Portugal devia “estar a testar muito mais gente” para o novo coronavírus mas, para isso, seria necessário que tirasse partido da capacidade que tem para fabricar testes. A opinião é de Jaime Nina, médico infecciologista no Hospital Egas Moniz. Em declarações ao Observador, o também professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical defende que “há falta de testes” — e para resolver o problema “várias instituições portuguesas têm capacidade para começar a fabricar os testes“.

“Eu sou dos que pensam que devíamos testar muito mais gente, mas para mim é fácil dizer isto porque não sou eu que pago”, atira o médico. Jaime Nina considera que todos os doentes “com uma infeção respiratória aguda razoavelmente grave” que cheguem aos serviços de urgência “deviam ser testados, mesmo que não tenham tido contacto com cidadãos da China ou de Itália, por exemplo”. “Se estamos à espera de que apareça alguém para fazer a história epidemiológica, o doente vai ficar horas e horas no serviço de urgência à espera.” Também todos os alunos que pertençam à turma de uma criança diagnosticada com Covid-19 devem ser testados, na opinião do especialista — e não apenas ficar em vigilância.

Jaime Nina dá o exemplo de Itália para defender o alargamento dos testes: a partir do momento em que os hospitais do país receberam luz verde para estender a realização de testes, “começaram a descobrir que a epidemia estava muitíssimo mais generalizada do que se pensava“. E os alarmes soaram.

No fundo, devia fazer-se o que se fez em 2009 com a gripe A. Inicialmente só se testavam pessoas que tinham vindo do México, depois, a pouco e pouco, começou a generalizar-se a toda a gente e, a partir de certa altura, qualquer pessoa que entrasse nas urgências com febre era testada. Encontrou-se muita gente que estava infetada e que não era evidente como é que se tinha infetado”, defende o médico.

Cláudia Conceição, professora no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e sócia-fundadora da Direção da Sociedade Portuguesa de Medicina do Viajante, tem, para já, uma postura mais cautelosa e considera que Portugal está a ter “a abordagem correta”. Neste momento, os critérios da Direção-Geral da Saúde, divulgados no microsite informativo sobre o coronavírus, definem que quem estiver com febre, tosse ou dificuldade respiratória e tiver estado em contacto com uma pessoa infetada, ou tiver regressado recentemente de uma área afetada, deve ligar para o SNS24 (808 24 24 24). Após este contacto, os profissionais de saúde decidem, caso a caso, se deve ser testado.

“Claro que, num mundo ideal, se testava toda a gente. Mas as coisas estão previstas para uma racionalidade de meios. Esta é uma doença em que o ideal é resguardar e observar o que se está a passar. E evitar querer ter um teste para dizer que é negativo… porque dizer que é negativo não quer dizer que amanhã ou depois não esteja com o vírus. A atitude mais sensata é a autovigilância”, defende Cláudia Conceição. Os testes não devem, por isso, ser generalizados, considera, nomeadamente a todas as pessoas que apresentem infeções respiratórias. Até porque, especialmente no Inverno, “são imensas os casos que aparecem com infeções respiratórias nas urgências“.

“Na minha opinião tudo é limitado pela capacidade. E a capacidade está a dizer-me que temos de guardar testes para as pessoas que são suspeitas — que já apresentam sintomas. Porque daqui a pouco, temos pessoas gravemente doentes e não temos maneira de saber.”

Portugal tem capacidade para fabricar testes do Covid-19?

Os testes que estão a ser realizados ao Covid-19, chamados PCR, “são limitados”: apenas “tiram uma fotografia da situação e não o vídeo” — ou seja, uma pessoa, geralmente sem sintomas, pode testar negativo, mas o vírus estar a desenvolver-se no corpo humano, explica Jaime Nina. É por isso que o infecciologista não concorda, tendo em conta os recursos que o país tem, que todos os cidadãos sem sintomas que recentemente tenham estado em países afetados pelo Covid-19 — sobretudo porque os kits são caros.

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Idealmente, defende, o país deveria seguir o exemplo da Coreia do Sul. Aí, cada caso suspeito é sujeito a testes diariamente até ao fim do período de risco ou até testar positivo. “Claro que, para isso se aplicar em Portugal, era preciso uma grande disponibilidade de testes“, o que teria um forte impacto orçamental. Se um hospital só tem 20 testes, tem 10 doentes, que tiveram mais de 50 contactos, tem de fazer uma utilização racional dos recursos.”

Como os hospitais “não têm testes suficientes” para aumentar a capacidade de testar casos suspeitos, Portugal deveria fabricar os próprios kits (só Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge produz os kits que usa para validação dos casos confirmado). “Há várias instituições portuguesas que têm capacidade para começar a fabricar os testes de um dia para o outro”, como o Instituto de Medicina Molecular ou o Instituto de de Higiene e Medicina Tropical, exemplifica. Para isso, seria necessário ter autorização do uso de primers (fragmentos dos genes do vírus que podem ter sido patenteados por quem os descobriu) e uma autorização governativa. Numa fase inicial, a produção “seguramente daria prejuízo”, mas “se a procura fosse grande até podia ser uma fonte de financiamento para a instituição“.

Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, também defende a realização de “análises laboratoriais mais generalizadas” — designadamente um alargamento às pessoas que não têm um “link epidemiológico”, ou seja, não contactaram com casos confirmados.

Se não estamos a testar pessoas que não têm um link epidemiológico, naturalmente também não vamos encontrar casos positivos entre essa população. A grande questão que se colocava era alargar a malha para estarmos a testar não necessariamente todos os casos de doentes que se apresentavam com patologia respiratória, mas pelo menos alguma amostra nessa população”, disse em entrevista à Rádio Observador.

“Se não testamos, não vamos encontrar casos”

Esta sexta-feira, o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho anunciou que o Laboratório Militar vai começar a produzir, na próxima semana, gel de limpeza e testes ao novo coronavírus para o Serviço Nacional de Saúde.

“Somos, de longe, o país da Europa ocidental com menos ventiladores por milhão de habitantes”

Portugal é o país da Europa ocidental “com menos unidades de cuidados intensivos por milhão de habitantes e, de longe, o que tem menos ventiladores por milhão de habitantes”. Por isso, “se tivermos um surto como em Itália, [a situação] vai ficar muito má”, defende Jaime Nina. Ainda assim, o médico acredita que estamos a aprender com a experiência de Itália. “Costuma dizer-se que aquilo que corre mal, é quando nos ensina mais”.

Jaime Nina defende ainda que deviam ser não só as autoridades de saúde a pedir a realização de testes perante um caso suspeito — os médicos também deviam poder fazê-lo. Mas, mais uma vez, são necessários recursos. “Tem que se reservar os testes para aqueles em que o resultado será mais útil”. Além disso, mais hospitais deveriam estar a realizar testes, como o Amadora-Sintra ou o Garcia de Orta. “Mas uma coisa é pensar que se poderia fazer; outra coisa é ser possível.”

Outro problema, refere, é a falta de recursos humanos especializados. E, por isso, sugere que se apliquem algumas medidas como durante a gripe A, em 2009, quando o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge “fez um curso para pessoal de laboratório de maneira a poderem realizar os testes em vários hospitais. É que não basta criar o kit. É preciso que os resultados do kit sejam corretamente feitos“.

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Cláudia Conceição acrescenta que falta “coordenar melhor as nossas ações e ter um público bem informado que seguisse aquilo que está a ser aconselhado, em vez de ir a correr às urgências, onde uma criança pode entrar saudável e sair doente”.

Já faltam testes nos laboratórios privados: procura aumentou 14 vezes em quatro dias

Os laboratórios privados viram a procura pelos testes ao Covid-19 aumentar 14 vezes entre segunda-feira e quinta-feira e, como resultado, estão a registar dificuldades em obter os kits. Ao Observador, Germano de Sousa, antigo bastonário da Ordem dos Médicos e proprietário de um grupo de laboratórios, diz que houve uma redução abrupta das sondas em armazém e que “as companhias estrangeiras não as despacham a tempo, a produção também não é suficiente e tem havido alguns atrasos na alfândega”.

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Cada teste custa ao paciente até 200 euros, mas Germano de Sousa assegura que os fornecedores estão a vender os kits aos laboratórios a um preço inflacionado. Em quatro dias, os laboratórios do grupo realizaram mais de 330 análises — 14 deram positivo. Os casos têm, obrigatoriamente, de ser comunicados à Direção-Geral da Saúde.

E nos hospitais faltam kits? Unidades de saúde negam

O Observador contactou os hospitais de referência que estão a fazer testes ao Covid-19. Apenas o Centro Hospitalar Lisboa Norte adiantou números, e revelou que está a receber “dezenas de kits” (constituídos por uma zaragatoa, que é depois colocada num frasco) quase todos os dias, prevendo que uma encomenda de 2.000 unidades seja concluída até ao final da semana. E nega que tenham faltado kits para testar os profissionais que contactaram com os dois doentes que durante vários dias permaneceram no hospital de Santa Maria com um diagnóstico incorreto de uma pneumonia não relacionada com Covid-19. Os esclarecimento surgem depois de relatos de que haveria profissionais de saúde que contactaram com os doentes, mas que não foram testados por falta de kits.

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Já fonte oficial do Hospital de Braga garante ao Observador que a unidade de saúde “está a realizar todos os testes necessários, dando resposta a todas as solicitações”. “Em caso de necessidade, será reforçado o stock de kits para realização de análises.” A Autoridade Regional de Saúde do Algarve, por sua vez, assegura que o stock “vai sendo reposto sempre que houver necessidade” no Laboratório Regional de Saúde Pública do Algarve — o único na região do Algarve que está a fazer testes. E o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra também garante que “o laboratório está a funcionar normalmente. Não há nenhuma falha nem se prevê que haja”.

O Observador questionou a Direção-Geral da Saúde sobre se tem algum stock de testes disponível em caso de rutura nalgum hospital, mas não obteve qualquer resposta.