A conferência de imprensa convocada esta sexta-feira pelo presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, era para falar sobre os números do desemprego — que desceu de 14,7% para 13,3% em maio, no país — e para assinar um programa destinado a proteger os pequenos negócios. Trump elogiou a descida “inesperada” do desemprego e defendeu que os dados mostram que “é um grande dia em termos de igualdade”. Depois, veio a referência a George Floyd: “Esperemos que o George esteja a olhar para baixo agora e a dizer: ‘Isto é uma ótima coisa que está a acontecer para o nosso país. É um grande dia para ele, um grande dia para todos. Este é um grande dia para todos”.

A frase de Trump, que já está a levantar indignação, seguiu-se a elogios aos números de desemprego — em maio, foram criados 2,5 milhões de postos de trabalho — e a um discurso preparado sobre como a justiça deve ser igualitária.

Justiça igualitária, nos termos da lei, deve significar que todos os americanos recebem tratamento igual perante as forças da lei, independentemente de raça, cor, género, crença. Todos têm de receber um tratamento justo pela polícia. Todos vimos o que aconteceu na semana passada, não podemos deixar isso acontecer. Esperemos que o George esteja a olhar para baixo agora e a dizer: ‘Isto é uma ótima coisa que está a acontecer para o nosso país. É um grande dia para ele, um grande dia para todos. Este é um grande dia para todos.”

Os jornalistas ainda pediram a Trump para que esclarecesse se a “grande coisa” a que se referia, e que seria “ótima” para George Floyd, era a recuperação do emprego, mas o presidente dos EUA não respondeu concretamente. Aliás, frisou que os números do desemprego “são a melhor coisa que pode acontecer às relações raciais”. Mais: quando questionado por uma jornalista sobre como é que pode considerar uma vitória que o desemprego da comunidade afro-americana tenha subido 0,1% e da ásio-americana 0,5%, Trump limitou-se a responder: “Você é qualquer coisa” [you are something].

As reações não tardaram a surgir. Joe Biden, candidato democrata à Casa Branca, disse que as declarações são “desprezíveis”. “As últimas palavras de George Floyd, ‘Não consigo respirar, não consigo respirar’, ecoaram por todo o país e por todo o mundo”, defendeu. “O presidente tentar colocar outras palavras na boca de George Floyd, francamente, acho desprezível.”

A organização liberal CAP (Center for American Progress) Action também usou a palavra “desprezível” para caraterizar as declarações de Trump, um dia depois do funeral de George Floyd.

Já Mark Warner, do Partido Democrata, pediu a Trump que “páre”. E Robert Maguire, investigador da ONG Citizens for Responsibility and Ethics in Washington (CREW), defendeu que “numa única frase, Trump consegue denegrir a memória de George Floyd e a sua experiência, enquanto mostra uma completa falta de empatia pela situação difícil de milhões de americanos que ainda lutam com a crise económica”.

Enquanto Donald Trump discursava na Casa Branca, numa rua perto, desenhava-se as expressão “Black Lives Matter” na estrada, a pedido da mayor de Washington, a democrata Muriel Bowser. O movimento Black Lives Matter Global Network já veio, no entanto, criticar o mural, apelidado pela organização como uma “distração performativa perante mudanças políticas reais”, segundo a BBC.