“Se Pele quiser aparecer, Pele aparece”, afirmou Curt Redman, um habitante de Puna, localidade havaiana que, nos últimos dias, tem sido vítima de uma intensa atividade vulcânica que já atingiu patamares históricos — há dez anos que não havia tamanha concentração de lava e há 70 que não havia um tremor de terra tão intenso como o da passada sexta-feira (vários foram-se sucedendo, o mais forte atingiu os 6,9 na escala de Richter).

Na declaração que Redman prestou à NBC News, o havaiano refere-se à deusa do fogo, dos trovões, do vento e, claro, dos vulcões. Segundo a mitologia desta ilha norte-americana, a tempestuosa e instável Pele — que também é considerada a criadora das ilhas havaianas — mora na cratera mais elevada do vulcão Kilauea e, de vez em quando, irrita-se. É da sua fúria que nascem as torrentes de lava que tantas vezes já inundaram esta zona dos EUA. É aqui que a mitologia e a realidade se cruzam e prova disso é o cenário que tem posto em risco milhares de habitantes da Big Island, a maior ilha do arquipélago havaiano. Resta saber como tudo aconteceu.

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Até ao final de domingo, pelo menos 21 casas já tinham sido destruídas pela lava expelida pelo vulcão Kilauea, no estado norte-americano do Havai, que alcança mais de 60 metros de altura, segundo os cientistas no local. “Esse número pode ainda aumentar”, declarou a porta-voz do condado do Havai, Janet Snyder. As autoridades afirmaram ainda que as casas destruídas no bairro residencial de Leilani se encontravam sobre buracos no chão abertos pelo vulcão, que inicialmente expeliram lava, mas no domingo já só libertavam vapor e gás. De acordo com o Observatório de Vulcões do Havai, existem dez aberturas, ao passo que no sábado só existiam oito.

Há mais magma (rocha fundida abaixo da superfície da Terra) no sistema para entrar em erupção. Enquanto essa fonte estiver lá, a erupção vai continuar”, disse a vulcanologista do Departamento de Pesquisas Geológicas dos Estados Unidos, Wendy Stovall. As aberturas podem eventualmente tornar-se uma grande cratera, como já aconteceu em erupções vulcânicas anteriores no Havai, disse Stovall.

“Se perdermos a nossa quinta, não sabemos para onde iremos. Perdemos a nossa casa e os nossos rendimentos, ao mesmo tempo. Tudo o que podemos pode fazer é rezar e esperar”, disse Cherie McArthur, que tem esta quinta há cerca de 20 anos, à agência noticiosa norte-americana Associated Press.

Cerca de 240 pessoas e 90 animais passaram a noite de sábado em abrigos, relatou a Cruz Vermelha norte-americana. O condado do Havai ordenou a retirada de mais de 1.700 pessoas de Leilani Estates e Lanipuna Gardens.

Os primeiros sinais em março

Segundo o United States Geological Survey (USGS), os primeiros sinais de que algo podia estar para acontecer surgiram a 18 de março, altura em que as câmaras instaladas no topo do vulcão começaram a registar um lento, mas contínuo, aumento do caudal vulcânico da cratera.

Ao de leve, a cratera foi enchendo até que no dia 22 de abril, um domingo, o vermelho alaranjado começou a ver-se pela primeira vez com os primeiros borbulhares vulcânicos. Foi preciso esperar até à passada sexta-feira, 3 de maio, para se sentir “a fúria de Pele”: no bairro de Leilani abriu-se uma fenda no chão de onde brotaram os primeiros riachos de gases tóxicos e lava.

Durante o desenrolar destes fenómenos vulcânicos foram-se registando vários pequenos tremores de terra, mas nenhum deles se aproximou do abalo que agitou a Big Island no final da tarde da passada sexta-feira, 4 de maio. Criou-se, assim, a “tempestade perfeita” que pôs as autoridades havaianas em estado de emergência.

Atualmente já são vários os buracos que se foram abrindo no solo e que têm debitado lava um pouco por toda a ilha. Ikaika Marzo, uma local, contou ao canal televisivo local aquilo que viu acontecer ao pé de casa, numa zona de floresta: “Quando estávamos na estrada, ouvimos um barulho estranho a sair da floresta, parecia um “baque” subtil. Três ou cinco segundos depois começou a cheirar a enxofre, pouco depois o cheiro ficou ainda mais intenso e vimos um esguicho de lava a saltar no meio das árvores.”

Episódios como este aconteceram um pouco por toda a ilha e isso só reforçou ainda mais a pertinência da ordem de evacuação emitida pela Proteção Civil do Condado do Havai na passada quinta-feira, quando se adivinhava que a situação poderia piorar (o que se verificou). Segundo a CNN, centenas de pessoas já abandonaram cerca de 700 casas, e foram realojadas em dois grandes centros comunitários.

Entretanto, as últimas informações das autoridades havaianas falam em cinco pontos de erupção principais, as tais fendas que se foram abrindo e que, afirma Talmadge Magno, responsável da Hawaiian Civil Defense, “provavelmente já destruíram vários edifícios e infra-estruturas”. “Não parece que isto vá abrandar em breve”, acrescentou ainda.

A casa de Neil Valentine e a sua família foi evacuada na madrugada de quinta para sexta-feira. À CNN, o norte-americano falou de “um grande desgosto”: “A minha mulher e eu estamos casados há 26 anos, tínhamos aqui a casa com que sempre sonhámos. Só pensar que ela pode ter desaparecido faz com que a minha mulher se desfaça em lágrimas.”

Todo este cenário dantesco também foi responsável pela falta de luz que já afeta 14 mil utentes da Hawaii Electric Light, a energética local. Rhea Lee-Moku, porta-voz da empresa, explica que estão a ser feitos todos os esforços possíveis para reverter esta situação, mas “há zonas onde a concentração de dióxido de enxofre é tão elevada” que os técnicos da empresa precisam de “proteções especiais”, que não têm, para conseguir remendar a rede elétrica. Esta libertação de gases é outra grande preocupação das autoridades, dado que o contacto prolongado com dióxido de enxofre pode ter consequências letais.

Idosos, crianças e pessoas com problemas respiratórios estão a ser consideradas “alvos prioritários” das manobras de evacuação.

O Governador do Estado do Havai, David Ige, já ativou o plano de emergência da Hawaii National Guard (força militar que é invocada em casos de emergência extrema) depois de assinar um despacho oficial onde descreve a situação como sendo de “um perigo de enorme magnitude.” A ver o que Pele ainda tem reservado para os habitantes da Big Island havaiana.

(artigo atualizado às 8h50 de 7 de maio com novas informações sobre a evolução das erupções vulcânicas e destruição de casas na ilha)