A eurodeputada socialista Ana Gomes considera que a OPA lançada sobre a EDP pelos chineses da China Three Gorges é um “esquema completamente opaco”, “contrário ao interesse nacional e estratégico”, que devia ser rapidamente travado pelo Governo. Em entrevista à TSF, Ana Gomes defendeu que o Executivo socialista devia procurar reverter a privatização da EDP e também da REN, duas empresas que pertencem a um setor “estratégico”.

“Como é que não se pensa, neste Governo, em reverter e de alguma maneira ganhar controlo sobre um setor que é estratégico não apenas para Portugal, mas para a Europa?”, interrogou a eurodeputada.

Contrariamente à OPA, “esquema” que considerou ser claramente “opaco”, Ana Gomes classificou como “transparente” a existência de um conflito de interesses por parte do ministro-adjunto Pedro Siza Vieira, “face às informações que temos”. “Estamos a falar de um ministro que foi advogado da China Three Gorges, antes de ser ministro. Antes disso, participou na feitura da lei que facilitou a OPA”, afirmou a eurodeputada.

De acordo com informações reveladas pelo Expresso, antes de ter pedido escusa do processo, Siza Vieira ter-se-á reunido com os chineses. Ana Gomes não põe de parte que isso tenha acontecido “noutro contexto”, mas considerou ser claro “que há aqui um problema de conflito de interesses”. Para a socialista, esta é mais uma razão para que seja “imperativo” travar “a OPA nestas condições”.

Portugal continua a ser “uma lavandaria de Angola, num esquema de branqueamento de capitais”

Outro tema abordado durante a entrevista à TSF foi o caso Manuel Vicente e a decisão do Tribunal da Relação de enviar o processo para Angola. “A argumentação do acórdão da Relação é penosa de ler, designadamente por assentar no facto de, se o indivíduo ser condenado, será melhor reabilitado em Angola, onde reside”, afirmou a eurodeputada, lembrando que foi “sonegada à opinião pública uma questão essencial: é que Manuel Vicente também tem nacionalidade portuguesa”. Porém, Ana Gomes não tem certeza de que isso teria “implicações” na decisão do tribunal, uma vez que esta “foi fabricada à medida do que era conveniente para fazer desaparecer ‘o irritante'”. Para Ana Gomes, a “influência política é óbvia”.

“Houve declarações do próprio primeiro-ministro e do Presidente da República que sugeriam que já conheciam o teor do acórdão antes dele ser conhecido publicamente”, afirmou a eurodeputada socialista, considerando que “o poder judicial se moldou ao que convinha à política”.

Apesar do envio do processo para Angola, Ana Gomes considera “ilusório o desaparecimento do ‘irritante'” porque Portugal continua a ser “uma lavandaria de Angola, num esquema de branqueamento de capitais para angolanos”. “Mais tarde ou mais cedo, isso vai voltar”, até porque “há gente da sociedade civil angolana que está a fazer o seu trabalho”, disse em entrevista à TSF. Para a socialista, é “desastroso para Portugal que se preste a ser instrumento de interesses corruptos” que representam “uma roubalheira para o povo angolano”.