Há um território desértico que se ergue quase até aos oito mil metros de altitude, a este da região de Caxemira, onde não existe nada senão umas antigas rotas comerciais entre Xinjiang e o Tibete, na China. Chama-se Ladaque. Isolada, maioritariamente inabitável e cravada de montanhas e planaltos, nem a paisagem desoladora desta região da Caxemira evitou que seja, desde há quase 60 anos, palco de uma disputa territorial entre a China e a Índia.

Na segunda-feira, no vale do rio Galwan, algures na fronteira de 3.440 quilómetros onde as tropas dos dois países tantas vezes se cruzam, ocorreram as primeiras mortes provocadas por este conflito de que há registo desde há 45 anos. Vinte militares indianos perderam a vida após longas horas a batalharem com nada mais senão pedras, barras de ferro e punhos cerrados. Alguns foram empurrados dos cumes das montanhas, morrendo ao cair ao longo dos íngremes flancos dos Himalaias. Tudo isto a 4.270 metros de altitude — mais de duas vezes a altitude da Serra da Estrela — durante a noite e debaixo de temperaturas negativas.

Encaixada entre o Paquistão, a Índia e a China, a região de Caxemira engloba, na verdade, três territórios: Caxemira Livre e Territórios do Norte, sob controlo dos paquistaneses, a indiana Jammu e Caxemira; e Aksai Chin, sob ocupação da China desde a sangrenta Guerra de 1962, mas ainda desejada pelos indianos. É em Jammu e Caxemira que fica Ladaque, um território disputado pelos chineses. 

Aksai Chin foi ocupada militarmente pela China durante um conflito que durou um mês e um dia, entre outubro e novembro de 1962. A gota de água tinha sido a Revolta do Tibete em 1959, contra a ocupação chinesa da capital Lhasa, que colocou os dois países definitivamente de costas voltadas pelo facto de a Índia ter acolhido Dalai Lama. A Índia enviou militares para a fronteira com a China que, por sua vez, colocou em cima da mesa algumas soluções diplomáticas que nunca foram aceites.

A 20 de outubro de 1962, a guerra eclodiu. A China, que nunca tinha aceite o tratado assinado entre o Tibete e o Reino Unido em 1914 — dois anos depois de aquela região ter conquistado temporariamente a independência — e que não reconheceu a divisão fronteiriça delineada ao longo dos cumes dos Himalaias, enviou tropas para a Linha McMahon e fez frente às tropas indianas que iam avançando em direção ao lado chinês da fronteira.

O cessar-fogo só foi anunciado a 21 de novembro pela China, que se retirou para a Linha de Controlo Real, que divide Aksai Chin de Ladaque. Do lado chinês, 722 pessoas morreram e até 1.047 ficaram feridas. Mas a guerra foi bem mais penosa para a Índia, que contabilizou 1.383 baixas, 1.047 feridos e ainda 1.696 desaparecidos em combate e 3.968 militares capturados. A presença militar nunca deixou de existir ao longo da Linha de Controlo Real, mas os confrontos nunca tinham escalado tanto como na última segunda-feira.

A Índia diz que a batalha foi uma emboscada. Na versão de Nova Déli, os soldados indianos cruzaram-se com tropas chinesas numa zona escarpada da zona fronteiriça nos Himalaias que julgavam estar desocupada pelo Exército Popular de Libertação, porque era isso que, segundo a Índia, dizia um acordo de retirada de 6 de junho. A China conta uma história diferente e diz que os indianos passaram ilegalmente para o lado chinês três vezes desde maio, a última das quais fatalmente, enquanto construía o troço de uma estrada junto à Linha de Controlo Real.

Ao Aljazeera, Michael Kugelman, sub-diretor do Programa da Ásia no think tank Centro Woodrow Wilson, explicou que a construção de infraestruturas indianas junto à fronteira tem sido uma preocupação da China: “É uma estrada que foi concluída no ano passado e que essencialmente permite a conectividade de Leh, capital de Ladaque, até Caracórum“, uma grande cordilheira entre o Paquistão, China e Índia que inclui a K2, segunda montanha mais alta do mundo.

Darbuk–Shyok-DBO, assim se chama a estrada, tem 255 quilómetros e demorou 19 anos a construir. A China nunca concordou com um alongamento desta infraestrutura, sobretudo porque a rota comercial chinesa para o Paquistão e para a Ásia Central passa por Caracórum, perto do vale de Galwan e não muito longe de Aksai Chin — a região chinesa reivindicada pela Índia.

A juntar a esta preocupação mais premente está outra que vem de agosto, quando a Índia revogou o artigo 370 da Constituição, que garantia alguma autonomia a Caxemira e, ao mesmo tempo, tornava Ladaque (que conquista o interesse chinês) num território federal. “Acho que está claro, Pequim respondeu forte e rapidamente a essa mudança. A China vê a revogação do artigo 370 como uma jogada unilateral da Índia que afetou o território que a China reivindica como seu”, descreveu o especialista.

Isso é especialmente importante agora que a comunidade internacional, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU), pediu aos países no palco deste conflito para “exercerem o máximo de contenção”. Tanto a China como a Índia condenaram o passo indiano e queixaram-se ao Conselho de Segurança da ONU. Apesar do pedido desta instituição, a escalada não foi evitada. E acabou num confronto sangrento no frio dos Himalaias.