“Levamos muito a sério a questão da cibersegurança e a proteção de dados”, disse Richard Yu, presidente executivo da Huawei Consumer BG, em conferência de imprensa. Questionado sobre qual a posição sobre a polémica da Cambrigde Analytica, que manteve ilegalmente dados do Facebook para análise estatística, Yu respondeu: “Não vendemos a informação a terceiros”. Sobre se devia haver mais regulação nesta área, afirmou: “Sim, com certeza”.

Não vendemos informações a terceiros. Temos regras muito rígidas quanto a este assunto. É bastante perigoso e tem muitos riscos ceder esse tipo de informação”, afirmou Richard Yu quando lhe pediram a opinião sobre o Facebook e a Cambrigde Analytica.

Quanto a regulação, o executivo garantiu que a Huawei “já cumpre o RGPD” (o novo regulamento europeu de proteção de dados que passa a ser plenamente aplicável a partir de 25 de maio de 2017). Mesmo assim disse, como também Mark Zuckerberg fez recentemente, que é preciso mais. O papel de criar esta legislação “deve ser dos governos”, assumiu ainda.

Numa sala com jornalistas de todo o mundo, surgiu uma das maiores questões atualmente da Huawei: a presença da marca, ou falta dela, nos Estados Unidos da América. Em janeiro, Yu já tinha feito um discurso efusivo por as operadoras americanas se recusarem a vender produtos da Huawei. “90% dos smartphones nos EUA são vendidos pelas operadoradoras”, queixou-se o executivo em Las Vegas, na CES, a maior feira de tecnologia do mundo.

Mesmo assim, a empresa arriscou os 10% e tentou vender os produtos através de retalhistas. Contudo, na passada semana, a Best Buy  — um dos maiores retalhistas eletrónicos americanos e o único a vender produtos da Huawei em solo americano — anunciou que ia deixar de vender os equipamentos da chinesa. “Não quero comentar assuntos políticos”, disse Richard Yu em resposta ao Observador.

Na conferência, afirmou ainda: “Não é por causa da tecnologia, não é por causa do nosso produto, mas isso não importa, mesmo sem o mercado americano, vamos ser o número um”. Uma afirmação ousada, principalmente quando os EUA, o maior mercado de consumo, estão a criar este problema à chinesa por medo de espionagem. Na apresentação dos novos smartphones da marca esta terça-feira, executivos de operadoras de comunicações europeias (da espanhola Telefonica, da alemã T-Mobile e da francesa Orange), afirmaram, em vídeo, que vão continuar a trabalhar com a Huawei, elogiando a empresa.

O entalhe, a entrada de auriculares e o carregamento sem fios

Na conferência de imprensa o foco também foi para os novos smartphones da empresa, os P20 e o Mate RS. Quanto ao entalhe no topo do ecrã, apresentado pela Apple com o iPhone X, Richard Yu disse que o objetivo foi “dar aos consumidores um ecrã maior”. Em relação ao iPhone X, apenas comentou que o entalhe dos P20 “é menor”.

Relativamente à marca ter-se inspirado na Apple, não fez comentários, mas revelou que o objetivo, no futuro, é “não ter entalhe de todo” para o ecrã ser realmente de canto a canto. A câmara e os sensores no topo do ecrã “podem desaparecer por completo” disse, mas para isso  “vão ser necessárias novas tecnologias”.

Yu não confirmou se a Huawei já está trabalhar nessa tecnologia, mas quanto a ecrãs dobráveis, uma das novas tecnologia de que há rumores no mercado, confirmou: “Estamos a trabalhar nisso. Não temos data, mas já temos um protótipo”. Ainda sobre os produtos do futuro, Richard Yu salientou que o 5G (a rede a seguir ao 4G) é o próximo passo e que, inevitavelmente, os dispositivos vão ser cada vez “mais poderosos”.

Questionado pelo Observador sobre a razão de a marca, ao contrário da Samsung, ter abandonado a entrada para headphones nos smartphones nos topo de gama da marca, Yu explicou: “Assim arranjamos mais espaço para a bateria, para antena e, sem o jack [entrada tradicional para auriculares com fios], os aparelhos podem ser mais resistentes à poeira e água”. O executivo disse também que através da entrada Type-C (nova entrada universal), que serve também para carregar, é possível ter melhor qualidade de som do que com a entrada jack.

Sobre o carregamento sem fios, uma opção que não está disponível no novo topo de gama da empresa, Richard Yu diz que “não gosta” porque não é isso que os consumidores querem. Tentou justificar a afirmação com dados estatísticos e disse que a tecnologia ainda não é eficiente: “Basta pôr um smartphone em cima de uma base [carregadora] de forma errada para não funcionar”. Mesmo assim, os equipamentos de luxo que foram apresentados pela Huawei, os Mate RS (com preço entre os 1500 e 2100 euros) já têm placa para carregamento por indução.

Richard Yu terminou a conferência a afirmar que, como a marca, “faz o impossível ser possível”: “Há 10 anos que estou com responsável por fazer da Huawei a número um e vejam onde chegámos”.

*O Observador esteve em Paris, no evento de apresentação dos P20, a convite da Huawei.