Ricardo Robles revela "excelentes qualidades empresariais", diz PSD que pede demissão do vereador do BE

A oposição na Câmara não poupa Ricardo Robles e já há um pedido de demissão. O PSD opta pela ironia e diz que o vereador do BE tem um "perfil que é valorizado no PSD". Bloco mantém silêncio.

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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O caso do prédio do vereador do Bloco de Esquerda Ricardo Robles já chegou à oposição na Câmara Municipal de Lisboa, com PSD a optar pela ironia e o CDS a disparar: “Haja vergonha!”. O vereador do CDS João Gonçalves Pereira desafia mesmo a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, a pronunciar-se sobre o assunto. Tanto ele, como João Pedro Costa, do PSD, criticam a “incoerência” de Robles, mas não farão mais do que declarações políticas. Já há um pedido de demissão, da concelhia de Lisboa do PSD. O PCP é, para já, mais comedido e diz que o caso “evidencia dinâmica de especulação brutal em Lisboa”.

“O PSD-Lisboa exige a renúncia do vereador Ricardo Robles, perdeu a legitimidade política para exercer o cargo”, diz ao Observador Paulo Ribeiro, líder da concelhia de Lisboa do PSD que, entretanto, deu esta indicação aos vereadores do partido na Câmara Municipal e aos deputados sociais-democratas na Assembleia Municipal.

“Não sei se há ou não ilegalidade — do que se conhece parece que não –, mas há imoralidade no discurso político do Bloco de Esquerda”, diz Gonçalves Pereira ao Observador. Já João Pedro Costa, opta pelos elogios irónicos: “Ricardo Robles fez um excelente investimento, aparentemente dentro da lei, apoiado por uma imobiliária credenciada, e com excelente margem de lucro, aparentemente também tudo legal. Revela excelentes qualidades empresariais, um perfil que valorizamos muito no PSD”.

[O que mudou? Veja no vídeo o antes e agora de Ricardo Robles]

O vereador social-democrata diz que “tudo o resto é um problema interno do Bloco de Esquerda. No PSD sempre entendemos que pessoas empreendedoras são desejáveis na nossa sociedade”. Quando confrontado com a questão da especulação no mercado imobiliário, argumenta: “A especulação, dentro da lei, faz parte da vida pública na economia de mercado”, mas logo a seguir é mais direto nas críticas ao vereador do Bloco: “É falso moralismo vir dizer uma coisa e fazer o contrário”. Diz que o seu partido “não tem nada a opor ao negócio”, mas que o que Robles fez é uma “total contradição” com o que defende: “Isto é o perfil de um social-democrata, é o perfil de um empresário de sucesso”.

No CDS, João Gonçalves Pereira diz que “a situação é tão óbvia, inusitada e revela tanta incoerência entre o discurso político e a prática, que fala por si só”, diz. Nas respostas ao Jornal Económico, que publicou a notícia sobre a pretensão de Robles vender um prédio em Alfama por mais 4 milhões de euros do que comprou,  o vereador do BE disse que o valor de renda que está a cobrar aos inquilinos que manteve “está abaixo do que a lei Cristas permitiria fazer”. “Nem o vereador Ricardo Robles, nem o BE, têm moral para fazer declarações desse tipo. Haja vergonha! Isto envergonha todo o sistema político. Que desfaçatez!”, atira o vereador democrata-cristão.

Ambos os vereadores da oposição foram questionados sobre se o caso atinge o exercício de mandato de Ricardo Robles na Câmara — o bloquista fez um acordo político com Fernando Medina, que lhe permitiu a maioria absoluta no executivo camarário, ficando com o pelouro da Educação e dos Direitos Sociais –, mas nenhum avançou com pedidos de demissão, só mais tarde o PSD-Lisboa veio dar uma orientação nesse sentido, pedindo que Robles saia. “É uma questão política. Um vereador não pode ter uma ação política e depois, enquanto cidadão, ter uma prática contrária”. O Observador contactou o Bloco de Esquerda, mas o partido não vai fazer declarações, pelo menos por agora. Ainda assim, dirigentes do partido, como a líder Catarina Martins ou Jorge Costa, partilharam nas redes sociais as explicações que foram publicadas, esta manhã, por Ricardo Robles.

O vereador comunista João Ferreira contorna o caso concreto de Robles — “sobre questões do domínio da conduta do vereador não quero fazer comentários por agora” — mas diz ao Observador que “este caso, a par de tantos outros, evidencia a dinâmica de especulação brutal que se abate sobre a cidade de Lisboa e que tem posto em causa o direito à habitação“. João Ferreira diz que o caso de Robles “é um entre tantos outros que evidenciam a necessidade de medidas de combate à especulação”.

“Ódio ao lucro abstracto, amor ao lucro concreto”, diz deputado do PS

O caso de Robles já teve várias reações políticas nas redes sociais, como a do deputado socialista Sérgio Sousa Pinto que partilhou, no facebook, o texto do Observador sobre o vereador do BE acrescentando que “a bancarrota moral também é isto”, “o ódio ao lucro abstracto. Amor ao lucro concreto”.

E não foi o único socialista a falar na notícia que envolve o bloquista, também o deputado Ascenso Simões escreveu no facebook a sua “consideração por R Robles que, como o apelido indica [a referência é à família Robles Monteiro que não é a de Robles] tem todas as condições para fazer negócios imobiliários que lhe permitam ganhar dinheiro”. Mas logo a seguir acrescenta que já “não tem qualquer consideração pelo Bloco de Esquerda quando se faz passar por virgem sofredora do mundo em que vivemos”.

Já o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, partilhou apenas a notícia do caso, sem acrescentar qualquer comentário. Há quem defenda Robles, como o deputado socialista Fernando Rocha Andrade que diz que olha e volta a olhar para “os factos vindos a público e diz que não vê “nada de censurável na atuação privada do vereador do BE em Lisboa. Nem contradição com as posições que defende”. Também diz que “contradição haveria talvez se ele fosse cristão”, citando o Evangelho segundo são Marcos, capítulo 10, versículos 17 a 27 que contam a história do homem rico que se dirige a Jesus e que pergunta o que terá de fazer para”herdar a vida eterna?”, retirando-se por ter “muitas propriedades”. “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus”, disse depois Jesus aos discípulos. “As contradições dos cristãos são mais raramente assinaladas…”, conclui o socialista.

Artigo atualizado às 14h00 com mais reações ao caso

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