O agente dos YouTubers: "Um milhão de visualizações pode dar entre 500 e mil euros"

Já foi apelidado de "o agente dos YouTubers", mas afirma que se vê como "muito mais que isso". Entrevista a Miguel Raposo, o homem por detrás de figuras como Wuant, Sir Kazzio, D4rkframe ou Windoh.

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Foi numa festa de aniversário dos filhos que conheceu o fenómeno dos YouTubers, com um vídeo de Miguel Luz. O tema? Uma paródia aos One Direction. O ano era 2012 e o fenómeno YouTubers ainda só era conhecido, principalmente, entre os mais jovens. Na altura, era dono da agência Milenar, que comprou e vendeu. Mas voltou a ter uma agência própria, que fundou de raiz, a Be Influence, que representou, no auge do fenómeno, a maioria dos YouTubers da antiga famosa “Casa dos YouTubers” (que, em fevereiro, teve uma cisão e levou a uma separação dos artistas).

A agência que criou em 2016, com Pedro Silveira, foi responsável por lançar alguns dos YouTubers mais conhecidos do país, como Wuant, Sir Kazzio, ou D4rkFrame. Atualmente, agenciados como Diogo Silva (Windoh) são a cara de campanhas da Meo, que levaram a marca a ter um dos vídeos de YouTube mais vistos em Portugal durante dois dias seguidos. Miguel Raposo já foi apelidado como o “agente dos YouTubers”, mas afirma que se vê como “muito mais que isso”. No final do dia, diz, a chave está em “reconhecer o talento” destes artistas da Internet e “dar liberdade” para criarem os próprios conteúdos.

O impacto de alguns vídeo, às vezes, pode ser “demasiado” para algumas idades, assume o agente, que é pai de três filhos mas deixa-os verem os conteúdos. Mesmo sabendo que o público preferido destes YouTubers são os mais jovens, o último livro que escreveu, “Torna-te um Guru das Redes Sociais” (lançado em 2017), foca-se na outra vertente do seu trabalho — fazer chegar os YouTubers a todas as pessoas. “Faltam conteúdos portugueses para a geração dos 25/35 anos”, diz.

Miguel Raposo está por detrás de figuras como Wuant, Sir Kazzio, D4rkframe ou Windoh (Foto: João Porfírio/Observador)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O vídeo viral na festa da filha que o levou a agenciar os YouTubers

Quem é que foi o primeiro YouTuber da agência a ficar conhecido?
Houve vários. Estamos a falar do Wuant, do Sir Kazzio, do D4rkframe. Isto foi muito com a ajuda dos meus filhos. Iam acompanhando o fenómeno e mostravam-me as coisas. No caso do Miguel Luz, foi numa festa de anos da minha filha que os ouvi a cantar uma música e perguntei qual era a canção. Era uma paródia aos One Direction que o Miguel tinha feito.

Foi fácil falar com os Youtubers, mas, como eram todos menores, a proposta tinha que passar sempre pelos pais. Tinha sempre de haver um compromisso entre os pais e a agência para fazer a gestão de carreira. Por exemplo, no caso do Miguel Luz havia muitas campanhas que eram recusadas porque ele estudava e tinha muitos exames.

O vídeo de Miguel Luz, a parodiar uma canção dos One Direction, foi viral em 2012

Esse compromisso era feito com os pais?
Sim. Os pais diziam às vezes: “Não, porque ele agora está em exames”. Estávamos a falar de campanhas de um miúdo de 16 anos que pode ganhar cinco mil euros, mas se calhar isso significava que tinha de estar dois dias fora de casa, na época de estudo para os exames.

Esses valores passavam sempre pelos pais?
Sim, porque um menor não pode passar uma fatura.

E a relação com os agenciados, sempre correu bem?
Sim, sempre. Curiosamente, nestes casos dos miúdos que tiveram mais sucesso, os pais estavam mais presentes. Nunca eram pais ausentes.

Antes de ir para a Milenar trabalhava onde?
Trabalhava numa agência de comunicação e publicidade, que acabou por fechar. Tinha 400 funcionários e estava responsável por toda a parte de informática. Estive sempre ligado a essa área graças à minha licenciatura em engenharia informática. Na altura, o trabalho com o YouTube, foi um pouco “deixem-me procurar aqui mais coisas engraçadas que estejam a acontecer”

A partir daí, foram dois anos muitos intensos, de muita atividade, em que montámos blogues e começou-se a trabalhar muito o vídeo e a perceber-se este fenómeno do YouTube. Tudo começou de repente a cruzar-se e percebi que havia uma enorme lacuna em várias áreas, como a música. Todos os artistas achavam que no digital não se ganhava dinheiro. Havia sempre alguém a ganhar dinheiro, mas não eles. A Milenar faz a gestão digital dos influenciadores. Achei que havia a necessidade de criar uma agência que, além de toda a gestão digital deles, fizesse também o outro lado.

Já existia, nos tempos da Milenar, em 2012, a noção de influenciador [influencer]?
A palavra já era bastante utilizada.

Já tinham agenciado YouTubers?
Sim. A Milenar, hoje em dia, ainda tem bastantes YouTubers. Na altura trabalhei com o Miguel Luz, que tinha 16 anos, com a Sofia BBeauty, que tinha 14.

Quando é que começa este boom dos YouTubers?
Saí da Milenar em 2016, mas este boom já estava a ser trabalhado. Cheguei a ir com o Miguel Luz para os Estados Unidos, para uma grande campanha da Kellogg’s. Na altura, por exemplo, o Wuant tinha 200 mil seguidores — agora tem 2,8 milhões. Era totalmente desconhecido. As marcas não lhe ligavam. Tanto que lhes pedi vídeos a explicar o que faziam. O Wuant tem um vídeo a dizer “tenho 200 mil subscritores”. Atualmente, é engraçado ver a evolução.

Inês Faria é uma das mais recentes agenciadas de Miguel Raposo. O agente afirma que, num mês na agência, conseguiu 20 mil subscritores e 10 mil seguidores no Instagram

Foi a agência que fez o contacto com os YouTubers?
Sim, fomos ter com eles. Na altura da Milenar era feito de outra forma. Depois, na Be Influence, o Pedro e eu começámos a utilizar uma abordagem diferente. O Pedro Silveira é responsável por organizar algumas das maiores feiras de videojogos em Portugal, como a Lisboa Games Week, e já trabalhava com os YouTubers nessa outra vertente, a de os ter nos stands e ao vivo com as pessoas.

"Todos estes miúdos que tiveram mais sucesso, os pais estavam mais presentes. Nunca eram pais ausentes."

Agente dos YouTubers? “Sou muito mais do que isso”

Já mais do que uma vez o apelidaram de “o agente dos YouTubers”. Revê-se nessa imagem?
Sim, mas sou muito mais do que isso. Atualmente, acho que a música é onde devemos estar e é onde estou agora a trabalhar muito. Os novos influenciadores são muito virados para a parte da música porque o crescimento é muito grande.

Consegue dar algum exemplo?
Sim, o Piruka [rapper], que é um fenómeno e tem vídeos com 17 milhões de visualizações. Nem sequer em YouTubers se vê isso. E, além do YouTube, há as redes sociais. O Wuant, por exemplo, tem um post no Instagram com 90 mil likes. Nem uma Cristina Ferreira tem isso. Ele não é só YouTuber, todo ele é uma marca. Chamá-lo só de YouTuber já não faz muito sentido, quando no Instagram ou no Twitter é mais forte do que qualquer figura pública portuguesa.

Piruka é um rapper português. Este vídeo, lançado em janeiro de 2017, tem mais de 17 milhões de visualizações

A agência também tem influência nos conteúdos? No caso da Olivia Ortiz, há um vídeo na primeira casa dos YouTubers em que os vai visitar. Isso é uma ideia que surge na agência?
Há vídeos que são cruzamentos interessantes, mas, 95% do conteúdo é a Olivia que o faz. Não tivemos influência nenhuma. Neste caso, foi uma conjugação: a TVI queria fazer uma reportagem e a Olivia aproveitou e fez o vídeo da casa.

Os YouTubers agenciados têm total liberdade nos conteúdos?
Sim. O nosso lado é sempre mais de dizer se se fez alguma coisa errada.

Qual é o trabalho de um caça-talentos do YouTube?
Os YouTubers já existem, não faço nada. Há ali uns mais pequenos que têm um potencial enorme e só precisam de um empurrão. O Windoh foi o maior exemplo disso: quando foi para a Casa dos YouTubers tinha pouca expressão e, atualmente, é um dos mais conhecidos.

"Os YouTubers já existem, não faço nada. Há ali uns mais pequenos que têm um potencial enorme e só precisam de um empurrão. O Windoh foi o maior exemplo disso: quando foi para a Casa dos YouTubers tinha pouca expressão e, atualmente, é um dos mais conhecidos."

A primeira Casa dos YouTubers

A ideia da Casa dos YouTubers partiu da agência?
Não. A casa foi uma ideia de dois deles. O Kazzio (Anthony Sousa) e o Wuant (Paulo Borges) moravam em Aveiro e já estavam com essa ideia.

E os outros, o Pi ou o Windoh? Foram eles que os convidaram? Eles é que passaram a ser olheiros de outros YouTubers?
Sim. Não se pode dizer que se vai morar para uma casa e impor isso a alguém. Eles é que tiveram de escolher e decidir.

Um dos vídeos que teve maior sucesso da parceria dos YouTubers, com mais de três milhões de visualizações: os YouTubers brincam ao jogo O Chão É Lava, em que não podem pisar o chão

Que tipo de conselhos dão aos YouTubers?
O agenciamento é muito pessoal, é preciso estar presente. E muitas vezes não ganho tanto dinheiro como queria porque prefiro que façam uma coisa que sintam que tenha sentido. Se um YouTuber vai ser prejudicado por aceitar uma campanha para uma marca que não tem nada a ver com ele, acho que lhe devo dizer para não fazer.

Por exemplo?
Houve dezenas de propostas de marcas de preservativos.

Porque é que isso não fazia sentido?
Porque se está a falar de um miúdo que tem um público alvo que vai até aos 14 anos. Não faz sentido falar em preservativos ou em bebidas alcoólicas. Quando tenho uma pessoa agenciada, os pais confiam-me um bocadinho o percurso dele. Tenho de saber perfeitamente que não posso cometer nenhuma asneira.

Em janeiro, houve uma cisão na casa YouTubers que levou ao seu fim. Vários foram para uma nova casa, a Darkolândia, como D4rFrame e Pi. Wuant e Windoh ficaram na casa até Abril, e agora estão nos Estados Unidos com outros YouTubers a produzir conteúdos

São os YouTubers que publicam os vídeos diretamente ou antes passam pela agência?
Publicam diretamente. Conversamos e digo qual acho que deve ser o caminho, o que estão a fazer de errado. Fico atento e vou dizendo “Atenção, estás há uma semana sem publicar um post no Instagram”, ou “Atenção que esta foto não devia ter saído, tem muito decote”, ou “Olha que definimos uma estratégia e estás a usar outra”.

“Pode ter-se um milhão de visualizações num mês, mas se calhar só 50% é que teve publicidade”

Quanto é que pode render um vídeo no YouTube?
Muita gente consegue ganhar um dinheiro bastante interessante.

Mas estamos a falar de que valores?
Para se ganhar dinheiro no YouTube não basta fazer um vídeo por mês. O Wuant ou o D4rframe ganham dinheiro porque têm uma biblioteca de mais de 200 vídeos. Há miúdos com 12 anos que os descobrem e vão começar a ver os vídeos todos que estão para trás. Um milhão de visualizações pode dar entre 500 e mil euros. Do YouTube, pode-se mais ou menos contar com isso. Agora, há YouTubers que fazem 40/50 milhões de visualizações por mês.

Mas isto não é assim tão simples, depende das alturas do ano. No Natal é muito mais fácil fazer dinheiro porque há muito mais oferta. Pode-se ter um milhão de visualizações num mês, mas se calhar só 50% é que teve publicidade. Já o Nuno Agonia, por exemplo, toca num target acima dos 30 anos. E a publicidade que é exibida no Nuno Agonia é mais premium.

Nuno Agonia é um YouTuber que faz vídeos de tecnologia. Segundo Miguel Raposo, atendendo aos temas e produtos que trata, tem um público alvo entre os 25 e os 35 anos
"Um milhão de visualizações pode dar entre 500 e mil euros. Do YouTube, pode-se mais ou menos contar com isso. Agora, há YouTubers que fazem 40/50 milhões de visualizações por mês. Mas isto não é assim tão simples, depende das alturas do ano."

Há também marcas que pagam para terem produtos nos vídeos e isso altera os valores…
Exato. Há uma tabela, mas depende dos valores de mercado. É muito mais eficaz investir nestes vídeos do que, por exemplo, num intervalo de um telejornal da TVI, onde um spot pode custar 20 mil euros, com cinco repetições. Neste caso a audiência é a mesma, por isso os valores não podem ser muito diferentes.

Mas cobram 20 mil euros?
Não, é apenas um exemplo. Temos de perceber com a marcas: um milhão de pessoas vão ver este vídeo. Desse milhão, o público alvo ideal são 300 mil utilizadores [porque nem todos os que veem o vídeo têm a mesma idade ou características de perfil para o YouTube]. Quanto é que custa chegar a essas pessoas? As contas passam por aí. Há muito dinheiro porque não há intermediários. As marcas não precisam de pagar a atores ou a produtores, como nos anúncios [há vídeos em que os YouTubers são pagos para aparecer a comer determinada comida ou utilizar certa peça de roupa porque isso influencia os mais novos].

Como deixar uma criança feliz COMIDAAAAAAAAAAA #knorrpastapot #libertaosabor

Uma publicação partilhada por D4RKFRAME (@d4rkframe) a

Nesta partilha no Instagram, o YouTuber D4rkFrame mostra que come as massas da Knorr. Este tipo de publicidade é acordado com os YouTubers, até para aparecer em vídeos

Como pai, mesmo estando muito atento a estas tendências, também aprende coisas com os seus filhos?
Sim, sem dúvida, porque também não consigo ver tudo.

E eles veem os conteúdos à vontade ou faz uma triagem?
Com o mais velho não tenho nenhum problema. Confesso que em relação à minha filha de 13 anos, há conteúdos que acho que não são apropriados para a idade dela, mas vou acompanhando e percebendo se está tudo bem. Obviamente, se notar que teve um comportamento com origem num vídeo, aí tenho que me preocupar. Estou atento a estes sinais. Muitas vezes, os YouTubers dizem que vão para uma banheira cheia de Coca-Cola, mas nunca dizem “Faz isto em casa”.

Um dos vídeos em que um YouTuber mergulha numa banheira de Coca-Cola

Qual é a sua rede social preferida?
Neste momento, o Instagram.

E é a mais relevante?
Sim, confesso que cada vez uso menos o Facebook, só para ver momentos em direto e notícias. Para ver os meus amigos, uso o Instagram.

"Confesso que cada vez uso menos o Facebook, só para ver momentos em direto e notícias. Para ver os meus amigos, uso o Instagram."

E vê muitos vídeos no YouTube?
Sim. Atualmente, só vejo vídeos no YouTube e no Netflix. É raro ver televisão, a não ser que seja um jogo de futebol. Se houver algum acontecimento especial, continuo a ver o telejornal. Mas o YouTube é uma ferramenta importantíssima.

E o que vê mais?
Vejo muito conteúdo, mas não é português. Há uma falta enorme de conteúdo português para a geração dos 25 anos, por incrível que pareça.

Mesmo atualmente, com YouTubers que alcançam mais esse target, como é o caso do Nuno Agonia?
O Nuno Agonia fala muito sobre tecnologia. Veio colmatar uma falha de mercado e dá para ver o sucesso. Mas faltam coisas: faltam notícias, faltam entrevistas, falta uma série de coisas que fora de Portugal já acontecem. A geração que, de repente, deixa de gostar de ver um Wuant ou um Kazzio, porque já não se identifica com eles, não tem outros conteúdos para consumir da mesma forma.

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