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A CIA tem feito chegar à Casa Branca pelo menos desde o início de fevereiro vários avisos de que os dados apresentados pela China relativos ao número de casos e mortes pela pandemia da Covid-19 não são fiáveis. De acordo com a Bloomberg e com o The New York Times, esses avisos foram feitos numa altura em que os EUA começaram a olhar para os números na China para tentar projetar os danos da crise de saúde em território norte-americano.

De acordo com o The New York Times, o desconhecimento dos números totais na China pode partir de uma contagem propositadamente positiva por parte das autoridades da província de Hubei, cuja capital é Wuhan, onde a pandemia foi registada pela primeira vez. Desta forma, pode dar-se o caso de nem o regime chinês, em Pequim, ter uma total noção do grau de destruição desta pandemia no seu epicentro.

Estas dúvidas surgem depois de uma altura em que, após ter aplicado políticas de isolamento para cerca de 930 milhões de pessoas (entre uma população total que se estima nos 1,4 mil milhões) em toda a China, os números oficialmente divulgados apontam para um controlo da pandemia naquele país. Em comparação, na manhã desta sexta-feira, os números oficiais de cada país apontam para 4 mortes na China e 1.169 mortes nos EUA nas últimas 24 horas.

A mensagem da CIA foi assimilada pelo Presidente dos EUA, que numa conferência de imprensa esta quarta-feira defendeu a hipótese de a China não estar a dizer a verdade. “Os números deles parecem estar um pouco para abaixo, e estou a ser simpático ao dizê-lo desta maneira”, disse Donald Trump.

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Estas palavras caíram mal em Pequim, com a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Hua Chunying, a reagir numa conferência de imprensa esta quinta-feira.

“Sentimos compaixão com o povo dos EUA à medida que eles enfrentam uma situação grave e consigo entender que alguns nos EUA tentem com tanto afinco passar culpas para os outros”, disse aquela porta-voz. E, depois de enumerar uma lista de decisões controversas da administração de Donald Trump no combate ao novo coronavírus, acrescentou: “Ataques, difamações e jogos de passa-culpas não compensam o tempo que já foi perdido. Mais mentiras só vão desperdiçar mais tempo e levar a que se percam mais vidas. Deixo um conselho a todos estes políticos: neste momento, as vidas são mais importantes do que a política”.

Media desalinhados do regime falam em milhares de urnas em Wuhan

A notícia de que a CIA tem informado a Casa Branca de que a China tem maquilhado os seus números da pandemia surgiu depois de, na última semana, vários órgãos focados na China mas que são desalinhados do regime, terem reportado que o número de urnas em Wuhan excede amplamente o número de mortos anunciados pelas autoridades. Os dados oficiais apontam para cerca de 2.500 mortes em Wuhan.

De acordo com a revista online Caixin, citada pelo site Shangaiist, ambas publicações cujo acesso online está bloqueado na China, só numa das sete casas mortuárias de Wuhan foram entregues 5 mil urnas (para cinzas) em apenas dois dias. O número total foi obtido pela Caixin, cujo repórter terá perguntado, ao condutor de um camião que chegava com um novo carregamento, quantas urnas este traria. O condutor terá respondido que eram 2.500 e que na véspera tinha feito um carregamento igual.

As urnas chegaram numa altura em que as regras do confinamento em Wuhan foram relaxadas, permitindo às pessoas cujos familiares tivessem morrido que fosse levantar as cinzas dos seus mortos. De acordo com a Caixin, as filas tinham um tempo de espera de até cinco horas.

Tanto a Caixin como a Radio Free Asia (media diretamente financiado pelos EUA) referem que as urnas estão a ser entregues aos familiares ao ritmo de 500 ao dia até 5 de abril, dia em que é assinalado o Qingming, dia de reverência aos mortos.

A Radio Free Asia chega a citar um habitante de Wuhan, que identifica como Chen Yaohui, que diz que as autoridades do Partido Comunista da China da cidade estão a dar 3 mil yuan (390 euros) como “despesas funerárias” a cada família. Em troca, exigem-lhes silêncio.

“Tem havido muitos funerais nos últimos dias e as autoridades estão a dar 3 mil yuan para as famílias que forem buscar os seus entes queridos ficarem caladas”, disse. “É para eles não carpirem. Ninguém pode carpir depois do Qingming.”