As autoridades francesas ocultaram do público que o incêndio de abril na Catedral de Notre Dame, em Paris (França), provocou a libertação para a atmosfera de uma quantidade de chumbo entre 400 e 700 vezes maior do que a considerada segura para a saúde humana. Essa nuvem de chumbo contaminou as vizinhanças do monumento, ao contrário do que as agências de saúde pública tinham assegurado nos dias seguintes ao incêndio, indicam os documentos a que o jornal online francês Médiapart teve acesso.

Em declarações ao Libération, que noticiou a investigação, Annie Thébaud-Mony, investigadora deste instituto, afirmou que “esta poluição pode causar doenças”.

Só que pode não ser bem assim. Segundo os documentos a que o Médiapart teve acesso, uma criança parisiense já foi assistida no hospital por apresentar um nível demasiado alto de chumbo no sangue.

Esse episódio pode ter sido desencadeado pela libertação de grandes quantidades de partículas de chumbo que compunha o teto e as torres da Catedral de Notre Dame. O Médiapart diz que a taxa de concentração de chumbo foi estudada por vários laboratórios, incluindo o policial, e que todos chegaram à conclusão que estava demasiado alta para a saúde da população. No entanto, nem as agências de saúde pública nem a polícia parisiense avisaram a população com receio de causar alarmismo.

De acordo com o próprio Instituto Nacional de Pesquisa e Segurança, um órgão governamental francês, a exposição prolongada a níveis tão altos de chumbo “pode ter consequências graves para a saúde”, como neuropatias — quando os nervos deixam de funcionar corretamente — ou encefalopatias — alterações que conduzem a infeções no encéfalo. O Instituto Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde, outro instituto público francês, até acrescenta que episódios como este podem causar cancro nos 30 anos seguintes à exposição.

Entretanto, a Agência de Saúde Regional aconselhou quem vive ou trabalha perto da Catedral de Notre Dame a visitar um médico e fazer análises “por precaução”, noticiou esta semana o Le Parisien. Emmanuel Grégoire, adjunto da Câmara Municipal de Paris, garantiu que “todas as infraestruturas”, incluindo escolas e centros de saúde, foram analisados e demonstraram quantidades de chumbo “abaixo dos níveis aceitáveis”. No entanto, assumiu que houve “níveis pontualmente maiores” do que os aceitáveis.