkCovva4AK4

Braden Matejka ainda terá tentado responder e explicar aos acusadores que as teorias da conspiração não faziam sentido, mas acabou por apagar simplesmente as contas que mantinha nas redes sociais e desaparecer da Internet.

“Há uma série de famílias que estão a lidar com a coisa mais terrível por que alguma vez vão passar, e que têm também de aguentar todo este ódio e raiva e de serem atacados online por fazerem parte de uma conspiração. É uma loucura. Nem consigo imaginar como é que estas pessoas pensam. Será que eles têm noção de que nós somos pessoas reais?“, desabafou em conversa com o jornal inglês Taylor Matejka, irmão de Braden.

Rob McIntosh, agente imobiliário de 53 anos, do Alasca, foi atingido várias vezes, no peito e no braço, mas também sobreviveu. E também foi visado pelos defensores da teoria que atribui ao governo norte-americano os homicídios de Stephen Paddock. “Já passaste por algo traumático e terrível e ainda vem alguém por cima por a tua honestidade em causa. E nem sequer te dão hipótese de responder. É de enfurecer qualquer um.”