Igreja Católica

Arcebispo Tolentino Mendonça continua a ser poeta. “Para mim não há diferença entre uma biblioteca e um jardim”

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Tolentino Mendonça, novo arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano, foi ordenado bispo este sábado. "Não sei ser bispo. Vou ter de aprender", disse na missa, garantindo que continuará a ser poeta.

D. José Tolentino Mendonça foi ordenado bispo este sábado no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa

Arlindo Homem/Ecclesia

Foi perante um Mosteiro dos Jerónimos cheio e na presença do Presidente da República que o padre Tolentino Mendonça foi este sábado ordenado bispo pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. “Há 28 anos, não sabia ser padre, como agora não sei ser bispo. Vou ter de aprender”, disse D. Tolentino Mendonça no final da celebração, quando agradeceu ao Papa Francisco por o ter  escolhido para o cargo de Arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e Bibliotecário da Santa Igreja Romana — ficando responsável por um dos mais famosos e estudados arquivos da história da Humanidade.

No documento que veio de Roma com a nomeação do padre e poeta português para aquele cargo — um dos mais importantes da Cúria Romana — lê-se que Tolentino Mendonça terá a missão de “zelar pelos escritos e testemunhos que os tempos nos legaram”. Vai ser responsável por uma “instituição de grande relevância”, advertiu o Papa Francisco no documento que foi lido no início da celebração deste sábado em Lisboa.

Na homilia, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, sublinhou a “fecunda escrita” que Tolentino Mendonça tem oferecido a Portugal e ao mundo e que “decerto continuará a oferecer”. Por isso, baseou o sermão em citações do novo arcebispo português, a quem elogiou a “inteira vocação” para a palavra e a “magnífica expressão” com que a utiliza. “Agradecemos ao Papa Francisco ter-te escolhido para zelar por um património único”, disse Clemente, dirigindo-se diretamente a Tolentino.

O novo arcebispo português, que a 1 de setembro inicia funções no Vaticano, recebeu as insígnias episcopais — anel, mitra e báculo — das mãos de D. Manuel Clemente, do cardeal D. António Marto e de D. Teodoro de Faria, bispo emérito do Funchal, que ordenou Tolentino Mendonça padre e o enviou para estudar em Roma há 28 anos. No final, agradeceu individualmente a cada um dos três bispos, afirmando que quando o Papa lhe disse que poderia ser ordenado fora de Roma por qualquer bispo católico, se lembrou imediatamente daqueles três nomes.

Confessando não saber ainda as razões do convite que lhe foi dirigido pelo Papa Francisco e não escondendo a “surpresa”, Tolentino Mendonça destacou que poderá ter a ver com a sua presença como orientador do retiro de Quaresma do Papa e da Cúria Romana no início deste ano. “Consola-me pensar que ele [o Papa Francisco], ouvindo-me nos exercícios espirituais, tenha percebido que para mim não há diferença entre uma biblioteca e um jardim”, disse, antes de terminar ao estilo do Papa Francisco: “Rezem por mim”.

“Ir além da ficção que romanceou o arquivo do Vaticano”

Já após a celebração, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, Tolentino Mendonça explicou aos jornalistas que o Papa Francisco espera que, nas novas funções, continue a ser “instrumento de diálogo e de aproximação entre a Igreja e a Cultura”, mas tentou desmistificar a “ficção” em torno do Arquivo Secreto do Vaticano. “O arquivo está muito aberto à sociedade. Há mais de 2 mil investigadores creditados junto do arquivo do Vaticano. É preciso ir além de uma certa ficção que romanceou muito aquele arquivo”, destacou.

“A minha preocupação será, por um lado, a de preservar aquele repositório, que é um grande tesouro da Igreja e da Humanidade, e ao mesmo tempo pô-lo a dialogar com a contemporaneidade”, acrescentou Tolentino Mendonça, destacando que será um colaborador próximo da reforma que o Papa Francisco está a levar a cabo na Igreja, a começar pelo interior da própria organização.

“Fui chamado pelo Papa Francisco certamente para colocar-me numa grande proximidade com a sua mensagem, com o seu programa para a Igreja do nosso tempo. Temos de ir além da autossuficiência e da autoreferencialidade, como diz o Papa Francisco, para sermos uma Igreja em saída”, sublinhou. Mesmo nas novas funções na cúpula da Igreja Católica, Tolentino Mendonça garante que não vai deixar de ser poeta e vai continuar a “colocar ao serviço da Igreja” os seus “talentos”. “A escrita é uma forma de comunicação na qual continuarei a apostar”, afirmou o arcebispo.

Marcelo Rebelo de Sousa: “Não é só um português, é um português excecional”

O Presidente da República esteve na primeira fila durante a celebração e, no final, sublinhou que a nomeação de Tolentino Mendonça para liderar o Arquivo Secreto do Vaticano é “muito importante para as relações entre Portugal e a Santa Sé”. “É a presença junto do Papa, mas mesmo junto do Papa, numa responsabilidade fundamental, numa categoria de bispos em que é muito raro haver portugueses, de uma personalidade excecional. Não é só um português, é um português excecional”, destacou Marcelo Rebelo de Sousa.

“Significa que o Papa Francisco quis ter esta personalidade junto dele”, afirmou o Presidente da República, sublinhando que Tolentino Mendonça “é uma das grandes figuras da cultura portuguesa e todos admitem isso” — crentes e não crentes. “Como poeta, como escritor, como figura que permanentemente exerceu a sua missão na educação, na universidade e fora dela”, exemplificou Marcelo.

Ainda assim, o Presidente da República considera que a ida de Tolentino Mendonça para Roma não significa que Portugal vai perder um talento. “Continua a ser um grande pensador, um grande intelectual e, mais do que isso, um homem junto das pessoas. Até nos livros ele descobre as pessoas”, sublinhou, elogiando o “grande amigo de há várias décadas”.

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