Daisy Osakue dirigia-se para a sua casa em Moncalieri, nos subúrbios de Turim, por volta da 1h30 da madrugada, quando foi atingida por ovos atirados a partir de um carro em movimento. A atleta teve de ser operada ao olho esquerdo devido a uma lesão na córnea, pondo em risco a sua participação nos europeus de Atletismo, que decorrem em Berlim a partir de 6 de agosto.

Osakue é considerada uma promessa no lançamento do disco em Itália. Nascida em Turim de pais nigerianos, a jovem naturalizou-se italiana aos 18 anos. Devido às suas origens nigerianas e ao clima político vivido em Itália, com algumas vozes dos partidos da direita a manifestarem publicamente contra a imigração e o governo a opor-se abertamente à entrada de migrantes, o ataque foi inicialmente classificado como um ato racista.

A própria atleta considerou o ataque como racismo. “Foi um ataque estúpido e gratuito. Um ataque racista. Gostaria de falar com estes jovens, compreender porque fizeram uma coisa destas. Não queriam agredir-me a mim Daisy, mas sim desejavam atacar-me como uma rapariga negra. Nesta zona há várias prostitutas, confundiram-me com uma delas. Já tinha sido vítima de episódios de racismo, mas só verbais. Mas quando se passa das palavras às ações, passasse para outro nível”, cita o diário espanhol ABC.

No entanto, as autoridades já afastaram o cenário de racismo. De acordo com a mesma publicação, os investigadores esclareceram que o carro já tinha sido sinalizado há vários dias por estar envolvido em ataques semelhantes a pedestres, não havendo um padrão entre as vítimas. Segundo a BBC, até este ataque não havia motivos de suspeitar de motivações racistas.

Uma fotografia da atleta após o ataque foi divulgada nas redes  sociais. Daisy surge em lágrimas e com o olho visivelmente inchado, o que gerou indignação e desencadeou uma discussão política sobre a questão do racismo no país.

“Os ataques com as pessoas de cor de pele diferente são uma emergência. Isto já é uma prova que ninguém pode negar, sobretudo se se senta no governo de Itália”, criticou o ex-primeiro ministro Matteo Renzi na sua conta pessoal no Twitter.

Em resposta, o vice-chefe de Estado e ministro do interior, Matteo Salvini, recusa o aumento do racismo no país. “Emergência racista em Itália? Não digam parvoíces. Recordo que nos últimos três dias, no meio do silêncio geral, a polícia deteve 95 imigrantes, enquanto outros 414 foram denunciados”, disse num comunicado citado pela ABC. “Todas as agressões devem ser punidas e condenadas, mas certamente que a imigração em massa permitida pela esquerda nos últimos anos não ajudou”, concluiu.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados em Itália denunciou o aumento deste tipo de incidentes. “O número de agressões contra migrantes, requerentes de asilo, refugiados e cidadãos italianos de origem estrangeira estão a aumentar. Condenamos todos os ataques racistas e xenofobos e expressamos solidariedade para com as vítimas”, pode ler-se numa publicação no Twitter.

A Sky News relata vários destes incidentes, nomeadamente o caso de uma menina de 13 meses que foi atingida com uma pistola de pressão de ar em Roma. No mês passado, um homem de Cabo Verde, com autorização de residência no país, foi alvejado nas costas enquanto trabalhava na instalação de luzes para um festival na região de Veleto. Dias antes, em Nápoles, dois jovens alvejaram um cozinheiro do Mali, que já vive em Itália há quatro anos. Na semana passada, um jovem do Senegal foi agredido no café onde trabalha na Sicília por três italianos.