O antigo guarda-costas e assessor de segurança do presidente francês Emmanuel Macron, Alexandre Benalla, foi detido por suspeitas de utilização de passaportes diplomáticos e documentos oficiais do Governo para benefício pessoal. Benalla tinha sido acusado esta quarta-feira pelo chefe de gabinete de Macron, Patrick Strzoda, de ter utilizado passaportes oficiais depois de ter sido suspenso de funções “perto de vinte vezes”. A última suspensão de Benalla aconteceu depois do vídeo em que vê a agredir um manifestante no feriado de 1 de maio do ano passado.

A história é recambolesca e as versões sobre o “caso Benalla” contraditórias. A polémica surgiu quando o jornal francês Le Monde e o site de investigação jornalística Mediapart revelaram que o antigo conselheiro de Macron teria viajado com estatuto oficial à República do Chade, em África, mais de três meses depois de ter sido suspenso de funções. No Chade, para onde viajou no passado 5 de dezembro num jato privado com uma pequena comitiva, Benalla reuniu-se com líderes políticos e económicos africanos, incluindo o presidente do país, Idriss Déby.

Inicialmente pensou-se que se trataria de uma espécie de “diplomacia paralela”, o que levantou suspeições sobre o próprio Governo francês. A versão foi aliás corroborada no Senado pelo próprio Alexandre Benalla, que disse sob juramento e perante uma comissão de inquérito, a 19 de setembro, que se tratava de uma viagem de negócios. Garantiu também que não só não usou um passaporte diplomático para a viagem, como não o tinha sequer consigo. Os passaportes estariam ainda nos seus escritórios no Palácio do Eliseu, segundo sabia.

A versão foi recusada pelo chefe de gabinete de Emmanuel Macron. Patrck Strzoda garantiu que foram feitas buscas nos antigos escritórios de Benalla, já depois da viagem deste ao Chade, e não foi possível encontrar os documentos. Strzoda acusou Benalla de ter usado “perto de vinte vezes” documentos diplomáticos e oficiais em viagens a título pessoal. Viagens que o Governo francês garante não ter estado a par.

No seguimento da polémica, a 29 de dezembro, o Ministério Público francês abriu uma investigação por “abuso de confiança”, “uso ilegal de um documento válido apenas para assuntos profissionais” e exercício de atividades privadas recorrendo a um estatuto de detentor de cargo público e governativo.

O chefe de gabinete de Macron e o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês recusam ter estado a par da utilização de passaportes oficiais por parte de Alexandre Benalla, que terá até pedido a renovação de documentos já depois da sua suspensão de funções.

O Governo francês não fica isento de falhas:o  Ministro dos Negócios Estrangeiros Jean-Yves Le Drian confessou não ter sido “informado a tempo da suspensão de funções” do antigo conselheiro de Segurança e o chefe de gabinete do presidente francês avançou que alguns documentos oficiais de Benalla foram obtidos devido a “uma falha” do sistema. Também estranha é a informação já confirmada de que o embaixador francês em N’djamena, no Chade, esteve a par da visita de Benalla, em dezembro passado. O embaixador “não considerou necessário reportar a visita”, lamentou o Ministro dos Negócios Estrangeiros de França, que só terá descoberto tudo perto de três semanas depois, quando o próprio Macron se deslocou em visita oficial ao Chade.

Alexandre Benalla foi ainda acusado pela equipa de Macron de ter forjado uma nota manuscrita e de ter também entrado em Israel com o seu passaporte diplomático.