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França

Como uma agenda encontrada no Danúbio ajudou a incriminar Sarkozy

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Em 2012, o antigo ministro do petróleo da Líbia foi encontrado morto em Viena no Rio Danúbio. Com ele tinha uma agenda onde era referido o financiamento líbio à campanha eleitoral de Sarkozy em 2007.

AFP/Getty Images

No dia 29 de abril de 2012, em Viena, Shukri Ghanem, o homem que tinha sido primeiro-ministro e ministro do petróleo da Líbia durante o regime de Kadhafi foi encontrado morto no rio Danúbio. Junto a ele estava uma agenda que onde se podia ler sobre o financiamento do regime líbio à campanha presidencial de Nicolas Sarkozy em 2007, conta esta terça-feira o jornal El Mundo.

Ghanem tinha estudado nos Estados Unidos e era até portador de passaporte italiano, oferecido por Silvio Berlusconi como agradecimento por contratos assinados na Líbia pela petrolífera italiana Eni. Era um homem que conseguia relacionar-se bem com o ocidente. Exemplo disso foi o esforço que fez para reintroduzir a Líbia e o seu petróleo nos circuitos comerciais depois do ataque patrocinado pelo regime a um avião da Pan Am, em 1988.

Depois do atentado, o regime de Kadhafi sofreu sanções internacionais e Ghanem foi o responsável por restabelecer as relações, primeiro como membro da Corporação Nacional do Petróleo e depois como primeiro-ministro. A missão foi cumprida e o processo terminou com a Líbia a pagar 2.300 milhões de dólares (cerca de 1.850 milhões de euros) de indemnização às famílias das vítimas em 2003.

Mas a reconciliação total de Kadhafi com os líderes europeus só aconteceu em 2007, quando foi a Paris ter com um Nicolas Sarkozy já presidente francês após uma campanha que ficou conhecida pelos elevados valores envolvidos. Nesse ano, Ghanem já ocupava o cargo de presidente da Corporação Nacional do Petróleo da Líbia. Mas as boas relações entre os dois países só duraram quatro anos, até ao início da Primavera Árabe, em 2011.

A coligação da NATO decidiu fazer bombardeamentos contra posições do regime líbio, uma ideia que partiu de Nicolas Sarkozy. A França foi ainda o primeiro país a reconhecer a legitimidade dos rebeldes líbios. Foi nesta altura que surgiram as primeiras suspeitas de que algo podia ter acontecido no financiamento da campanha de Sarkozy, quando o filho de Muhammar Kadhafi, Saïf Al-Islam Kadhafi, deu uma entrevista à Euronews:

Para já, Sarkozy tem devolver todo o dinheiro que aceitou da Líbia para financiar a sua campanha eleitoral. Fomos nós que financiámos essa campanha, temos todos os detalhes e estamos prontos para torná-los públicos. Por isso, a primeira coisa que pedimos a esse palhaço do Sarkozy é que devolva o seu dinheiro ao povo líbio. Ajudámo-lo a chegar a Presidente porque achámos que isso ia ajudar o povo líbio, mas ele desiludiu-nos.”

Shukri Ghanem fugiu para Viena, lugar onde já tinha trabalhado alguns anos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Chegou a declarar apoio ao governo provisório da Líbia, mas tal não foi aceite, porque as autoridades diziam que ele era aliado do filho de Kadhafi.

Shukri Ghanem foi primeiro ministro e ministro do petróleo da Líbia (SAMUEL KUBANI/AFP/Getty Images)

Além disso começou a ser investigado por corrupção enquanto era ainda presidente da Corporação Nacional do Petróleo. A auditoria, conhecida em 2012, afirmava que Ghanem tinha defraudado a companhia americana ExxonMobil, fornecendo petróleo de baixa qualidade. Houve quem afirmasse que o resultado da auditoria levou Ghanem a suicidar-se mas isso é algo que não se sabe. Na noite anterior à sua morte jantou normalmente com a mulher e com a filha. A autopsia ao cadáver revelou que a queda ao rio aconteceu por volta das cinco da manhã. O corpo não apresentava sinais de violência ou intoxicação. O que é certo é que o corpo foi encontrado a flutuar no Danúbio. E com ele tinha uma agenda: uma agenda que incrimina Sarkozy, o ex-presidente francês que foi detido esta semana para interrogatório.

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