Ganhou três vezes o Giro D’Italia e duas vezes o Tour de France, as míticas voltas a Itália e França em bicicleta. Embora não seja o ciclista com mais vitórias em nenhuma das provas, devem ser poucos aqueles que não gostariam de ter uma carreira e um palmarés parecidos aos de Gino Bartali. Mas as proezas deste italiano não se ficam pelas conquistas em 1936, 1937 e 1946 em Itália, e em 1938 e 1948 em França.

Entre o outono de 1943 e a primavera de 1944, Bartali ajudou a evitar que centenas de judeus italianos fossem deportados e enviados para os campos de extermínio alemães.

A vitória no Tour de 1938 foi usada por Mussolini como forma de fazer propaganda ao regime. O ciclista tinha caído nas boas graças do líder italiano, e Elia Dalla Costa, um cardeal amigo da família de Bartali pensou que este prestígio poderia ser vantajoso para a missão em que tinha pensado.

O cardeal tinha criado uma rede clandestina formada por freiras, frades franciscanos e monges, com o objetivo de impedir que judeus fossem deportados pelas forças alemãs que se encontravam em território italiano. Faltava apenas alguém que servisse de correio e levasse os documentos falsos que permitissem aos judeus sair de Itália. Bartali foi o escolhido. Fez pelo menos 45 vezes os quase 200 quilómetros que separam Florença (onde vivia) de Assis. Levava os documentos e dinheiro debaixo do assento da bicicleta pelas estradas secundárias e caminhos ciprestes da região da Toscânia. A viagem de ida e volta era feita toda no mesmo dia e nem a própria família sabia aquilo que ele fazia. Bartali era católico mas não foi isso que o moveu, diz o filho, citado pelo El País:

Ele considerava que essas coisas se fazem mas não se contam. Vinha de uma família muito humilde. Estavam habituados a ajudar-se para seguir em frente e ele aprendeu a ser uma pessoa generosa. O que o moveu não foi a fé católica. Foi a humanidade”

Esta história nunca foi totalmente conhecida até 2010 (dez anos depois da morte do ciclista), altura em que dois jornalistas italianos se esforçaram para que Bartali fosse reconhecido como “Justo entre as Nações” — o título concedido àqueles que ajudaram judeus durante o Holocausto. Conseguiram falar com Giorgio Goldenberg, um judeu que viveu escondido durante dez meses, com os pais e com o avô, numa casa que era propriedade de Gino Bartali. Foi este o passo decisivo para que o Estado de Israel reconhecesse os feitos do ciclista.

Agora, no dia em que começa a 101.ª edição do Giro, Bartali volta a ser recordado. As três primeiras etapas vão ser corridas em solo israelita e a primeira, um contra-relógio de 9,7 quilómetros em Jerusalém, vai ser dedicada ao italiano. Na quarta-feira, aliás, foi-lhe foi-lhe atribuído o título de Cidadão Honorário de Israel. A neta Gioia recebeu o certificado durante a cerimónia realizada no Jardim dos Justos entre as Nações.