Na temporada passada, a expressão “hegemonia interna” foi repetida intensamente para descrever a época do Manchester City. A equipa de Pep Guardiola conquistou a Premier League, mesmo depois de ter estado a sete pontos do Liverpool, conquistou a Taça de Inglaterra ao golear o Watford e conquistou a Taça da Liga pelo segundo ano consecutivo, derrotando o Chelsea, um dos principais rivais, na final. A expressão, porém, servia também para ofuscar um lado negativo da época do Manchester City.

A palavra interna significava para explicar que o Manchester City só conseguia ter sucesso dentro de portas, no próprio país e nas próprias competições. Foi imbatível em Inglaterra, conquistou as três competições nacionais mas falhou, como nos últimos anos, na Liga dos Campeões: foi eliminado pelo Tottenham nos quartos de final e falhou tanto a final que nunca alcançou como o próprio troféu que ainda falta no museu do clube. O triplete interno, por muito valioso que seja, deixava à vista o falhanço da equipa de Guardiola nas competições europeias.

Esta temporada, o panorama é diferente. Na Premier League, o Liverpool tem nesta altura 22 pontos de vantagem para o Manchester City e mão e meia no troféu da liga inglesa — o que deixa desde já o triplete interno muito complicado para a equipa de Pep Guardiola e virou as atenções para a Liga dos Campeões. Uma Liga dos Campeões de onde o City poderá estar afastado nos próximos dois anos, onde o City está em vantagem na eliminatória dos oitavos contra o Real Madrid e que o City quer ganhar para salvar a temporada e deixar um statement para responder ao castigo. O triplete, ainda que alternativo, teria de ser feito de outra forma: com a Liga dos Campeões, a Taça de Inglaterra e a Taça da Liga. E o primeiro passo poderia ser dado já este domingo, em Wembley, contra o Aston Villa.

Na final da Taça da Liga, Bernardo Silva era suplente na equipa do Manchester City, que entrava em campo com Sterling e Foden mais perto das alas e David Silva nas costas de Agüero. Rodri e Gündoğan eram os médios mais recuados e o City só precisou de 20 minutos para inaugurar o marcador, contra um Villa que eliminou o Leicester na meia-final mas que estava a mostrar muitas dificuldades na hora de defender as investidas ofensivas dos citizens. Num lance de ataque praticamente perfeito, Rodri abriu o jogo da esquerda para a direita, Phil Foden amorteceu de cabeça ao segundo poste e Agüero só precisou de encostar para bater Nyland (20′).

O Manchester City, que na meia-final afastou o Manchester United, continuou a empurrar o Aston Villa para o próprio meio-campo e desdobrou-se em ocasiões e oportunidades, causando perigo sempre que entrava na grande área da equipa de Birmingham. Dez minutos depois, na sequência de um canto batido na direita, Rodri apareceu em desmarcação quase sozinho e cabeceou para aumentar a vantagem (30′). À meia-hora, o Manchester City estava a ganhar por dois na final da Taça da Liga e tinha o jogo totalmente controlado, adivinhando-se a partir daí uma escalada algo infeliz para o Aston Villa.

O mais improvável, porém, aconteceu. Na primeira aproximação que fez à baliza de Claudio Bravo, que substituía Claudio Bravo, o Aston Villa conseguiu reduzir a desvantagem já perto do intervalo e terminar a primeira parte a conceder alguma indefinição à final. Numa transição rápida pela esquerda, John Stones desequilibrou-se e caiu e permitiu a subida de El Ghazi, que cruzou para a grande área, onde Samatta surgiu a cabecear para o golo entre dois adversários (41′) — para alegria do Príncipe William, adepto confesso do Aston Villa, que estava a assistir ao jogo em Wembley.

Na segunda parte, o Manchester City teria de ter especial cuidado com Jack Grealish, o capitão e principal figura do Aston Villa, que servia de parceiro ideal para o avançado Samatta. Talvez por isso, Guardiola baixou ligeiramente as linhas depois do intervalo, a equipa recuou, De Bruyne entrou para o lugar de Gündoğan e os caminhos rumo à baliza de Claudio Bravo iam escasseando, até porque o Manchester City estava em vantagem e só precisava de manter o resultado inalterado para conquistar novamente a Taça da Liga.

A equipa de Guardiola subiu claramente de rendimento com a entrada do médio belga, que veio trazer criatividade e soluções que não apareciam desde os primeiros minutos do jogo. De Bruyne esgotou as já escassas investidas do Aston Villa, que tinha agora como principal objetivo não sofrer mais golos — tarefa onde o central Tyrone Mings era o grande ativo — e manter viva a possibilidade de voltar a surpreender o City com um ataque isolado, como fez na primeira parte. Grealish recuava muito no terreno para ir buscar jogo, o que deixava demasiado espaço entre o setor intermédio e o mais adiantado dos villains, espaço que De Bruyne aproveitava então para ter a mobilidade suficiente que lhe permita para ir de um corredor ao outro a impulsionar Silva e Agüero com passes verticais.

Bernardo Silva entrou para o lugar de David Silva quando faltavam 15 minutos para o apito final e o internacional português acabou por estar na origem da melhor oportunidade do Manchester City na segunda parte, ao cruzar para um remate de primeira de Agüero que saiu à malha lateral (80′). O resultado, porém, não voltou a alterar-se até ao fim — graças a uma enorme defesa de Claudio Bravo que evitou o golo de Engels — e o City acabou por vencer o Aston Villa em Wembley pela margem mínima.

O Manchester City conquista a Taça da Liga pela terceira temporada consecutiva, o primeiro troféu da época e o oitavo com Guardiola, numa altura em que ainda está em competição tanto na Taça de Inglaterra como na Liga dos Campeões. A equipa do treinador espanhol, muito longe do primeiro lugar da Premier League, vai em busca de um triplete alternativo ao quase já impossível interno — e deu este domingo o primeiro passo para isso mesmo.