Está a chegar “aquela” altura do ano. Podia ser o Natal (e até é, de certa forma), mas não é bem isso. Trata-se, sim, da cerimónia de entrega das estrelas Michelin em Portugal e Espanha para o ano 2020, o momento em que é revelado o trabalho que um exército de inspetores anónimos e independentes foi fazendo ao longo de vários meses.

Depois de em 2018 a cidade de Lisboa ter sido escolhida para acolher o evento, no próximo dia 20 de novembro será Sevilha a escolhida para receber a grande revelação. Há precisamente um ano Portugal viu surgir um novo duas estrelas, o Alma, de Henrique Sá Pessoa, e também uma certa regionalização que culminou com uma estrela a ser entregue em Bragança, ao G Pousada de Óscar Geadas, e a Guimarães, com A Cozinha, do chef António Loureiro, a receber um outro astro.

Todos os anos é criada a expectativa, ouvem-se os “zum zuns” habituais sobre quem irá receber o quê, e estabelece-se uma espécie de poole não oficial de vencedores, aqueles restaurantes que para quem acompanha o meio mais de perto melhor se classificam como potenciais vencedores (ou perdedores, já que as estrelas também se perdem). A listagem que se segue é uma soma de todos esses rumores que vão circulando pelos meandros do meio gastronómico e surge como previsão daquilo que pode ou não vir a acontecer. Tome nota dos espaços que mais lhe interessarem, comece já a fazer reservas e, mais que tudo, não leve demasiado a sério isto das estrelas Michelin. É verdade que são importantes mas não são a única coisa que importa no momento de perceber onde se come bem.

– Para as três estrelas –

Belcanto
Rua Serpa Pinto, 10 A, (Chiado); 213 420 607

Já se perdeu a conta da quantidade de vezes que o restaurante de proa do chef Jose Avillez se vê nesta situação: ganha ou não a terceira estrela? Há um ano muitos especulavam que o facto da cerimonia ser em Lisboa podia ser bom presságio para essa conquista. Não aconteceu. Desta vez a esperança mantém-se, como sempre, já que Avillez continua a superar os testes todos, o da boa comida, do tempo, consistência e tudo mais. Este ano até remodelou totalmente o restaurante, passou para a porta do lado e ganhou espaço e melhores condições. A ver no que isso dá — dúvidas, pelo menos, não existem de que se lhe cair a terceira nas mãos ela será muito bem merecida.

Ocean
Hotel Vila Vita Parc, Rua Anneliese Pohl, Alporchinhos (Algarve); 282 310 100

O outro eterno classificado para a terceira estrela. É no sul de Portugal, em Alporchinhos, que o chef austríaco Hans Neuner tem desenvolvido o seu impressionante trabalho, muito dele feito com a ajuda de Márcio Baltazar, o seu chef-pasteleiro português. Esta casa foi uma das primeiras do país a alcançar o bi-estrelato Michelin e continua a ser o suposto “adversário direto” de José Avillez no caminho rumo à terceira estrela. Tal como chef do Belcanto, também o Ocean aparente estar preso naquele limbo onde a qualquer momento pode dar o salto. A consistência, o valor e a criatividade estão lá, falta só o aval das forças superiores. A ver se é desta.

– Para as duas estrelas –

Casa de Chá da Boa Nova
Rua da Boa Nova, Leça da Palmeira; 229 940 066

O bastião do chef Rui Paula, ao que o Observador conseguiu apurar, pode estar muito bem encaminhado para conseguir chegar às duas estrelas. Situado numa espantosa estrutura à beira-mar, esta casa projetada por Álvaro Siza Vieira tem sido a formiga e não a cigarra. Com humildade e sem grande espalhafato tem feito o seu trabalho de forma consistente e criativa sem perder a cabeça em loucuras ou escusados projetos paralelos. O próprio Rui Paula tem ganhado maior visibilidade aos olhos do grande público, à conta do programa Masterchef português, e isso mal não fará, certamente.

Feitoria
Altis Belem Hotel & Spa, Doca do Bom Sucesso, Belém; 210 400 208

Mais um caso de alguém preso no tal limbo do “está para ser mas ainda não é”. É impossível não notar a contínua evolução e desenvolvimento do trabalho do chef João Rodrigues no seu Feitoria, casa onde tem uma estrela Michelin, mas há muito que se fala de merecer a segunda. Menu atrás de menu vai mostrando o sucesso do seu projeto Matéria — que ainda não está totalmente terminado mas consiste numa profunda investigação dos ingredientes e receitas típicas portuguesas — sob a forma de novos pratos e inspirações sempre com a excelência do produto como mantra. Este ano mostrou novamente a sua qualidade com a inauguração do seu Rossio Gastrobar que mostrou como consegue adaptar-se (e brilhar) em registos gastronómicos diferentes do estrelato Michelin. Não compromete e está sempre a evoluir. Para o guia, contudo, isto parece ainda não ser suficiente e tarda em surgir o segundo “macarron”. Esperemos que este ano isso mude — será merecido e esperado.

São Gabriel
Avenida Almirante Mendes Cabeçadas, Almancil (Algarve); 289 394 521

O chef Leonel Pereira, do restaurante São Gabriel, em Almancil, é uma das mentes mais criativas da gastronomia nacional e isso é quase unânime. Desenvolve há vários anos um trabalho de proximidade e investigação com a Universidade do Algarve e faz dos produtos do mar e da ria a sua principal inspiração. A sazonalidade algarvia é sempre um “handicap” para quem procura desenvolver um trabalho consistente e equilibrado mas mesmo assim Leonel vai conseguindo seguir em frente com força, mantendo sempre em alta o nível de profissionalismo e compromisso. Não estará no topo da lista daqueles que se arriscam a chegar à segunda estrela mas é sem dúvida um forte candidato para tal. A seu favor tem a forte tradição do Algarve como polo de estrelas.

Vista
Bela Vista Hotel & SPA, Av. Tomas Cabreira Praia da Rocha, Portimão; 282 460 280

Pode não ser o mais imediato candidato às duas estrelas mas se elas surgissem não seria de estranhar. O trabalho que o jovem chef João Oliveira tem vindo a desenvolver desde que assumiu a liderança do restaurante Vista, em Portimão, tem sido um verdadeiro exemplo daquilo que é crescer com os pés assentes na terra… Ou no mar, que sempre foi a sua grande inspiração, pelo menos no início já que este ano, por exemplo, decidiu descolar-se um pouco dessa área que desde cedo começou a explorar (nomeadamente o trabalho com espécies marinhas menos “nobres”) mas isso só ajudou a comprovar a sua versatilidade e talento. Dentro de um género gastronómico muito próximo da chamada cozinha internacional, onde não faltam produtos nobres como os lavagantes, o caviar ou o champanhe, tem crescido a ritmo consistente e nos últimos tempos investiu bastante no melhoramento do seu espaço: há uma nova mesa do chef, melhorada cozinha e garrafeira e a adição de um novo trunfo, o chef pasteleiro Carlos Fernandes que tem provas dadas no campeonato da inovação e criatividade. Pode ter passado muito pouco tempo desde que João ganhou a primeira estrela mas isso pode não querer dizer nada.

LAB by Sergi Arola
Penha Longa Resort, Quinta da Lagoa Azul, Sintra; 219 249 011O chef espanhol Sergi Arola teve durante muito tempo na zona de Sintra a sua segunda casa, primeiro com o restaurante Arola e mais recentemente com o LAB by Sergi Arola, espaço ainda mais refinado que, por culpa dos azares e insucessos no seu país de origem, passou a ser morada principal deste veterano do fine dining. O duas estrelas que tinha em Madrid fechou e desde então virou todas as suas atenções para esta casa elegante virada para o imenso verde do Penha Longa Resort. Ora este desviar de atenção tem vindo a surtir efeito com a sua cozinha a crescer a lhos vistos, ariscando sair da sua zona de conforto muito graças também ao seu braço direito, o chef Vladimir. No final do ano passado deu a entender que ia ser feito um investimento considerável no restaurante e suas infraestruturas e logo a partir daí deixou claro que uma estrela não lhe bastava, queria ir para a segunda. A evolução do seu trabalho (agora mais focado) e o historial positivo que já tem junto do guia podem ser fatores importantes nessa demanda. Será já este ano? Talvez, mas não é 100% seguro.

– Para a primeira estrela –

Vistas
Monte Rei Golf & Country Club, Sítio Do Pocinho, V. N. de Cacela; 281 950 950  

É um dos grandes apontados para a conquista da primeira estrela. Este restaurante num cantinho do Algarve já aparece no radar do guia desde o tempo em que o seu chef era Albano Lourenço, cozinheiro que já tinha alcançado esse objetivo há uns bons anos, quando trabalhava na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. O seu turno acabou por terminar e para ocupar a sua posição enquanto cozinheiro principal deste Vistas foi o jovem Rui Silvestre, o mais jovem chef português a conquistar a distinção quando trabalhava no Bon Bon, também no Algarve. Já com um ano volvido desde a mudança a ideologia e visão de Silvestre já está a falar por si e o Vistas já transmite a identidade gastronómica deste chef que já conhece bem a constelação gastronómica. É quase certo que irá ganhar este ano, falta a confirmação final.

Euskalduna Studio
Rua de Santo Ildefonso, 404, Porto; 935 335 301

Em pouco mais de dois anos (quase três), o intimista restaurante do chef Vasco Coelho Santos conseguiu tornar-se numa verdadeira referência da alta gastronomia da cidade do Porto. Sabores fortes, influências internacionais, atenção ao que melhor há no país e muita sofisticação são as munições deste cozinheiro que, surpreendentemente continua a escapar às malhas do guia Michelin. O trabalho do Euskalduna tem marcado uma nova vanguarda de cozinha moderna na cidade Invicta e, apesar de não ser isso o principal foco dos inspetores, já é mérito suficiente para alcançar a primeira estrela. Apesar do guia ter mudado de direção e de parecer haver algumas mudanças significativas (são mais rijos com quem quer “abdicar” dos astros, por exemplo), ainda há muita discrepância de critérios e um certo conservadorismo que, no momento de avaliar Portugal, parece ser mais exacerbado ainda. A ver o reinado de Gwendal Poullennec, o novo diretor do guia, já valorizam esta casa como deve ser.

Mesa de Lemos
Quinta de Lemos, Passos de Silgueiros, Viseu; 961 158 503 

No ano passado o guia mostrou que não interessa apenas o Algarve, Lisboa e Porto mas que sítios como Bragança (com o G Pousada) ou Guimarães (com A Cozinha de António Loureiro) também merecem atenção. Ou seja, há uma aparente aposta em descobrir outros sítios que não os mais centrais ou badalados e esse ideal faria ainda mais sentido se se comprovasse aquilo que neste momento parece uma forte possibilidade: a Mesa de Lemos conquistar uma estrela Michelin. Localizada nos arredores de Viseu, esta casa é um espanto de ver e de provar, este último fator muito graças ao trabalho do jovem chef Diogo Rocha, que é um dinamizador nato da sua região. Em anos anteriores, as limitações causadas pela curta garrafeira (como mora numa quinta de vinhos, só vendia os que a casa produzia) podem ter sido um entrave, por exemplo, mas hoje isso já mudou e, como se não bastasse, o seu trabalho na cozinha tem continuado a evoluir e melhorar. É caso sério e merece a estrela.

Fifty Seconds Martín Berasategui
Hotel Myriad by Sana Lisboa; Lote 2.21.01, Parque das Nações, R. Cais das Naus; 211 525 380

Aquela que foi seguramente a maior abertura do ano passado será quase de certeza uma das premiadas no próximo dia 20 de novembro. O projeto português do mestre espanhol Martín Berasateguí é um dos mais sofisticados e coerentes espaços de fine dining do país, um templo da alta gastronomia no seu estado mais puro e isso nota-se não só no excelente serviço de sala como no grande trabalho do chef Filipe Carvalho e sua equipa, os representantes da comida de Martín em terras lusas. No meio, a opinião é quase unânime de que esta casa vai ser estrelada este ano e muitos chegam a arriscar que salte diretamente para as duas estrelas, algo francamente mais difícil de se realizar (apesar de não ser impossível). Para quem já lá foi não é de estranhar a certeza no afirmar que este é um sítio que merece estrela e quem ainda não la tenha estado pode ficar só a saber que Berasategui é um dos cozinheiros com mais estrelas Michelin no mundo (soma dez, no total, espalhadas por vários espaços) e isso prova que o Guia tem-lhe em boa conta.

Epur
Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 14, Lisboa; 213 460 519 

Não foi à primeira pode ser que seja à segunda: A casa lisboeta do francês Vincent Farges foi um projeto muito aguardado pela comunidade gastrófila do país — o chef já tinha brilhado na Fortaleza do Guincho, antes, e depois foi para as Caraíbas durante um ano, esta casa marcou o seu regresso ao país — e agora que já leva praticamente dois anos de funcionamento continua a comprovar que havia razão para todo esse entusiasmo. É quase unânime entre o meio de que este Epur é um dos sítios onde melhor se come na cidade de Lisboa e a estrela, que já lhe foi muito apontada no ano passado, pode muito bem chegar desta vez. Seria justo: o trabalho de Vincent é notório e é dos cozinheiros que melhor consegue juntar a sua escola francesa com o melhor dos produtos e receitas tradicionais portuguesas. O facto de estar meio “escondido” numa rua paralela ao Chiado pode ser um contratempo mas esperemos que isso não seja nenhum impeditivo para lhe dar o que merece.

– Para perder estrelas –

L’And Vineyards
Estrada Nacional 4, Herdade das Valadas, Montemor-o-Novo; 266 242 400

Esta é a parte que nenhum português quer que se concretize mas cuja hipótese, realisticamente falando, pode existir. O L’And Vineyards pode estar em perigo de perder o seu astro mais uma vez, depois de em 2016 já ter estado nessa amarga posição. Na altura era o chef cascalense Miguel Laffan que estava aos comandos do restaurante gastronómico e foi dele o mérito da rápida reconquista, um anos depois. Desde então não houve qualquer alteração mas este ano Laffan decidiu abandonar o projeto e regressar à sua Cascais, onde atualmente gere o Miguel Laffan at Atlântico Bar & Restaurante. Ora esta transição pode ter coincidido com a fase de avaliação dos inspetores e o novo chef, José Tapadejo, pode ter sido apanhado na curva. Independentemente da decisão, o L’and tem mais que provas dadas de que é um sítio onde se come bem — e isso seguramente não mudará de um momento para o outro.

Henrique Leis
Estrada Vale Formoso, 234, Almancil; 289 393 438

O caso do chef brasileiro Henrique Leis foi notícia pelo mundo todo há coisa de uns meses. Depois de quase 20 anos a segurar o estatuto de uma estrela Michelin, o cozinheiro decidiu que não a queria mais e enviou uma carta ao guia a dizer que a “entregava”. Apesar da atual gestão do guia ser bastante firme ao recusar estas entregas, alegando que as estrelas não são propriedade dos chefs e por isso eles não as podem entregar, o precedente já tinha sido aberto antes — como no caso do francês Sebastien Bras, que “entregou” as suas três estrelas e, na altura, o guia aceitou-as, apesar de depois (com a mudança de direção) voltar a figurar na constelação mas só com dois astros. Aí surge o espaço para a dúvida: será que vai mesmo perder a estrela porque disse que não a queria mais ou vai mantê-la, caso os inspetores que lá passaram este ano achem que ele a continua a merecer? A resposta para esta questão só será finalmente formalizada no dia 20, quando se souber quem ganhou, perdeu ou manteve, mas as probabilidades de sair do guia vermelho são elevadas.