Em condições normais, Lim Hyo-jun estaria a ver os Jogos Olímpicos de Inverno na bancada ou no pavilhão. E não, não é por ser mau; apenas porque não era o melhor. Vejamos: na patinagem de velocidade em pista curta, a Coreia do Sul contava com nomes como Lee Jung-su, bicampeão nos Jogos de 2010, ou Park Se-yeong, presença constante nos últimos anos. Contra a maioria das antevisões, ambos ficaram de fora e o jovem de 21 anos lá conseguiu uma das três vagas nas qualificações nacionais, a par dos “reputados” Hwang Dae-heon e Seo Yi-ra.

O feito, por si só, foi um fantástico prémio individual. Quase um troféu, tendo em conta a quantidade de infortúnios que teve de superar ao longo da curta carreira. Este sábado, Lim Hyo-jun sagrou-se campeão olímpico na prova masculina de 1.500 metros. E assumiu o estatuto de herói nacional.

Desde cedo que Lim queria ser atleta, mas o seu primeiro desporto nada teve a ver com a patinagem: era nadador. E gostava de ser nadador, até ao dia em que feriu com gravidade um tímpano, o que o obrigou a deixar as piscinas. Foi nessa altura que se virou para a patinagem de velocidade, desporto com tradição na Coreia do Sul, mas nem por isso deixou de se ver obrigado a uma série de infortúnios físicos com gravidade: entre uma fractura numa perna e um problema num tornozelo que lhe tirou seis meses de competição, foi operado sete vezes.

Nunca desistiu e, em paralelo com a qualificação olímpica, brilhou na primeira Taça do Mundo, em Budapeste, entre o final de setembro e o início de outubro de 2017, onde ganhou duas medalhas de ouro (1.000 e 1.500 metros) e uma de prata (500 metros). Nos Jogos Olímpicos de Inverno, era uma esperança nacional… secundária.

Sjinkie Knegt (prata), Lim Hyo-jun (ouro) e Semen Elistratov (bronze): o pódio dos 1.500 metros (Jamie Squire/Getty Images)

Com eliminatórias mais ou menos rápidas, consoante o decorrer da prova e aquilo que fosse acontecendo, os três sul-coreanos carimbaram sem problemas a passagem às meias-finais vencendo cada uma das suas séries. Aí, o cenário foi diferente: Seo Yi-ra não foi além do terceiro posto na primeira ronda, caindo para a final B (a partir do nono lugar), ao passo que Lim Hyo-jun venceu a terceira e última série à frente do também qualificado Hwang Dae-heon. Na final, a três voltas do final, o canadiano Charles Hamelin chocou com Hwang e ficaram ambos fora de prova. Sobrava Lim, que não desiludiu: vitória com o tempo de 2.10,485, um novo recorde olímpico que superou a marca que tinha sido alcançada pelo compatriota Lee Jung-su nos Jogos de Vancouver, em 2010.

O holandês Sjinkie Knegt terminou na segunda posição com o tempo de 2.10,555, ao passo que a medalha de bronze ficou para Semion Elistratov, representante dos Atletas Olímpicos da Rússia (2.10,687). Samuel Girard (Canadá), Sándor Liu Shaolin (Hungria), Itzhak de Laat (Holanda) e Thibaut Fauconnet (França) foram os outros finalistas, além dos supracitados Hwang Dae-heon e Charles Hamelin.

Já estava farto e quis desistir muitas vezes, mas as pessoas que estão à volta disseram-me para nunca duvidas das minhas capacidades. Tive sempre essa frase na minha cabeça enquanto treinava”, referiu Lim no final da prova à Yonhap News Agency.

Também no final, outra “surpresa”: Lim Hyo-jun dedicou a medalha de ouro a Viktor An, um dos grande atletas de sempre da modalidade também sul-coreano que trocou de seleção nacional em 2011, passando a competir pela Rússia, e que falhou estes Jogos Olímpicos de Inverno por ser um dos quase 50 atletas do país excluídos. “Quando vi An a correr em 2006, comecei a sonhar pela primeira vez ser campeão olímpico. Disse-me que poderia conseguir e deu-me muitos conselhos. Tenho muito respeito por ele e, quando soube que não iria competir, foi algo terrível para mim porque teria sido uma honra correr contra ele”, salientou.