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Caixa Geral de Depósitos

Berardo era pessoa rica, “dizia-se”, e contrato inicial tinha regras adequadas para recuperar dívida

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Celeste Cardona defendeu que contrato permitia à Caixa recuperar dívidas a Berardo que era um homem rico, "dizia-se". Sobre poder de Vara para dar sozinho mais crédito a Vale do Lobo, foi caso único.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Já lá vão 13 anos, mas Celeste Cardona não recorda que ninguém tenha levantado reservas ou sido contra a concessão de dois empréstimos a Joe Berardo, em 2006 (de 50 milhões de euros) e em 2007 (até 350 milhões de euros) no conselho de crédito que aprovou estas operações. Isto apesar das condições e recomendações, nem todas seguidas, do parecer da direção de risco do banco. E destacou o elevado património do empresário que era um “homem rico”, segundo se dizia.

Já sobre Vale do Lobo, ex-administradora da Caixa disse que não sabia que Armando Vara tinha trazido o projeto para o financiamento do banco público, mas admitiu que a liberdade dada a este administrador para aumentar o empréstimo sem passar pelos trâmites normais e por outros responsáveis, terá sido caso único, pelo enquanto esteve na gestão do banco público.

Ex-ministra da Justiça pelo CDS — no Governo de Durão Barroso — Celeste Cardona esteve na administração da Caixa entre 2004 e 2008 quando foram aprovados a maioria dos créditos que mais tarde vieram a gerar perdas volumosas para o banco e gerar dúvidas sobre o processo de concessão. Apesar de ter tido sempre a tutela jurídica e de recuperação de crédito, Cardona participou enquanto administradora no conselho alargado de crédito que aprovou algumas da operações mais polémicas, entre as quais a de Berardo e Vale do Lobo. E do que se lembra dessas reuniões, “foram apesar de tudo sendo procuradas soluções que para as questões que o risco colocava”.

O que levou a Caixa a conceder empréstimos de centenas de milhões de euros para a compra de ações do BCP, e garantidos pelas próprias ações do banco privado? Celeste Cardona recusa qualquer orientação política e garantiu que nunca o tema, ou a exposição da Caixa ao BCP, foi discutida no conselho de administração da CGD. Sobre as condições específicas das operações, a ex-administradora da Caixa realça que houve confirmação das contas das empresas, e lembra a situação financeira boa destas empresas. O património elevado é muito importante porque permite, no quadro da lei, responder para além das garantias exigidas — que eram apenas as ações do BCP — o que “era o caso”.

“Sr Berardo tem uma coleção de arte com valor”

“Tanto quanto sei, o Sr. Berardo tem um coleção de arte com valor. Tinha uma fortuna avaliada em mais de 500 milhões. Tinha bens que vendeu em 2008 para assegurar financiamento adicional. Se se esses contratos não tivesse cláusulas de salvaguarda, mais complicado seria”. E porque não conseguiu a Caixa então recuperar a dívida ao comendador? O incumprimento, recordou Cardona, só aconteceu em novembro de 2008, quando já não estava na administração do banco público. E fez também a pergunta: “Porque não se foi ao património?”

Mas não deu as respostas porque não sabe o que aconteceu a esse contrato, após reestruturações sucessivas e o acordo com os bancos para o penhor dos títulos da coleção.  Mas como “boa mãe de família” garantiu, que do ponto de vista daquilo que eram as suas competências na área jurídica, “não tenho dúvidas que estavam estabelecidas as regras adequadas para resolver essa situação”. Ainda que reconheça que não sabia se existam outros ónus sobre o resto do património de Joe Berardo, como as empresas e a coleção de arte.

Outras das operações que passaram pelas suas mãos enquanto administradora que participava em conselhos de crédito foi o projeto de Vale do Lobo. Celeste Cardona afirmou que não sabia, enquanto administradora da Caixa, que este dossiê, que implicou a entrada da Caixa na empresa e o financiamento à compra do resort por acionistas privados, tinha chegado pela mão do então administrador Armando Vara. Diz que o projeto foi defendido no conselho de crédito pelo diretor de empresas do Sul, Alexandre Santos, como era regra e não recorda nem reservas nem observações negativas.

Mas quando questionada sobre se era normal a liberdade dada a Armando Vara para decidir sozinho um aumento do crédito ao resort de 194 para 200 milhões de euros, Cardona disse não ter conhecimento que isso tenha sido feito em outros casos. “Era um caso único, tanto quanto eu sei. Pelo menos nunca vi nos anos em que estive na Caixa”. E como explica essa prerrogativa? A ex-administradora admite que tenha tido a ver “com agilidade, rapidez e facilidade das decisões”.

Momento “fofinho” de Celeste Cardona: emoções e promessas de cerveja

A audição a Cardona não haveria de acabar sem um momento “fofinho”. Numa Comissão Parlamentar de Inquérito nem tudo são perguntas duras, faltas de memória e depoentes a suar em bica. No final das pouco mais de três horas a responder aos deputados, Celeste Cardona pediu a palavra e agradeceu… o convite.

“Gostaria de dizer que até estou emocionada por estar aqui. São vocês a cumprir os vossos deveres e eu também a cumprir o meu, a explicar o que sei. Pode parecer patético, mas muito obrigado por esta oportunidade que me deram de voltar aqui”, disse a ex-ministra, que ao longo da audição recordou que o parlamento “é uma casa que também foi minha”.

E concluiu, desconcertando os deputados: “Bom fim de semana! E agora vou beber uma cerveja”. Se por acaso ainda não estava concluída, a audição acabou aqui.

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