Greta Thunberg é um dos nomes mais esperados da Cimeira da Juventude, uma conferência irmã da Cimeira da Ação Climática que arranca esta segunda-feira em Nova Iorque, após ter viajado de barco até ao outro lado do Atlântico para evitar as emissões poluentes. No entanto, a ativista de 16 anos que dá rosto à batalha contra a crise climática tem sido alvo de críticas por manter alegadas ligações a empresas do lobby ecológico.

Após se ter recusado a viajar de avião até aos Estados Unidos para a cimeira, Greta Thunberg decidiu utilizar um veleiro ecológico alimentado a energia solar e geradores de eletricidade. O barco Malizia II pertence a Pierre Casiraghi, filho da princesa Carolina do Mónaco, que a acompanhou na viagem de duas semanas. Ainda assim, a logística da viagem envolveu aviões. É que dois membros da tripulação voaram até aos Estados Unidos para depois levarem o barco de regresso a casa.

À Euronews, os responsáveis pela embarcação explicaram que é a única forma de garantir a presença da equipa no The Ocean Race: “Decidimos viajar para a cidade de Nova Iorque com muito pouco tempo de antecedência, assim duas pessoas têm de voar para os EUA para trazer o barco. Só temos um, por isso eles não podem facilmente navegar e encontrar-se com os outros tripulantes”, justificaram. Ou seja, a pegada ecológica de Greta Thunberg pode ser ainda maior do que se viajasse de avião.

“Greve escolar” não foi ideia de Greta Thunberg

Ainda em agosto, soube-se que Greta Thunberg pode ter sido usada por multinacionais ecológicas lideradas por Ingmar Rentzhog, um sueco que impulsionou o movimento “We Don’t Have Time”, revelou o The Times. A adolescente tornou-se famosa por ter faltado às aulas para protestar junto ao parlamento sueco por uma diminuição nas emissões de carbono. No entanto, o jornal britânico afirma que esses protestos foram encenados. E que valeram milhões às empresas ecológicas e à família Thunberg.

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A versão oficial da caminhada de Greta Thunberg pelo ativismo climático começa a 20 de agosto de 2018, quando a jovem começou a faltar todos os dias às aulas até 9 de setembro, dia das eleições gerais na Suécia, para pedir ao governo mais medidas para diminuir a emissão de gases poluentes para a atmosfera. Depois das eleições, Greta tirava as sextas-feiras para voltar ao parlamento numa campanha de sensibilização para as alterações climáticas. O movimento “Fridays For Future” deu a volta ao mundo e também aconteceu em Portugal.

Ao The Times, o milionário sueco Ingmar Rentzhog garantiu que conheceu Greta Thunberg num desses protestos à frente do parlamento sueco. Em outubro, terá abordado a adolescente para lhe perguntar se teria interesse em entrar no Conselho da Juventude do projeto “We Don’t Have Time”. Ela terá concordado. A partir daí, Ingmar Rentzhog utilizou a imagem da jovem de 16 anos nas redes sociais e em ações promocionais que lhe terão rendido o equivalente a quase dois milhões de euros, contabilizou em fevereiro deste ano um jornal sueco.

Mas esta pode não ter sido a versão verdadeira dos factos. Ao The Times, o milionário garantiu que “não conhecia Greta nem os pais antes” dos protestos em que a jovem se tornou internacionalmente famosa. Mas meses antes, ao jornal Dagens ’Nyheter, Ingmar Rentzhog explicou que havia conhecido a mãe da jovem “uns três ou quatro meses antes” do movimento “Fridays For Future” porque os dois iriam discursar numa conferência sobre alterações climáticas.

Além disso, o sueco admitiu que já sabia dos planos ativistas de Greta Thunberg antes de eles serem postos em prática — contrariando a versão de que havia conhecido a jovem de 16 anos durante os protestos no parlamento. Ingmar Rentzhog recebeu “um e-mail de um ativista do clima na semana anterior” aos protestos a avisá-lo dos planos de Greta. O e-mail foi enviado por Bo Thoren, um ativista que luta contra a utilização de combustíveis fósseis, que recruta jovens para sensibilizar as novas gerações para o problema das alterações climáticas.

“Manobra de publicidade” para o livro da mãe?

Segundo o The Times, a “greve escolar” de Greta Thunberg não foi ideia da jovem de 16 anos, mas antes de Bo Thoren, que em fevereiro de 2018 organizou uma reunião com outros ativistas “para saber como envolver e receber ajuda dos mais jovens para aumentar a velocidade de transição para uma sociedade sustentável”. Greta havia ganho o segundo prémio num concurso para uma redação sobre ambiente de um jornal sueco e foi abordada por Bo Thoren para fazer parte de uma “greve escolar”. “Ninguém estava interessado, então a Greta decidiu avançar sozinha”, disse a mãe.

No entanto, uma semana depois de a jovem ter surgido pela primeira vez à frente do parlamento sueco, a mãe, a cantora de ópera Malena Ernman, lançou o livro “Scenes From The Heart”, onde reflete sobre a luta contra as alterações climáticas e o impacto que ela teve na família Thunberg. Mas a editora não sabia que, afinal, a fama daquela família teria sido organizada por Ingmar Rentzhog: “Os jornalistas perguntaram-nos se aquilo tudo tinha sido uma manobra de publicidade. Não era para ser. Foi um pesadelo”.

E pode uma jovem aguentar tanta pressão, interrogou-se o La Vanguardia. Em declarações ao jornal espanhol, o neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao diz que a fama de Greta Thunberg tem um peso tão grande quanto “andar nua na rua”: “Depende muito do carácter, força emocional e convicções dela”. Marisa Russomando, psicóloga argentina, acrescenta: “Os menores não têm recursos para assimilar a exposição”. “O meu conselho é lidar com a questão com contenção, sem que se tenha de renunciar ao poder da mensagem, mas usando uma perspetiva mais lúdica”.