Dizer que a relação com a União Europeia foi o tema principal das eleições que decorreram esta quinta-feira no Reino Unido — e que deram a vitória com maioria absoluta ao Partido Conservador de Boris Johnson — pode parecer pouco: o Brexit foi mesmo o tema dominante da política britânica nos últimos três anos e o único ponto a marcar a agenda desta campanha eleitoral. O lema eleitoral de Boris Johnson, “let’s get Brexit done“, não deixava margem para grandes dúvidas. Por isso, não é de desvalorizar que as eleições tenham decorrido precisamente num dia em que, em Bruxelas, os líderes dos outros 27 países da UE estavam reunidos em Conselho Europeu.

Em cima da mesa nesta reunião — que decorre entre quinta e sexta-feira em Bruxelas e que tem Ursula von der Leyen pela primeira vez como presidente da Comissão Europeia e Charles Michel também pela primeira vez a presidir à reunião do Conselho Europeu — estão oficialmente o orçamento comunitário e as alterações climáticas. Mas, tal como na política britânica, o tema Brexit deverá sobrepor-se. Aliás, para o fim do Conselho Europeu, nesta sexta-feira, está agendada uma reunião especial dos 27 para discutir o Brexit. Porém, mesmo sendo expectável que, dentro da sala, o Brexit esteja a dominar as conversas entre os líderes europeus, as reações públicas a partir de Bruxelas têm sido contidas.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, deixou num tweet uma mensagem de parabéns a Boris Johnson pela vitória. “Esperamos votar o acordo de saída assim que possível. A União Europeia está pronta para a próxima fase. Vamos negociar um acordo comercial futuro que assegure verdadeiramente uma igualdade de condições”, escreveu Michel. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou à imprensa em Bruxelas, já depois de conhecidas as projeções, que a UE está “pronta para qualquer cenário”. “Temos as estruturas internas, estamos prontos para negociar o que for necessário”, afirmou, sem se alongar em comentários e preferindo esperar quer pelos resultados oficiais no Reino Unido quer pela reunião de sexta-feira. “Vai ser importante amanhã ter o mandato do Conselho para os próximos passos, por isso o tema vai estar no centro do nosso debate amanhã.”

À chegada a Bruxelas para a reunião, na quinta-feira, os líderes europeus preferiram não comentar o processo eleitoral a decorrer no Reino Unido. “As alterações climáticas são a nossa principal prioridade na nossa reunião desta tarde”, afirmou Michel à chegada. “Respeito sempre as escolhas dos eleitores e vamos esperar para ver o resultado destas eleições”, sublinhou antes de entrar para a cimeira. Angela Merkel pedia que a Europa mandasse “um sinal forte” ao mundo de entendimento face às alterações climáticas; a primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, recentemente eleita e notável por ser a mais jovem primeira-ministra do mundo, assinalava a importância de chegar a objetivos comuns.

Durante o dia, as eleições no Reino Unido e o tema do Brexit foram sendo essencialmente ignorados nas declarações públicas dos líderes europeus — que, ao fim da noite, acabariam por não conseguir chegar a um consenso no tema central, com a Polónia a opôr-se ao acordo para a União Europeia atingir a neutralidade carbónica até 2050. Mas, na verdade, os olhos dos líderes europeus estavam virados para o Reino Unido. O jantar foi servido a horas tardias, por volta das 22h de Bruxelas, numa altura em que faltava uma hora para o fecho das urnas e para a publicação das primeiras projeções — a que os 27 assistiram com atenção. Ao Politico, um diplomata europeu não identificado confirmava que os líderes europeus estavam atentos às projeções e a preparar-se para qualquer cenário. Se a projeção apontasse para uma maioria absoluta de Boris Johnson, a UE estaria preparada para começar a negociar as relações futuras “na segunda-feira”.

Só na manhã desta sexta-feira o assunto deixou de ser tabu entre os líderes europeus. Depois de Charles Michel ter congratulado Boris Johnson pela vitória, outros chefes de estado e de governo da União Europeia começaram a reagir aos resultados eleitorais do Reino Unido, que vão marcar as discussões do segundo dia deste Conselho Europeu. A primeira-ministra belga, Sophie Wilmès, reconheceu que “existe um prazo”, que é o de 31 de janeiro, e que agora é fundamental que a Europa fale “a uma voz” na negociação das relações futuras com o Reino Unido. “Temos de dar um mandato claro a Michel Barnier para negociar como vai ser a nossa relação futura.”

Na primeira reunião do Conselho Europeu presidida por Charles Michel e com a presença de Ursula von der Leyen, o tema central foram as alterações climáticas — e a eleição no Reino Unido passou despercebida nas comunicações públicas dos líderes europeus

Também esta manhã, à chegada ao Conselho Europeu, o primeiro-ministro da República Checa, Andrej Babiš, classificou o resultado eleitoral como “más notícias para a Europa”. “É obviamente um sucesso gigante para Boris Johnson. Ele é um líder carismático. Ganhou e agora eles vão ter de sair, infelizmente. São más notícias para a Europa”, lamentou Babiš. Por seu turno, o primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel, afirmou que agora “a desculpa de que não há uma maioria clara em Londres já não pode ser usada”. Depois do resultado, sublinhou Bettel, Boris Johnson terá mesmo de negociar a saída do Reino Unido da UE. “Não vai ser fácil, mas nunca foi fácil.”

Do país da UE que está mais diretamente envolvido na questão do Brexit, a Irlanda, chega o agrado por haver, pelo menos, uma decisão clara. “É positivo que haja um resultado decisivo no Reino Unido”, afirmou o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, antes da cimeira desta sexta-feira. “O próximo passo é ratificar um acordo de saída que garante que não há uma fronteira rígida entre o norte e o sul, que garante a proteção da área comum de movimentos e também os direitos dos cidadãos britânicos e irlandeses”, assinalou Varadkar, sublinhando que é fundamental existir “comércio livre de taxas entre o Reino Unido e a UE”.

O diplomata europeu Michel Barnier, que tem sido o negociador-chefe da UE para a questão do Brexit, continuará a liderar as negociações entre a União Europeia e o Reino Unido após a saída do país do bloco — num processo que deverá chegar a um acordo definitivo sobre a relação entre a UE e o Reino Unido. A continuidade de Barnier tem sido aplaudida esta sexta-feira pelos líderes europeus. É o caso do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, que esta manhã sublinhou a importância da “continuidade” para alcançar os melhores resultados possíveis. Os líderes europeus discutem esta sexta-feira os resultados da eleição, sendo expectável que no fim do dia haja novidades sobre os próximos passos num processo negocial que já dura há mais de três anos.