António Guterres, o antigo primeiro-ministro português e atual secretário-geral das Nações Unidas, teceu este sábado severas críticas à posição dos países mais desenvolvidos em relação aos mais frágeis em plena pandemia, considerando também que a desigualdade se tornou mais evidente: “Estamos no ponto de rutura”, cita o The New York Times.“A Covid-19 tem sido com um raio-X, revelando fraturas no esqueleto frágil das sociedades que construímos”, disse.

O secretário-geral das Nações Unidas fez as declarações no âmbito da Conferência Anual Nelson Mandela, um evento realizado em honra do antigo líder da África do Sul e vencedor Nobel da Paz. De acordo com Guterres, a pandemia “está a expor falácias e falsidades em todos os lugares: a mentira de que o mercado livre pode oferecer assistência médica para todos, a ficção de que o trabalho não-remunerado não é trabalho, a ilusão de que vivemos num mundo pós-racista, o mito de que estamos todos no mesmo barco”.

Guterres foi ainda mais longe e disse que os países desenvolvidos estão demasiadamente investidos na sua sobrevivência e “falharam em dar o apoio necessário para ajudar o mundo em desenvolvimento nestes tempos perigosos”.

A críticas de Guterres aos mais poderosos continuaram no mesmo discurso: “As 26 pessoas mais ricas do mundo possuem tanta riqueza quanto metade da população global”. De acordo com o líder da ONU, o “legado do colonialismo”, ainda tem consequências e mostra as relações globais de poder, escreve o mesmo jornal.

O antigo primeiro-ministro socialista continuou com as críticas ao sistema capitalista e afirmou que as “pessoas e as empresas devem pagar a sua parte justa” para criar proteção social a quem precisa. Por fim, referiu: “Vamos encarar os factos. O sistema político e económico global não está a entregar os bens públicos globais críticos: saúde pública, ação climática, desenvolvimento sustentável e paz”.