Morreu Miranda Calha deputado da constituinte e antigo vice-presidente da Assembleia da República. O deputado socialista tinha 72 anos e manteve-se como deputado até 2019, sendo um dos críticos do Partido Socialista à solução governativa encontrada por António Costa na anterior legislatura: a “geringonça”.

Miranda Calha. “Tenho medo que vamos por caminhos radicais”

Júlio Francisco Miranda Calha, professor, era licenciado em letras e à, exceção das legislativas de outubro, foi sempre eleito deputado pelo PS, pelos círculos de Portalegre — de onde era natural — e de Lisboa. Excluindo os momentos em que saiu do Parlamento para funções governativas, manteve-se como deputado entre 1975 e 2019, 44 anos.

Em Portalegre, foi presidente da câmara e assembleia municipal e governador civil. No governo, assumiu funções de secretário de Estado da Administração Regional e Local, secretário de Estado do Desporto e secretário de Estado da Defesa Nacional.

Na Assembleia da República, como deputado, Miranda Calha foi presidente das comissões parlamentares de Defesa Nacional, e de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local, tendo também desempenhado cargos como membro da Assembleia Parlamentar da União da Europa Ocidental.

Na área da Defesa, integrou ainda a Assembleia Parlamentar da União da Europa Ocidental. Assumiu a presidência da Assembleia Parlamentar da NATO e da Comissão de Segurança e Defesa da Assembleia Parlamentar da NATO.

Em termos de funções executivas, além das pastas do Deporto e da Defesa, Miranda Calha foi também secretário de Estado da Administração Regional e Local e governador civil de Portalegre.

Especialista em questões de defesa, foi condecorado com a Grã Cruz da Ordem do Mérito, tendo ainda sido distinguido como Grande Oficial da Ordem do Infante e com a medalha de Mérito Municipal Grau Ouro pelo Município de Portalegre.

Partido Socialista recorda “humor fino” e inteligência do deputado

Numa nota de pesar publicada no site do partido, os socialistas recordam o “contagiante” humor fino de Miranda Calha e a inteligência “na apreciação da construção na sociedade democrática”: “deixa saudades a todos quantos com ele tiveram o privilégio de se cruzar”.

“A perda de Miranda Calha deve relembra-nos, Socialistas, o papel corajoso e destemido que teve na transição para o Portugal democrático, em particular no Distrito de Portalegre, sempre lutando pela Liberdade e pela Democracia, pelo Estado de Direito e pela dignificação das nossas Instituições”, pode ler-se na nota.

O PS recorda os “cargos e funções nacionais e internacionais” que Miranda Calha assumiu ao longo da sua vida política e que “muito honraram o Parlamento e o Partido Socialista.”

No plano político interno dos socialistas, Miranda Calha esteve sempre próximo de Mário Soares como secretário-geral e apoiou as candidaturas derrotadas de Jaime Gama à liderança deste partido (primeiro contra Vítor Constâncio, depois contra Jorge Sampaio).

Mais recentemente, ainda no que respeita à vida interna do PS, Miranda Calha apoiou as lideranças de José Sócrates e de António Costa.

“Um atlantista convicto”

O Presidente da República manifestou o seu profundo pesar pela morte do antigo secretário de Estado e deputado socialista Miranda Calha, considerando foi “um atlantista convicto” e que teve uma vida preenchida ao serviço de Portugal.

“Foi com muita tristeza que recebi a notícia da morte súbita de Júlio Miranda Calha, com quem partilhei no longínquo ano de 1975 a responsabilidade de deputado à Assembleia que elaborou a Constituição Portuguesa”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa numa nota publicada no portal da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa destaca que Miranda Calha “teve uma vida preenchida ao serviço de Portugal, que serviu como autarca, membro de vários governos e deputado em múltiplas legislaturas”.

“Licenciado em letras e professor no início da sua carreira, especialista em matéria da Defesa, chegou até a ser o mais antigo deputado do parlamento, para o qual foi eleito sucessivamente desde a Constituinte, suspendendo apenas o mandato para exercer funções governativas. Atlantista convicto, animou a Comissão Portuguesa do Atlântico e foi Presidente da Assembleia Parlamentar da NATO”, salienta ainda o chefe de Estado

“Para além de ex governante , autarca e um parlamentar com quem tivemos o gosto de trabalhar e de debater , Miranda Calha , era um respeitado especialista em questões de defesa nacional que , nessa área, muito prestigiou o parlamento e o país em funções internacionais”, lê-se numa nota enviada, por seu turno, pelo Grupo Parlamentar do CDS e assinada por Telmo Correia.  “Europeísta e atlantista convicto fez sempre da moderação a sua forma de estar e do diálogo uma virtude  que não esqueceremos”, escreve o CDS, lamentando a morte do socialista.

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Fernando Gomes, recordou a importância de Miranda Calha  no desenvolvimento do desporto nacional e disse que a ação política do socialista dignificou o país. “A sua ação política dignificou-o e ao país”, escreveu o líder federativo, numa mensagem publicada na página oficial da FPF.

Fernando Gomes enviou “as mais sentidas condolências à família, amigos e colegas de Miranda Calha”, que foi secretário de Estado do Desporto e esteve ligado à organização do Euro2004 em Portugal.

“Exerceu cargos públicos com um reconhecido e elevado sentido de Estado, e contribuiu de forma generosa para o desenvolvimento do país, do desporto e do futebol nacionais”, lê-se ainda na mensagem de Gomes.