Foi no último dia dos Jogos de Inverno, mas foi mais do que a tempo. Ester Ledecka, a checa de 22 anos que deixou o mundo de cabeça à roda após ganhar medalhas de ouro no esqui e no snowboard, tinha o perfil exato para ser a cara do melhor filme saído de PyeongChang. Mas também há a história de Tessa Virtue e Scott Moir, os bicampeões canadianos da dança no gelo que apaixonaram o mundo com o seu amor platónico. E os caminhos entre lesões e demais desastres de Mark McMorris e Lim Hyo-jun até ao pódio. E o fenómeno Chloe Kim, a nova menina querida do desporto americano. E o plano metódico que Elizabeth Swaney desenhou para chegar ao halfpipe mesmo sem saber fazer uma única manobra. E Marit Björgen, que fez uma pausa na carreira para ser mãe antes de voltar aos Jogos e tornar-se a atleta mais medalhada de sempre. Mas entre isto tudo, há um capítulo escondido que será para sempre recordado. Um capítulo que só mesmo os Simpsons acreditavam.

Sim, os Simpsons. Esses mesmos que está a pensar. Como recorda o Mundo Deportivo, a mesma série que um dia imaginou que Donald Trump seria presidente dos Estados Unidos. Os espetadores riram-se, mas tornou-se real. A mesma série que um dia imaginou que Lady Gaga iria aparecer a voar num intervalo do Super Bowl. Os espetadores torceram o nariz, mas tornou-se real. A mesma série que, no 12.º episódio da 21.ª temporada, imaginou uma vitória americana no curling dos Jogos (na altura, os que se realizavam em Vancouver, com a equipa Homer/Marge). Os espetadores, até por todo o contexto que abaixo iremos descrever, acharam impossível. Tornou-se real. E foi o próprio guionista e produtor executivo da série que recordou isso no Twitter. “As boas previsões também se podem tornar realidade”, escreveu Al Jean.

Os Estados Unidos conseguiram mesmo bater a Suécia na final por 10-7, naquele que já é considerado o segundo “Miracle on ice”, recordando o inesperado triunfo da equipa amadora de hóquei em gelo frente à campeã e super favorita União Soviética, nos Jogos de 1980 realizados em Lake Placid, Nova Iorque. Mas porquê tanta coisa por causa do feito? Basicamente porque foi o triunfo da perseverança, da humildade e do sacrifício. Em resumo, da equipa dos “Rejeitados”.

Apresentemos a personagem principal deste filme: John Shuster (não confundir com o Bernd Schuster, o médio que foi campeão europeu de futebol pela Alemanha em 1980 e passou por Barcelona, Real Madrid, Atl. Madrid ou Bayer Leverkusen), o vendedor de 35 anos que trabalha da Dick’s Sporting Goods e que era uma espécie de campeão caído em desgraça.

Depois de ter sido tricampeão nacional, entrou na equipa dos Estados Unidos que participou nos Jogos de 2006 de Turim e ajudou à conquista da medalha de bronze após o triunfo frente à Grã-Bretanha (o Canadá ganhou essa final à Finlândia). No entanto, as participações nas duas edições seguintes, em 2010 e 2014, correram tudo menos bem: primeiro ficou em último, depois em penúltimo. O Comité Olímpico americano não perdoou a má prestação e criou um novo projeto de alto rendimento para a modalidade com dez atletas. Shuster, visto como o principal elo fraco, ficou de fora.

O jogador de Minnesota tinha sido trucidado nas redes sociais, com uma série de tweets e memes a gozar com a atuação em Sochi mas nem por isso desistiu do sonho de um dia brilhar nos Jogos e, revoltado com a decisão dos dirigentes, decidiu criar a sua própria equipa: os Rejeitados. Numa primeira instância, convidou John Landsteiner, um engenheiro de corrosão que tinha estado nos Jogos de 2014; depois, chamou Matt Hamilton (aquele que aqui falámos pelas parecenças com o Super Mario, que esteve também na prova de duplas mistas com a irmã, Becca), que também tinha sido cortado da lista; por fim, falou com Tyler George, um amigo com experiência internacional. A equipa de quem todos fugiam estava fechada.

As provas nacionais sucediam-se e os Rejeitados iam ganhando ao conjunto nacional de “elite”. Shuster foi mesmo aos Mundiais de 2016, conseguindo a medalha de bronze. Na qualificação para os Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, nova surpresa: os Estados Unidos estariam representados pela equipa que ninguém queria. Não havia mesmo volta a dar.

Como explica um artigo da Slate, já aí Shuster começava a ser encarado de outra forma: o antigo empregado de um bar que trabalhava na Dick’s Sporting Goods, adorava pizza e tinha como principal herói no desporto o jogador de basebol Kent Hrbek conseguira o que poucos ou nenhuns acreditavam ser possível. “Pensava que iria entrar nesse programa de alto rendimento mas, de repente, não estava entre os escolhidos. Disseram-me mesmo ‘Desculpa, não te queremos’. Deve ter sido a coisa que mais me doeu”, recordou durante os Jogos deste ano ao Star Tribune. A vingança da figura que se recusou a aceitar a derrota e trabalhou ainda mais para mostrar que estavam equivocados na decisão serviu-se (literalmente) fria.

Shuster mudou radicalmente de vida, perdendo mais de dez quilos após deixar de comer fast food e voltar ao ginásio. E houve ainda um episódio caricato quando o próprio The New York Times, vendo o estado desgastado dos ténis de Tyler George nos Jogos (descritos como “uns Skechers de oito anos com mais buracos do que um escorredor de massa), decidiu avançar com a entrega de um par de sapatilhas novas. Apesar de terem somado quatro derrotas nos nove jogos na fase inicial da competição (Suécia, Itália, Japão e Noruega), os Estados Unidos ganharam ao Canadá nas meias-finais e à Suécia na final.

“Era um sonho que tínhamos para chamar a atenção para o desporto. Estamos muito contentes por cada um de nós e porque, quando começámos a série vitoriosa esta semana, o número de vídeos de crianças e dos pais a dizerem que querem começar no curling e o entusiasmo dos adeptos chegou a um nível que nunca tínhamos visto. Foi isso que nos motivou a seguir, porque queremos que o nosso desporto seja tão amado nos Estados Unidos como nós amamos”, comentou Tyler George.

“Fiquei feliz por ter aquela oportunidade de fazer a última jogada. A crença dos rapazes à minha volta e todo o trabalho que fomos fazendo, tudo isso me deu muita confiança. Mas se fosse qualquer um deles a fazer aquela jogada, seria o mesmo”, disse no final John Shuster, que tinha a família nas bancadas e, de acordo com o US Today, viu o filho ao colo de alguém especial a gritar “USA, USA, USA” no momento da consagração: Ivanka Trump, filha do presidente americano que representou o país na cerimónia de encerramento. Segredo? Como contou a NBC, houve também um momento importante para Shuster: o dia em que, após uma derrota na fase de grupos, leu a história de Dan Jansen, patinador de velocidade americano que, antes de ganhar o ouro na sua despedida, nos Jogos de 1994 em Lillehammer, falhara também duas vezes.