(Este artigo foi publicado a 10 de outubro quando se tornou conhecido o problema cardíaco de Marcelo Rebelo de Sousa. Voltamos a publicá-lo nesta quarta-feira em que o Presidente é sujeito a um cateterismo no hospital de Santa Cruz, em Carnaxide). 

Marcelo Rebelo de Sousa tem um problema cardíaco e está a aguardar resultados de exame médico, que irão determinar a recandidatura à presidência. A revelação foi feita pelo próprio no programa Alta Definição da SIC (que só será transmitido no próximo sábado). Mas que intervenções são estas e que riscos podem trazer para o Presidente da República?

O Observador falou com o cardiologista Pedro Rio que responde a estas perguntas e aponta para alguns cenários possíveis: cansaço, falta de ar, dor no peito, enfarte e, até, morte súbita. Na mesma entrevista, Marcelo revelou a origem do problema: em “determinado vaso sanguíneo, há a acumulação de cálcio“. O que significa isto?

É a formação de placa de colesterol com cálcio, na parede dos vasos sanguíneos. Neste caso, numa artéria que irriga o coração. Esta formação pode ter mais cálcio ou mais colesterol: pode ter uma composição mais de gordura ou com maior componente de calcificação“, explica o médico.

Mas por que razão se formam estas placas? Por dois motivos: colesterol ou inflamação. “Colesterol todos temos e inflamação, à medida que envelhecemos, vamos ganhando. Depois depende da suscetibilidade de cada um e da inflamação que cada um vai adquirindo ao longo da vida, ou seja, os fatores de risco cardiovasculares: hipertensão, o tabagismo, o próprio colesterol, dieta, exercício físico, stress”, diz o cardiologista.

A acumulação de cálcio traz consequências. Isto porque a placa pode ir crescendo e limitando o fluxo de sangue ao longo do tempo, começando a “criar sintomas de angina” que se traduzem em dor no peito, cansaço ou falta de ar. Mas as consequências podem ser mais graves: enfarte ou, até, morte súbita.

Dentro de cada um destes eventos, podemos ter arritmia. Se for maligna podemos ter eventualmente até morte súbita. Se não formos reanimados, ou seja, se não se restabelece a circulação normal de sangue, morremos”, explica ainda.

Para saber se a “acumulação de cálcio está num grau excessivo, não está num grau excessivo e o que significa”, Marcelo terá de fazer um exame — cujo resultado determinará a sua recandidatura à presidência. O exame é um cateterismo.

“É feita uma picada numa artéria e introduzido um cateter. Dentro desse cateter injeta-se contraste que depois permite fazer-se uma angiografia. E perceber se temos ou não alguma obstrução em determinada artéria”, detalha Pedro Rio ao Observador.

O próprio exame tem, em si, consequências. Desde logo, no acesso local à artéria onde é introduzida o cateter — que “pode ir só de uma simples nódoa negra mas pode inchar e comprimir os tecidos localmente, podendo até inflamar”. “Se tivermos uma placa de cálcio e se o cateter bater nela, levando a que se desloque, essa placa pode ir para qualquer sítio do organismo dentro da circulação. Pode ir para o cérebro, levando a que aconteça um AVC. Todas estas complicações podem gerar um risco de morte”, adianta o cardiologista, alertando que estes riscos “dependem sempre da doença de cada doente, mas é bem abaixo de 1%”.

[Ouça aqui as declarações do cardiologista Pedro Rio na Rádio Observador]

Marcelo poderá ficar de baixa entre três dias e uma semana

As intervenções podem não implicar internamento. “Se, na angiografia, vemos que não há bloqueio, não se efetua qualquer intervenção e estes doentes não precisam de internamento”, diz o médico, adiantando: “Mesmo no caso dos doentes que fazem intervenção pode não ser necessário internamento, mas por precaução pernoitam sempre no local onde se faz a intervenção”.

Os doentes podem retomar a vida normal, “desde que não seja de grande esforço físico”. Ainda assim, mesmo que todos os procedimentos corram bem, Marcelo poderá ficar de baixa entre três dias e uma semana.