Pelo nome desta marca, Marialma, quase podíamos adivinhar que as responsáveis seriam duas Marias, mas não. Ana Osório é formada em Finanças e Marketing, cresceu no Brasil e está no Porto há 30 anos. Foi na cidade Invicta que conheceu e se tornou amiga de Catarina Canto Moniz, também ligada ao marketing e à tradução de línguas. No final de 2018, a vontade de deixarem a rotina de outros empregos e criarem juntas um projeto próprio ganhou força. “Quando chegámos aos 40 anos, já sabemos bem o que queremos”, afirma Ana Osório, em entrevista ao Observador.

Se uma estava habituada “a desenvolver empresas do nada”, outra ansiava por fazer “algo mais prático”. Ambas tinham três ideias na gaveta por explorar: “Uma empresa de criação de insetos em volume industrial para ração animal ou alimentação humana, uma padaria com uma vertente social e um negócio dedicado ao têxtil lar com algum tipo de tecnologia.” A terceira ideia venceu e, apesar de Ana e Catarina não terem qualquer ligação ou experiência nesta área, acreditaram que a partir do Porto estariam mais próximas da indústria têxtil e, por isso, “geograficamente bem posicionadas” para lançarem algo inovador.

Depois de avaliarem a potencialidade do negócio, encontraram algumas lacunas no mercado. “O setor dos têxteis lar é chato, antigo e caro. Os canais de distribuição são clássicos, sempre os mesmos, e são ainda poucas as marcas que apostam apenas no mercado digital”, explica Ana Osório.

Encontrar investidores, fornecedores e parceiros de negócio foi o passo que se seguiu para esta dupla, que teve sempre a intenção de fazer tudo em território nacional. Neste caminho, cruzaram-se com Eugénio Santos, um empresário com experiência na indústria do sono, que se tornou sócio da marca, incubada na UPTEC – Parque da Ciência e da Tecnologia da Universidade do Porto, que num só produto juntou decoração, saúde e bem-estar.

Lençóis, fronhas e capas de edredões com tecnologia e benefícios para saúde

Fazer algo diferente do que já existia no mercado era imperativo, por isso, identificaram uma tecnologia que é incorporada logo na própria fibra de algodão, antes do processo de fiação: “Assim, não teríamos problemas de lavagens nem de desgaste”, esclarece Ana Osório, acrescentando que “não se trata propriamente de uma invenção, mas de algo pouco explorado”.

“Esquecemo-nos que passámos um terço da vida a dormir, por isso escolhemos trabalhar produtos que são utilizados no nosso quotidiano durante muitas horas e acrescentámos-lhes algum valor em benefícios para a saúde”, explica Catarina Canto Moniz.

A Marialma produz lençóis, fronhas para almofadas e capas de edredões através da utilização de fibras naturais, como o cânhamo, o algodão egípcio e a celulose, proveniente da madeira do eucalipto, que depois são combinadas com componentes ativos, como o óxido de zinco e as algas marinhas.

As matérias primas são 100% naturais e biodegradáveis, têm propriedades antialérgicas e antibacterianas e complementam tratamentos e cuidados com da pele, como a acne, a psoríase ou a dermatite atópica, ajudando também a reduzir odores, transpiração noturna, descamação e a sensação de pele seca ou irritada.

“O zinco é utilizado em inúmeros cosméticos, desde os cremes regenerativos aos protetores solares”, revela Catarina Canto Moniz, acrescentando que as algas marinhas “têm um poder hidratante e oxidante”, já o cânhamo “ajuda a controlar a temperatura corporal”.

A marca trabalha com três tipos de tecidos, dois que têm o algodão como base e um feito totalmente em cânhamo, “muito semelhante ao linho, mas com um toque mais macio e com uma durabilidade maior”. Todos eles são replicáveis em qualquer um dos produtos e em todo o processo, dos botões às embalagens, não há plásticos nem químicos envolvidos.

Mas nem só de roupa de cama vive a Marialma, há mantas vindas do Peru feitas com lã de alpaca, pijamas em malha e a caminho está já um aroma em spray para aplicar na roupa de cama. “Estará disponível ainda este ano, é feito em Portugal, tem uma fórmula desenvolvida por nós, inclui ervas calmantes e tranquilizantes que proporcionam o ambiente ideal para uma boa noite de sono”, explica Catarina Canto Moniz, avançando que a ideia passa também por alargar a linha de vestuário confortável feminino para peças totalmente feitas em cânhamo.

Um milhão de investimento e zero desperdício

A Marialma foi lançada a 25 de setembro, depois de um ano de testes, provas e um investimento de um milhão de euros. “Acredito que outras marcas tenham tido a mesma ideia, mas não a coragem de avançar. Muitas portas se fecham no caminho”, recorda Catarina Canto Moniz, sublinhando o facto de muitos fornecedores recusarem trabalhar em pequenas quantidades e deste ser um processo de produção — entre fiação, tecelagem e acabamentos — “muito complexo”.

O trabalho, dizem, foi desenhado para não existirem desperdícios nem custos adicionais, para isso vão produzindo à medida que as encomendas aparecem, tendo sempre um stock de tecidos disponível. “O nosso prazo de entrega varia entre os 20 e os 40 dias.”

Para esta dupla criativa, Portugal tem ainda “receio do desconhecido”, por isso, preferiram escolher um nome curto e “que fosse facilmente pronunciado além fronteiras”, já que um dos grandes objetivos é a internacionalização. A aposta recai na venda exclusivamente online, atualmente virada apenas para o consumidor final, mas  Ana e Catarina não recusam a hipótese de explorar, em breve, o modelo de revenda.

Os Estados Unidos da América é o mercado “mais apetecível”, embora os produtos da Marialma já tenham chegado à Irlanda, Bélgica, Reino Unido, Alemanha, França e Espanha. Aprovados estão já os ensaios dos lençóis da marca no Hospital de São João, no Porto, e a entrada no universo da hotelaria, “mais virada para a saúde”, pode ser um dos próximos passos.

Os preços dos produtos da Marialma vão dos 93 aos 290 euros, existem 11 tamanhos disponíveis, “da alcofa de bebé ao colchão imperador”, e as cores variam entre branco, azul celeste, bege e cinza. Nesta primeira coleção, as peças em algodão têm padrões inspirados nos ornamentos da calçada portuguesa, da Avenida da Liberdade, em Lisboa, às formas geométricas típicas algarvias. “Foi o meu pai, com 80 anos, que os desenhou”, contou Ana Osório ao Observador.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.