Em 2014 foi responsável pelo lançamento da Uber em Portugal, em 2019 saiu da empresa tecnológica e um ano depois apresenta-se com um novo projeto — a Kitch, uma startup que quer criar “hubs de cozinha” em Lisboa. Juntamente com Nuno Rodrigues, que também fez parte da equipa fundadora da Uber no país, Rui Bento quer que este projeto seja uma espécie de “cozinha virtual”, que permite que qualquer restaurante possa entregar comida ao domicílio em Lisboa (principalmente aqueles que não o faziam antes).

Somos uma cozinha. Não somos uma aplicação de entregas, e não somos um restaurante. Somos uma cozinha distribuída pela cidade que reúne os restaurantes preferidos e os chefs mais criativos”, diz Rui Bento.

Rui Bento e Nuno Rodrigues, antigos diretor geral e diretor de operações da Uber para o Sul da Europa, quiseram resolver um problema que há muito os aborrecia: não encontravam nas apps de entrega de refeições ao domicílio os seus restaurantes favoritos. Muitas vezes isto acontecia porque os restaurantes tinham lotação sempre esgotada, com filas à porta, deixando as cozinhas sem tempo para preparar pedidos que seriam entregues aos clientes através de um estafeta.

Muitos dos nossos restaurantes favoritos continuam a não conseguir chegar à mesa da nossa sala. E a maioria dos restaurantes não conceberam a sua comida para viajar pela cidade dentro de uma mochila numa mota”, explica Rui Bento ao Observador. Solução? Fazer cozinhas de raiz, especificamente dedicas à confeção de comida para ser entregue ao domicilio e colocá-las em sítios estratégicos na cidade. “Uma cozinha onde tudo é pensado de raiz para a experiência de encomendar e comer em casa”, explica o agora responsável da Kitch.

Na prática, o que a Kitch faz é dar a qualquer restaurante a possibilidade de ter um espaço onde onde pode cozinhar menu específicos para serem entregues em casa, evitando que os estafetas acedam ao espaço principal do restaurante. Atualmente, a empresa conta com uma equipa de onze pessoas e um hub de cozinhas no Campo Grande, onde cestão equipas de três restaurantes de Lisboa distintos, a cozinhar especificamente para os pedidos que chegam através de apps de entrega como a Uber Eats ou a Glovo.

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Além das cozinhas, a Kitch criou uma plataforma que funciona como centro de gestão para os restaurantes que trabalham com várias plataformas de entregas. Esta plataforma centraliza todos os serviços, mas está acessível apenas para os restaurantes. Quem quiser pedir comida dos restaurantes presentes nestas cozinhas, pode continuar a utilizar o serviço de entregas que preferir. O cliente sabe que está a encomendar uma comida da Kitch vendo a referência “+ Kitch” depois do nome do restaurante. O preço é o apresentado e não há extras além da taxa que as plataformas cobram.

Deixamos a comida para quem a sabe fazer melhor: os restaurantes preferidos da cidade. O nosso trabalho é identificá-los e trazê-los para a nossa comunidade, e dar-lhes a infraestrutura e a tecnologia para que possam melhor servir todas as pessoas da cidade nas suas casas”, explica Rui Bento.

Para já, a startup conta com restaurantes como a taqueria do Cais do Sodré Pistola y Corazón; o sushi do GoJuu, o Tonkotsu Rámen; o Nómada que, através da marca UMIKAI, faz pokés, temakis e sushi de fusão; e ainda comida tradicional portuguesa feita pela chef Marlene Vieira.

Por fornecer um serviço dedicado aos restaurantes, a Kitch permite que estes possam confecionar pratos específicos para serem entregues em casa. Como conta Rui Bento: “Em vez de replicarmos a ementa do Pistola y Corazón, percebemos que a abordagem seria criar uma ementa diferente com um prato que se chama a Cringa, que é uma espécie de taco, mas que é feita com uma massa diferente. A confeção faz com que aguente a jornada da viagem até à casa das pessoas”.

Estes pratos contam com a qualidade associada ao restaurante, mas são confecionados especificamente para serem entregues em casa pelas apps de entrega de refeições, no tal hub de cozinhas que está a cargo da Kitch (e não no restaurante original). Apesar de ocuparem estes espaços no hub de cozinhas da Kitch, os restaurantes não pagam renda, isso fica a cargo da startup. Têm de assegurar, contudo, o material mais específico da sua cozinha bem como os funcionários que alocarem a este espaço.

Restauração é o setor que tem “menor resiliência para sobreviver a períodos de paragem”

Rui Bento e Nuno Rodrigues contam com a experiência do lançamento do serviço de entrega de comida do Uber Eats no mercado europeu, mas nada ainda tinha preparado o mundo para uma pandemia como a do novo coronavírus. “Impactou um bocadinho os planos”, mas não foi por isso que o pararam, antes pelo contrário, readaptaram-no e até ajudaram alguns restaurantes a reconverter as cozinhas para este conceito da Kitch.

O trabalho para a criação desta nova startup começou “no no final do primeiro trimestre do ano passado”. O lançamento da Kitch já estava a ser preparado antes de sugir a pandemia de Covid-19, mas isso não abalou a convicção da equipa nem a dos investidores internacionais com quem estão a negociar uma ronda de investimento. “Na medida em que o impacto tem sido global e transversal, tem havido preocupação e atenção em relação a isto e a restauração tem sido muito afetada“, explica Rui Bento.

Como conta o cofundador da Kitch, este é “o setor que tem menor resiliência para sobreviver a períodos de paragem”. Contudo, estes serviços de take away são “a única forma” de se combater esta paragem. “Boa parte do nosso trabalho tem sido converter [restaurantes] para o mundo de delivery [entregas]“, conta. E há “muita procura por parte dos utilizadores e dos restaurantes”.

A primeira “cozinha virtual”, ou cozinha centralizada dedicada para entregas para os restaurantes aderentes, funciona no Campo Grande. Mas durante esta altura de pandemia, têm ajudado outros restaurantes a usar as suas cozinhas para confecionarem refeições que possam ser entregues em casa das pessoas

Para este arranque, Rui e Nuno estão focados em “solidificar as bases” da Kitch sabendo que o modelo de negócio (cobram uma comissão por cada venda que os restaurantes façam) funciona se conseguirem escala. A aposta é conseguir que mais restaurantes façam parte desta rede de infraestrutura e investir em abrir mais hubs de cozinhas noutros pontos da cidade de Lisboa até ao final do ano.

Quanto ao futuro, Rui Bento refere que “até ao final de 2020” o  objetivo “é garantir que servimos bem a cidade de Lisboa”. Depois disso, “pensaremos noutros, vamos ter que reforçar pessoas para abrimos mais espaços”, concluiu.