O julgamento de impeachment de Donald Trump poderá não ficar concluído esta semana como inicialmente tudo fazia prever. Depois de, no domingo à noite, o The New York Times ter divulgado excertos de um livro ainda por publicar de John Bolton, ex-conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos da América (EUA), há vários senadores republicanos a equacionar votar favoravelmente pela convocatória de novas testemunhas para o processo — incluindo, naturalmente, John Bolton —, o que deverá atrasar o julgamento até pelo menos à semana seguinte. Inicialmente, tudo apontava para que os republicanos usassem a sua maioria para chumbar a audição de novas testemunhas no fim dos argumentos iniciais, tal como fizeram no primeiro dia do julgamento.

No livro, John Bolton — que foi afastado da Casa Branca por Donald Trump em setembro do ano passado — fala especificamente sobre o caso pelo qual Trump está a ser julgado com vista à possível destituição e faz revelações que podem mudar o curso do julgamento. Segundo o The New York Times, Bolton diz que ouviu da boca de Donald Trump, quando ainda era conselheiro de segurança nacional do Presidente dos EUA, que Trump pretendia manter a ajuda militar à Ucrânia bloqueada enquanto o país não anunciasse investigações aos negócios de Hunter Biden (filho de Joe Biden). O objetivo de Trump seria apenas um, na ótica da acusação: prejudicar a imagem do ex-vice-presidente Biden, que hoje se posiciona como um dos principais candidatos democratas à Presidência dos EUA.

Na sessão desta segunda-feira, que foi a sexta do julgamento e a segunda destinada à apresentação dos argumentos da defesa de Donald Trump, o livro foi, contudo, um tema quase tabu. Mas foi mesmo ele que dominou as atenções durante todo o dia nos corredores do Senado norte-americano, onde decorre o julgamento de Trump, acusado pela Câmara dos Representantes de abuso de poder (por ter alegadamente pressionado a Ucrânia a investigar os Bidens a troco de ajuda militar) e de obstrução do Congresso (por ter impedido elementos da administração norte-americana de testemunhar durante a fase de inquérito que precedeu o julgamento).

A defesa de Donald Trump tem insistido num argumento central: o de que não houve nenhum quid pro quo (troca por troca) nos contactos entre Donald Trump e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski. Porém, o relato de John Bolton vem contradizer a versão da Casa Branca. Segundo ele, Trump terá mesmo feito depender a reativação do financiamento militar atribuído pelos EUA à Ucrânia (no valor de 391 milhões de dólares) do anúncio público de uma investigação à empresa Burisma, à volta da qual havia suspeitas de corrupção e de cujo conselho de administração fez parte o filho de Joe Biden, Hunter Biden. Esta contradição poderá revelar-se, inclusivamente, suficientemente forte para inverter o poder dos republicanos no Senado.

Atualmente, o Senado conta com 53 votos republicanos e 47 democratas. Os democratas insistem, desde o primeiro dia do julgamento, em chamar como testemunhas figuras que consideram chave, como John Bolton ou o chefe de gabinete de Donald Trump, Mick Mulvaney. Porém, os republicanos têm bloqueado as tentativas da bancada democrata — e, no início do julgamento, chumbaram todas as propostas apresentadas pelos democratas para chamar testemunhas e requisitar documentos para o processo. Agora, contudo, a revelação surgida na noite de domingo no The New York Times está a fazer vários senadores republicanos admitirem a possibilidade de apoiar uma moção destinada a convocar John Bolton para depor perante o Senado.

Mitt Romney, que tem sido o único republicano a defender publicamente a intimação de John Bolton, reafirmou esta segunda-feira a sua convicção e disse ser “cada vez mais provável que outros republicanos se juntem ao grupo dos que pensamos que é necessário ouvir John Bolton”. Ao longo do dia, nos corredores do Senado, em declarações aos jornalistas durante os intervalos do julgamento, vários senadores se foram juntando ao grupo. Lindsey Graham, um dos grandes aliados de Trump, disse que é necessário “avaliar o manuscrito e ver se há razão para o adicionar” ao conjunto de provas que estão a ser analisadas pelos senadores. Questionado sobre se apoiará a convocatória de Bolton, disse ainda não saber — mas não fechou a porta a um apoio.

Quem já terá formalizado uma proposta concreta no seio do Partido Republicano é o senador Pat Toomey, da Pensilvânia. Segundo a imprensa norte-americana, depois da notícia sobre o livro de Bolton, Toomey lançou entre os seus colegas a possibilidade, já discutida, de propor uma troca de testemunhas, permitindo que cada um dos lados convoque uma testemunha para depor no Senado. Susan Collins, outra senadora republicana, tem desde o início do julgamento mostrado abertura à possibilidade de chamar novas testemunhas e a imprensa norte-americana está a colocá-la junto dos que votarão a favor de uma intimação a John Bolton — que, aliás, já se mostrou disponível para testemunhar caso o Senado o chame. Outros dois republicanos, John Barrasso e Mike Braun, mostraram-se favoráveis a uma troca de testemunhas.

Esta matemática coloca, neste momento, seis republicanos no grupo dos que poderão votar ao lado dos democratas neste assunto — mais do que os suficientes para fazer aprovar uma moção destinada a chamar John Bolton. Isto significa que, ao contrário do que inicialmente se previa, o Presidente dos EUA poderá não ser já absolvido nesta sexta-feira, embora se mantenha a perspetiva de que o resultado final do julgamento será esse.

A posição não é, de todo, consensual entre os republicanos. O líder da bancada, Mitch McConnell, já se mostrou contra a convocatória de novas testemunhas, mas fontes do partido têm dito a vários meios de comunicação social norte-americanos que McConnell poderá aceitar uma troca de testemunhas se perceber que os republicanos não conseguirão chumbar definitivamente novas audições. Já Mark Meadows, outro senador republicano que se conta entre os mais leais a Trump, não tem dúvidas: a divulgação do excerto do livro “foi pensada apenas com um propósito, que foi o de tentar manipular os colegas republicanos no Senado e de os encorajar a abrir o julgamento a mais testemunhas“.

Livro foi assunto tabu dentro da sala do Senado

Apesar de o livro ter caído no meio do processo como uma bomba com o potencial para fazer mudar o curso do julgamento, a verdade é que dentro da sala do Senado, nesta segunda-feira, o assunto praticamente não foi referido pelos advogados de Donald Trump, que prosseguiram com a exposição dos seus argumentos sem referências a John Bolton.

A primeira referência, ainda que indireta, à polémica que marcou o dia político nos EUA veio do advogado Jay Sekulow, um dos elementos da equipa que está a defender Trump no julgamento. “O que fizemos no sábado é o padrão que vamos continuar a seguir hoje no que diz respeito à forma como lidamos com o caso. Trabalhamos com provas, com transcrições, com informação pública. Não trabalhamos com especulações, com alegações que não são baseadas em qualquer tipo de prova“, afirmou Sekulow.

O grosso dos argumentos apresentados ao longo das cerca de oito horas da sessão desta segunda-feira focou-se em questões históricas e legais. Ken Starr, que na década de 90 esteve à frente da investigação que conduziu ao julgamento de impeachment do Presidente Bill Clinton e que hoje faz parte da equipa de defesa de Donald Trump, alertou para o perigo de “normalização” do impeachment, que, argumenta, pode passar a ser usado como uma arma contra todos os presidentes. “Tal como a guerra, o impeachment é o inferno”, disse, sustentando que um processo de destituição de um Presidente “divide o país como mais nenhum assunto”.

Mike Purpura e Jay Sekulow insistiram nos argumentos que já tinham utilizado no sábado: todos os registos provam que não houve nenhuma troca por troca, ou seja, Trump não condicionou a ajuda militar ou uma reunião na Casa Branca a qualquer investigação. Mas, nesta segunda-feira, a equipa de Trump foi mais longe e atacou diretamente Joe Biden e o seu filho, Hunter Biden, sublinhando que a empresa ucraniana Burisma, em que Hunter Biden trabalhava, era corrupta e que a nomeação de Biden para a administração tinha resultado de nepotismo. A defesa de Trump procurou, assim, argumentar que uma investigação à Burisma era necessária e não foi usada de forma instrumental pelo Presidente dos EUA para obter benefícios eleitorais.

Só no final de oito horas de argumentos é que o advogado Alan Dershowitz — um dos advogados mais conhecidos do país, depois de defender OJ Simpson, Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein ou Mike Tyson —, outro dos elementos da equipa de Donald Trump, abordou o tema quente do dia.

Sem negar o conteúdo da notícia do The New York Times sobre o livro de John Bolton, Dershowitz afirmou que “se um Presidente, qualquer Presidente, tivesse feito aquilo que o Times relata sobre o conteúdo do manuscrito de Bolton, isso não constituiria uma ofensa punida com o impeachment“. “Deixem-me repetir: nada nas revelações de Bolton — mesmo que sejam verdade — constituiu um abuso de poder ou uma ofensa punida com o impeachment“, acrescentou Dershowitz, sublinhando que é necessário o Presidente cometer “um crime grave”, como “extorsão”, para ser destituído.

A ação principal desta segunda-feira passou-se, porém, fora da sala do julgamento. Nos corredores do Senado, onde a maioria dos repórteres de política dos EUA se têm concentrado nos últimos dias, multiplicavam-se as informações e os detalhes sobre o livro que revela já uma parte daquilo que John Bolton poderá vir a dizer caso seja chamado a depor. Os democratas que estão a conduzir a acusação ainda não falaram com Bolton desde a publicação da notícia, de acordo com a imprensa norte-americana. E o próprio Bolton ainda está a decidir o que irá fazer. Fontes próximas do ex-conselheiro de segurança nacional afirmaram aos jornalistas norte-americanos que a divulgação do conteúdo do livro não foi combinada entre Bolton e o The New York Times, pelo que Bolton irá agora decidir se vai ou não falar publicamente sobre o tema. Se irá ou não ao Senado, só na sexta-feira, quando os senadores votarem sobre o assunto, é que se vai saber.