Na Internet, Paulo Borges é “Wuant”. Cada vídeo que coloca no YouTube para os mais de três milhões de subscritores do seu canal começa sempre com a frase “Sup doods, o meu nome é Wuant”. Com mais ou menos alterações, é assim desde 2012, altura em que decidiu apostar num canal com vídeos em português sobre jogos. Hoje, é um dos YouTubers portugueses mais conhecidos, tendo sido um dos pioneiros neste fenómeno da Internet que chegou ao país recentemente. Pelo meio, apostou na música e aventurou-se na “Casa dos YouTubers”. Agora, lançou o debate sobre a proposta do artigo 13 da diretiva da Comissão Europeia relativa aos direitos de autor no mercado único digital. E fê-lo com estrondo, fogo de artifício e eficácia.

Esta segunda-feira, publicou um vídeo a alertar para o facto de que as alterações previstas no artigo 13 — que diz que plataformas como o YouTube passam a ter mecanismos automáticos para impedir a publicação de imagens ou vídeos protegidos por direitos de autor — podem acabar com “a Internet como a conhecemos”.

As dúvidas e receios de Wuant já chegaram a mais de um milhão de visualizações e levaram a Comissão Europeia a escrever esta quinta-feira uma carta aberta aos YouTubers, onde garantia que “o artigo 13 não vai acabar com a Internet”. Mas, afinal, quem é este YouTuber que pôs Portugal a falar sobre uma directiva da União Europeia?

Foi em janeiro de 2012 que tudo começou. Wuant já estava no YouTube há mais tempo, mas decidiu que era a altura de produzir vídeos em português depois de ter sido incentivado por alguns seguidores, explicava no seu primeiro vídeo. Assim nascia o canal que atualmente já conta com mais de mil vídeos publicados e 866.288.608 visualizações contabilizadas no total. Wuant, natural de Aveiro, gravava essencialmente experiências de jogos, onde explicava estratégias e dava a sua opinião. Foi assim, aliás, que grande parte dos YouTubers que se tornaram famosos começaram o seu percurso: jogavam e filmavam-se a jogar. Na altura, tudo era gravado com a webcam ou com a câmara do telemóvel.

Ainda antes de o fenómeno dos YouTubers invadir Portugal, Wuant já começava a ser conhecido. No mesmo ano em que começou o canal, participou em meetings (encontros) com fãs, onde confessava: “Nunca dei tantos autógrafos e tirei tantas fotografias na minha vida”. Em outubro de 2014, quando já produzia vídeos com conteúdos mais diversificados — as suas reações enquanto via outros vídeos, desafios como o “tenta não rir” e histórias engraçadas –, o jovem de 23 anos chegou aos 100 mil subscritores. Dois anos depois, apanhava o boom dos YouTubers e chegou ao primeiro um milhão de subscritores, com direito à chamada “placa do Youtube”. Em 2017, chegou aos dois milhões. Este ano já vai em três milhões, tornando-se num ídolo para os mais novos.

Wuant chega à publicidade: NOS, Galp, Continente

“O Wuant tinha 200 mil seguidores — agora tem 2,8 milhões. Era totalmente desconhecido. As marcas não lhe ligavam. Tanto que lhes pedi vídeos a explicar o que faziam. O Wuant tem um vídeo a dizer ‘Tenho 200 mil subscritores’. Atualmente é engraçado ver essa evolução”, dizia em 2016, numa entrevista ao Observador, Miguel Raposo, um dos agentes dos YouTubers. Pouco a pouco, Wuant e companhia tornavam-se cada vez mais populares e alcançavam novos seguidores (nem só em Portugal). E as marcas começaram a ver isso. “Ele [Wuant] não é só YouTuber, todo ele é uma marca. Chamá-lo só de YouTuber já não faz muito sentido, quando no Instagram ou no Twitter ele é mais forte do qualquer figura pública portuguesa” acrescentava Miguel Raposo. No Instagram, já conta com mais de 700 mil seguidores e no Twitter atingiu os 400 mil followers.

O impacto e influência crescentes também trouxeram mais reconhecimento a Wuant: em novembro do ano passado ganhou o prémio de vlog do ano e vlog de entretenimento, nos prémios promovidos pelo grupo Media Capital. O YouTube, disse no final em entrevista à TVI, “é um espaço muito mais confortável onde cada pessoa pode ser ela à sua maneira, fazer as suas coisas”. Depois disso, surgiram as oportunidades na publicidade, dando a cara a um anúncio da NOS a um Power Router que prometia wi-fi até dez vez mais rápida. A razão da escolha foi simples: “Quem vive na net e da net é para a NOS o melhor embaixador para falar sobre o serviço”, disse a empresa, citada pela Meios & Publicidade. Dentro ou fora da plataforma, as marcas começaram a apostar em Wuant, que traz consigo um público que é fácil de alcançar, mas nem sempre fácil de convencer.

A lista continua: no âmbito da participação portuguesa no Mundial de Futebol, que se realizou este ano na Rússia, a Galp fez um vídeo de apoio à seleção que contou com figuras portuguesas de todas as áreas, como Salvador Sobral, Frederico Morais, os jogadores da seleção — e também Wuant, que surgia a gravar um vídeo e, de seguida, a ser visualizado por duas crianças através de um computador. Também o Continente o utilizou na sua campanha de regresso às aulas deste ano, juntamente com a namorada “Owhana”, que também tem um canal no YouTube desde 2016.

Tudo o que Wuant faz, diz ou usa é imitado pelos fãs. E, apesar de nunca terem sido revelados números concretos, as estimativas mostram que esta área dá dinheiro, ainda que parte dele não venha do YouTube. Segundo o site Socialblade, que faz uma estimativa dos rendimentos que os YouTubers em todo o mundo têm através da publicação de vídeos e das respetivas visualizações, Wuant pode ganhar, por mês, entre 4 mil e 77 mil euros. Anualmente, os valores podem andar entre os 58 mil e os 934 mil euros, um número que varia bastante consoante o vídeo que for publicado e as visualizações que conseguir obter. A tudo isto falta acrescentar o que Wuant recebe de patrocínios e publicidade, cujos valores não são divulgados.

A relação de proximidade com os fãs é algo que Wuant faz questão de desenvolver — e fala disso nos seus vídeos. Admitiu, no entanto, que é difícil “atender a todos” e vê essa questão como uma das consequências da fama, afirmando que tudo o que quer “é fazer vídeos”. “Quando ligo a câmara sou uma versão mais extrovertida de mim. O Wuant é uma versão mais extrovertida do Paulo“, disse numa entrevista à RTP para o programa “Linha da Frente”.

De vídeos na “Casa dos YouTubers” à tour pela casa com a namorada

Em abril de 2017, teve início um projeto que deu ainda mais projeção a Wuant. À semelhança do que já tinha sido feito no estrangeiro, os YouTubers mais conhecidos decidiram partilhar uma casa localizada em Alcochete — além de Wuant, D4rkFrame (António Ramos), SirKazzio (Anthony Sousa), Windoh (Diogo Silva), Pi (Miguel Monteiro, também conhecido como Ovelha Nigga), Gato Galático (Ronaldo de Azevedo), Nuno Moura e Dant (Dante Lopes, antigamente conhecido como Malacueca). Nascia assim a “Casa dos YouTubers” que, segundo Wuant e os companheiros, era “uma casa milionária”.

Durante cerca de um ano, viveram juntos e gravaram grande parte dos vídeos na casa, incluindo cenas a pregarem partidas e a fazerem desafios uns aos outros. Em março deste ano, a “Casa dos Youtubers” acabou. “Não podíamos controlar, somos sete homens a viver numa casa, a fazer porcaria”, disse Wuant num vídeo que gravou no último dia do projeto para explicar o que aconteceu.

Depois de uma (breve) passagem pelos Estados Unidos, Wuant partilha agora casa com a namorada, Owhana, que também é YouTuber. E fez um vídeo com um tour pela piscina, sala de entretenimento e estúdio próprio.

A entrada no mundo da música e o livro sobre o início

À medida que o canal de Wuant crescia, ia aparecendo espaço para explorar outras áreas. E o YouTuber aproveitou para entrar no mundo da música, com várias canções rap. A sua produção mais conhecida chama-se “Anyone can do it” (em português “Qualquer um faz”), uma música que aborda as críticas negativas das quais os YouTubers são alvo: “O que tu ganhas ganho eu em horas vagas // Falas de nós como sendo umas pragas // Mas ya diz-me quem é que pôs o YouTube em altas”. O videoclipe conta já com mais de 10 milhões de visualizações, tornando-se no vídeo mais visto do canal de Wuant.

O YouTube é, aliás, o grande tema que Wuant aborda em todas as suas produções. “YouTuber”, “Dedicação” e “Tu copias” são exemplos de músicas que lançou e falam da sua experiência neste mundo que conta com cada vez mais fãs. A música é, muitas vezes, a forma que arranja para responder às críticas ou contar a sua história e a forma como cresceu.

No ano passado, o YouTuber lançou um livro — “O Início” — onde descreve através de banda desenhada todo o seu percurso. “Este livro é um sonho concretizado. Sinto que a cada dia que passa concretizo sonhos que nem eu sabia que tinha. Tudo isto graças ao pessoal que me apoia todos os dias, os dudes… VOCÊS. Obrigado, do fundo do meu coração, e espero que gostem do meu livro!”, escreveu na sinopse. E deixou ainda um recado: “Este é apenas o início de uma aventura”.