Na antiga igreja de Santiago, um dos palcos dos debates no evento SummerCEmp, a Europa é uma espécie de religião, mas não há dogmas. De um lado Marisa Matias, mais cética do nível de democracia europeu, e Duarte Marques, menos crítico de Bruxelas. Ambos concordam que há muito a melhorar na democracia europeia, num debate que teve referência à igreja e ao talento para comunicar dos discípulos, que tanto jeito dariam à União Europeia. O mote do debate era a resposta a uma pergunta: “A Europa é democrática?”

No evento organizado pela representação da Comissão Europeia em Portugal, Duarte Marques começou por confessar que fica “eriçado quando dizem que a Europa não é democrática“, embora admita discutir que “há instituições da UE que não são tão democráticas ou processos de decisão da União Europeia que são menos que democráticos”. O deputado do PSD lembra que “embora os primeiros-ministros o escondam, a maior parte das decisões são tomadas no Conselho Europeu.”

Marisa Matias é mais cética e mais crítica dos processos de decisão e destacou que a União Europeia, no seu todo, tem “um profundo défice democrático no seu funcionamento“. A eurodeputada criticou não só o facto de o Parlamento Europeu não ter “iniciativa legislativa”, mas também o facto de desde o Tratado de Lisboa cada país ter deixado de valer um voto no Conselho. E acrescentou: “Uma minoria de seis Estados pode bloquear as decisões. Basta juntar seis países com mais população, o que faz com que seja um certo diretório que conduz a União Europeia, que dispensa a colaboração de outros governos”.

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Duarte Marques pediu a Marisa Matias para dar exemplos de decisões tomadas por uma minoria de bloqueio a seis. A bloquista disse que são vários. Pressionada para apontar alguns, a eurodeputada disse que não os tinha, mas prometeu enviar por email a Duarte Marques e a um aluno com quem entrou em despique na fase de perguntas da audiência.

O deputado do PSD admitiu que um dos exemplos da falta de transparência do Conselho é o facto de as “reuniões serem à porta fechada”, mas lembrou que “as reuniões do Bloco de Esquerda também são à porta fechada e o Bloco não é um partido conhecido como sendo pouco democrático.” Era Marisa o alvo, mas nem era preciso tanto para abrir as hostilidades. Ambos diferem em quase tudo, principalmente no estilo e na ideologia.

Os oradores foram mandando farpas um ou outro ao longo do debate. Logo no início da intervenção, Marisa Matias explicou que para si a democracia é quando a “vontade da maioria se sobrepõe aos interesses individuais”, mas que “não se esgota nas instituições ou na representação” e “é mais completa se houver mais participação”. E lá chegou a farpa para Duarte: “É o conceito de democracia que eu defendo, e acho que a maior parte do Duarte, não a totalidade, concorda com isso. Até porque faz parte de uma ONG, e agora digo isto sem ironia.”

As palavras aqueceram o debate em sintonia com a antiga igreja, com os termómetros a baterem nos 36 graus. E a propósito de verões quentes, Duarte Marques defendeu que gostava de recuperar a alegria de fazer política do período pós-revolucionário quando todos queriam participar e lembra que estar na política “antes era currículo, agora começa a ser cadastro”.

Quanto à Europa, Duarte Marques alertou para os problemas de comunicação das instituições comunitárias e, pelo meio, visando outra vez Marisa Matias: “Conseguimos arranjar, a Marisa sobretudo, defeitos à Europa, mas se quisermos apontar qualidades, não saímos daqui, não conseguimos apontá-las todas”.

O deputado do PSD, que foi chefe de gabinete da representação do PSD em Bruxelas, contou que certa vez assistiu a “uma reunião do ex-presidente Durão Barroso com a Conferência Episcopal Portuguesa, e um dos bispos perguntou: ‘Como é possível a UE não chegar às pessoas, as pessoas não sentem?” E Barroso respondeu na altura, segundo conta Duarte Marques, que a Comissão Europeia é das instituições que “mais gasta em comunicação, tem transparência, os comissários vão todos os meses a um país, enquanto os apóstolos eram muito menos, não tinham internet, não tinham televisão e chegaram a todo o lado.” E, fazendo uma pausa na história, Duarte Marques registou: ” Estamos aqui numa capela, e com uma moderadora da Renascença [Eunice Lourenço]. Mas falta sentimento [em relação à Europa]”.

Não passaram muitos minutos e voltaram os ataques a Marisa Matias. Duarte Marques lembrou que na campanha das Europeias ouviu o “Bloco de Esquerda a dizer que problemas do SNS são culpa do tratado orçamental”. O que o admira, já que é tudo uma questão de opções: “O governo decidiu cortar no hospital e dar ali nos manuais escolares, foi uma opção que fez. Porque decidiu cumprir o tratado orçamental”.

Marisa Matias respondeu de imediato, e recuperou as metáforas religiosas: “A igreja está a fazer mal ao Duarte. Ele deve achar que é por obra do Espírito Santo que temos investimento público zero, a níveis mínimos históricos em Portugal. Não é por culpa do Espírito  Santo nem por vontade de deus  que há as regras orçamentais. Sou crítica porque impõem limites ao investimento público”.

Duarte ripostou. Marisa contra-atacou. E a moderada teve de intervir, fazendo um gesto de calma com as palmas das mãos viradas para baixo: “Vamos agora à fase das perguntas”. Duarte e Marisa continuaram a concordar em discordar.

O deputado do PSD ainda saiu do politicamente correto e admitiu que não gostava do atual líder da bancada do PPE (a família europeia do PSD) para a liderança da Comissão. Mas gostava que o processo do spitzenkandidat tivesse sido respeitado. “Eu não gosto do Weber. Seria um péssimo presidente da Comissão. Na realpolitik talvez seja melhor assim para as pessoas, mas devia ter sido respeitado o acordo. Timmermans era 300 vezes melhor que Weber.” Já Marisa Matias diz que já foi a favor do sptizenkandidat, mas que deixou de acreditar no processo.