A poucas horas de saber se o Senado dá luz verde ao seu nome para o Supremo Tribunal dos EUA, Brett Kavanaugh enfrenta mais uma acusação. Um dos seus antigos colegas de quarto no primeiro ano na Universidade de Yale acusa o juiz de ter mentido sob juramento sobre o seu consumo de álcool habitual e sobre o conteúdo do seu livro universitário. Num artigo de opinião na Slate, James Roche escreve que Kavanaugh tenta a todo o custo “evitar o embaraço” das acusações de agressão sexual de que tem sido alvo. E isso, acrescenta, leva-o “a mentir de forma despudorada, sem hesitações nem reservas”.

Embora não socializassem muito fora da residência universitária na altura, Roche assistiu muitas vezes ao estado em que Kavanaugh regressava ao quarto depois de uma farra ou noitada, muitas vezes à beira do coma alcoólico. “Chegava a dizer coisas incoerentes, todo atarantado, às vezes cantava e em certos momentos usava o que me parecia um velho capacete de baseball em cabedal. Depois acabava a vomitar e de manhã era um problema gigantesco conseguir arrancá-lo da cama”, recorda James Roche, acrescentando que ele próprio chegava em estado semelhante em muitas noites. “Não sou nenhum menino de coro, mas pelo menos eu, ao contrário de Brett, não vou testemunhar sob juramento e diante da televisão nacional e defender que sou”.

Mesmo não tendo sido ainda contactado pelo FBI, que conduz as investigações ao passado do juiz indicado por Donald Trump para o Supremo Tribunal, James Roche assegura que está disponível para falar. Recorde-se que Brett Kavanaugh enfrenta várias acusações de agressão sexual de mulheres com quem se terá cruzado na altura em que estudava na universidade de Yale. Essas alegações justificaram a ida de Christine Blasey Ford, a primeira a falar, aà Comissão de Justiça do Senado norte-americano para contar o que se terá passado. Também Kavanaugh já foi ouvido na mesma comissão, tendo então negado todas as acusações.

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James Roche, que assumiu o seu apoio a outra antiga colega, Deborah Ramirez — uma das mulheres que acusa Brett Kavanaugh de a ter assediado sexualmente numa festa universitária também nos anos 80 –, voltou mesmo a defendê-la esta semana num programa de Anderson Cooper na CNN. “Há zero hipóteses de que ela esteja a inventar aquela história”, garante.

Embora diga que não tem forma de saber se Kavanaugh atacou Ford ou Ramirez, garante que ele mentiu sobre outras questões. Entre essas “mentiras” estarão algumas das explicações dadas por Kavanaugh sobre expressões usadas na altura como “boofing” (que o juiz contou ser o equivalente a flatulência) ou “triângulo do diabo” (que diz ser o nome de um jogo com bebidas).

“Fiquei chocado quando ouvi”, confessa, “porque essas palavras eram referências comuns a atividades sexuais, eles falavam muito sobre isso e tal contribuiu para reforçar a minha impressão de que aqueles tipos tratavam as mulheres de uma forma que eu não gostava”.

Criado numa família republicana, como explica, James Roche revela ainda que esteve hesitante sobre se deveria falar ou não sobre o passado de Kavanaugh. Acabou por decidir por achar que era sua obrigação expor a verdade. “Isto não é sobre problemas com a bebida ou encorajar outros a beber também, não é sobre dizer asneiras ou usar linguagem brejeira. Não é sequer sobre aquela área cinzenta entre os limites sexuais que estamos dispostos a testar com alguém eo abuso sexual. Isto é sobre negação, é sobre mentir e sobre não enfrentar as consequências”, defende.

James Roche junta-se assim a outro antiga colega do juiz que também o acusa de ter mentido ao Senado. Segundo Chad Ludington, Kavanaugh abusava da bebida, consumia álcool de forma descontrolada e ficava agressivo nessas situações.