Sérgio Fernando Moro é o nome do momento no Brasil. Na verdade, Sérgio Fernando Moro é o nome do momento há quatro anos. Já foi “Brasileiro do Ano” em 2014 para a revista Época e a Bloomberg considera-o o 10.º líder mais influente do mundo. Filho de dois professores universitários, passava despercebido nas aulas, mas as notas saltavam à vista nas pautas. Sérgio Moro é juiz federal da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba e o principal responsável pela Operação Lava Jato. Foi ele quem decretou a prisão de Lula da Silva em abril. Agora vai ser ministro da Justiça de Bolsonaro.

O aluno de mérito que preferia ginástica a futebol

Nasceu a 1 de agosto de 1972 – dia em que o pai, Dalton, comemorava o 29.º aniversário. A relação com o pai foi sempre próxima e com uma boa dose de idolatração, quiçá agudizada por partilharem o dia em que nasceram. Dalton Áureo Moro era professor de geografia. A mulher, Odete Starki Moro, lecionava português. Sérgio é o mais novo dos dois filhos do casal.

O juiz federal foi criado numa família de classe média, em plena ditadura militar, mas gozava de certos privilégios de que o comum brasileiro não desfrutava. Maringá, a cidade paranaense onde nasceu, foi considerada a mais limpa e segura do Brasil e, em certa altura, a mais arborizada do mundo. O pai de Sérgio Moro era sócio e frequentava o Clube de Campo da cidade: pai e filho iam juntos de carro para o clube, onde Dalton se juntava a amigos para jogos de futebol. O Diário do Centro do Mundo conta que, ao longo dos anos, ninguém viu Sérgio num campo de futebol. No país de Pelé, Romário e tantos outros, o juiz preferiu sempre a ginástica e o ciclismo.

Embora fossem ambos professores numa escola pública, Dalton e Odete confiaram a educação de Sérgio ao Colégio de Santa Cruz, uma instituição privada e católica, onde o mais novo dos Moro recebeu uma educação rígida por parte de duas freiras carmelitas espanholas – ambas canonizadas. Desde os 6 anos e pelos dez seguintes, Sérgio Moro estudou numa escola onde se segue o lema “o caminho é a perfeição” e em casa tinha dois professores universitários enquanto pais. A missão de corrigir o que estava errado foi-lhe enraizada desde bastante novo.

No colégio de freiras, fez três grandes amigos que se mantêm até aos dias de hoje: Lafayete, Luis e Eduardo. Nenhum deles fala sobre Sérgio. O superjuiz que controla os destinos da Operação Lava Jato pediu aos amigos – bem como à família e aos colegas de trabalho – que nada revelem sobre a sua vida fora dos tribunais. E os três amigos cumprem. O máximo que contam é que Sérgio Moro, hoje com 45 anos, é adepto do Grémio Maringá, das divisões estatais do futebol brasileiro. O juiz federal recusa a grande maioria dos pedidos de entrevistas e, segundo a Gazeta do Povo, os assessores até já se riem dos jornalistas que as pedem. A mãe, Odete, conta que “tem uns amigos na Folha de S. Paulo, na Veja e na Globo a quem dá entrevistas quando quer”.

Em 1989, saiu do Colégio de Santa Cruz e continuou os estudos no Colégio Gastão Vidigal. No último ano antes de entrar na universidade, em dez disciplinas, a nota mais baixa que teve foi um 8,6 (no Brasil, a classificação faz-se de 0 a 10). Entrou em Direito na Universidade Estadual de Maringá e pertenceu a uma turma de 40 alunos de onde saíram seis juízes. Manteve-se discreto, de poucas palavras, raramente frequentava festas e dedicava todo o tempo livre aos estudos. A primeira festa a que foi coincidiu com o primeiro dia em que andou de autocarro: a amiga Rita Agioletto, que o tinha convidado para a dita festa, conta que Sérgio chegou em êxtase, contando a toda a gente que tinha acabado de andar de transportes públicos pela primeira vez.

Além deste dia, o desconhecimento do agora juiz face à pobreza que se vivia no resto do país foi visível quando tinha já 29 anos. Nessa altura, propôs-se a escrever um ensaio jurídico intitulado “Quem são os pobres”, onde revelou a dificuldade que sentiu em descrever quem era e como vivia a classe mais baixa do Brasil.

O professor que citava “Breaking Bad” e o juiz que é “o espelho do pai”

Estagiou num escritório de advogados durante o curso e em 1995 estava licenciado em Direito. Tornou-se mestre em 2000 e em 2002 concluiu o doutoramento em Direito do Estado. Antes disso, fez um programa de formação de advogados em Harvard e assistiu a uma iniciativa sobre lavagem de dinheiro promovida pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Em 1996, tornou-se juiz federal no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região e começou a dar aulas na Universidade Federal do Paraná — onde citava Walter White, a personagem principal da série “Breaking Bad“, para dar exemplos de conduta ilícita.

Foi em 2003 que começou a dar nas vistas nos julgamentos de colarinho branco. Entre 2003 e 2007, trabalhou no caso Banestado, que resultou na condenação de 97 pessoas; na Operação Farol da Colina, um desdobramento do Banestado, decretou a prisão temporária de 103 suspeitos de evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Em 2012, auxiliou a magistrada do Supremo Tribunal Federal Rosa Weber no Mensalão: foi convocado por ser especialista em crimes financeiros e no combate à lavagem de dinheiro. Na mesma altura, pediu a dispensa do cargo de professor na Universidade do Paraná.

Em março de 2014, já enquanto juiz federal da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, foi apontado como principal responsável da Operação Lava Jato – considerada a maior investigação contra a corrupção da história do Brasil. Sérgio Moro conduz as operações com distinta rapidez – num país onde considera a justiça “muito morosa” -, um traço de personalidade que, de acordo com um antigo amigo da família, o juiz herdou do pai.

“O Serginho é o espelho do pai. Ele não gostava de inovar. Era metódico e legalista, seguia os regulamentos. A gente ia para um congresso e ele levava provas para corrigir no ônibus [autocarro]. Ninguém mais fazia isto, só o Moro era tão exigente consigo mesmo. O Dalton passou isto ao Serginho. Passou conceitos de moral, de bons costumes. Serginho é Dalton Moro no passado”, conta ao Diário do Centro do Mundo Elpídio Serra, ex-aluno e mais tarde amigo do pai de Sérgio Moro.

A relação próxima entre Sérgio e Dalton — que morreu em 2005, vítima de cancro — é motivo para a esquerda brasileira no geral e o Partido dos Trabalhadores em particular acusarem o superjuiz de ter uma agenda própria no que toca à Operação Lava Jato. Desde 2014, os rumores de que Moro era próximo do Partido da Social Democracia Brasileira multiplicam-se e a investigação judicial tornou-se uma luta esquerda-direita que tem o magistrado como principal eixo.

Amigos, família e colegas de profissão recusam qualquer associação partidária de Sérgio Moro – bem como do pai, Dalton. A suspeição tem origem em 1990 e é Basílio Baccarin, amigo do pai do juiz, que desmistifica a história. Naquele ano, Baccarin associou-se à fundação do Partido da Social Democracia Brasileira em Maringá e acabou por ser eleito vereador. Dalton Moro, seu colega e amigo, apoiou a campanha. “Moro me apoiou, como amigo. Esteve sempre comigo durante a minha campanha e só me dizia que eu deveria ser menos radical”, explicou Basílio Baccarin. De acordo com o antigo professor, este foi o único contacto de Dalton Moro com partidos políticos.

A família e o medo que a Lava Jato trouxe

A condução da Operação Lava Jato levou Sérgio Moro a ter preocupações acrescidas com a própria segurança e a da família. Casado com a advogada Rosângela Wolff de Quadros e com dois filhos, tomou as medidas necessárias para proteger a privacidade de que não abdica. Deixou de ir trabalhar de bicicleta e agora fá-lo de carro blindado e acompanhado por seguranças. Deu indicações explícitas à família e aos amigos para que nada contassem sobre ele e pediu-lhes que apagassem todas as fotografias que pudessem ter nas redes sociais onde aparecesse. Para a direita tornou-se um ídolo. Para a esquerda, o líder do golpe.

As repercussões das suas decisões – principalmente da condenação de Lula da Silva – foram difíceis de imaginar. Ameaças de morte tornaram-se o dia-a-dia de um homem que sempre gostou de passar despercebido. O Diário do Centro do Mundo conta um episódio caricato: o porteiro do prédio onde ainda vive Odete Moro, a mãe do juiz, é um fã incondicional do magistrado. Sérgio entrava no edifício pelas traseiras e Edson, o porteiro, só o via através da câmara de vigilância do elevador.

Um dia, decidiu pedir à mãe do juiz que o ajudasse a conseguir uma fotografia com Sérgio. O dia chegou, ela chamou-o, o porteiro subiu e conseguiu a tão aguardada selfie. Na semana seguinte, foi abordado por dois agentes federais que lhe pediram para apagar a fotografia. As ameaças de morte tinham-se tornado mais frequentes e era perigosa a existência de fotografias de Sérgio Moro perdidas no telemóvel de um qualquer porteiro.

Em julho de 2017, o juiz Sérgio Moro condenou Lula da Silva a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro – pena que foi entretanto agravada para 12 anos e um mês. Em abril de 2018, após rejeição do habeas corpus preventivo pelo Supremo Tribunal Federal, enviou um ofício a autorizar a prisão do ex-presidente do Brasil. O superjuiz tornou-se a cara da luta contra a corrupção na política brasileira. Não se sabe como será afectada a sua imagem depois de aceitar o convite de Bolsonaro.

(artigo publicado inicialmente em abril e actualizado com os últimos factos sobre a possibilidade de integrar a administração do novo Presidente)