O primeiro-ministro, António Costa, voltou a insistir numa nova solução de Governo com o apoio dos partidos da “geringonça”, deixando de lado quaisquer condições para chegar a um acordo que possa entrar em vigor ainda em 2020. “Não estou aqui a traçar linhas vermelhas nem a dar oportunidade a ninguém para que se possa pôr de fora”, disse António Costa numa entrevista ao Expresso, cuja segunda e última parte é publicada este sábado.

As eleições presidenciais de 2021 foi outro tema que levou António Costa a ser claro — mas, desta vez, com recados para o interior do seu Governo. O ministro Pedro Nuno Santos tinha afirmado em julho à RTP que votaria no candidato presidencial do Bloco de Esquerda ou do PCP, caso o PS não apresentasse um candidato próprio. António Costa, que manifestou publicamente o seu apoio a Marcelo Rebelo de Sousa na célebre visita à Autoeuropa em maio, fez questão de avisar o seu ministro das Infraestruturas e da Habitação que os “membros do Governo devem ter em relação às presidenciais um particular dever de reserva, tendo em conta aquilo que é a relação que o Governo deve manter com o próximo Presidente, com quem teremos de conviver muito tempo”, afirmou ao Expresso.

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Costa diz que os membros do Governo são livres de dizer o que pensam mas que até o primeiro-ministro “tem a liberdade limitada pelo exercício de funções institucionais”. Sendo normal que “nem sempre pensemos todos” da mesma forma, resta saber, acrescenta o líder socialista,  “se esse grau de divergência se torna incompatível com a solidariedade devida. Assumindo que existem divergências entre si e Pedro Nuno Santos, António Costa garante que “até ao momento, nunca tivemos nenhuma divergência que tornasse incompatível o trabalho em conjunto.”

Se “não há Orçamento”, “há uma crise política”

Está dito e redito: António Costa quer reeditar o acordo da “geringonça” do seu primeiro mandato, embora desta vez não haja necessidade de conseguir o acordo do BE e PCP bastando apenas a luz verde de um deles. Ao Observador, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e responsável da pasta da articulação do Governo com a esquerda, Duarte Cordeiro, já tinha deixado claro que os socialistas estão disponíveis “para que o acordo tenha uma dimensão escrita” mas que ao mesmo tempo o Governo “não está a pôr condições para o processo” negocial.

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Ainda assim, António Costa não esconde a urgência com que defende esse novo entendimento à esquerda. Referindo que “para uns, só [há vontade] para dialogar sobre 2021” e não já para o que ainda resta de 2020, o primeiro-ministro admitiu pressa — e incompreensão por quem não a demonstra:

Não consigo perceber como é que, quando um Governo diz ‘venham cá, vamos discutir em conjunto, vamos definir qual o Programa de Recuperação e Resiliência do país’, digam ‘ah, não quero discutir nada disso, só quero discutir para 2021’.”

Como já fora previamente divulgado, nesta entrevista ao Expresso António Costa assumiu que sem acordo “é simples: não há Orçamento e há uma crise política”. E que, como tal, o Governo decerto chegaria ao seu fim. “Aí estaremos a discutir qual é a data em que o Presidente terá de fazer o inevitável”, disse. A este excerto da entrevista, Marcelo Rebelo de Sousa já respondeu entretanto que “o Presidente da República não vai alinhar em crises políticas”.

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“Desenganem-se os que pensam que se não houver um esforço de entendimento vai haver dissolução do Parlamento no curto espaço de tempo que o Presidente tem para isso que é até ao dia 8 de setembro”, reagiu  Marcelo Rebelo de Sousa esta quinta-feira.

Esta é, de qualquer modo, uma tecla que António Costa pressiona repetidas vezes na entrevista ao Expresso. Inclusive quando é ponderada a hipótese de o Governo procurar um entendimento para o Orçamento do Estado à sua direita, junto do PSD, caso não o consiga à esquerda. Também aqui, António Costa coloca o ónus no PCP e no BE.

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“Já disse muito claramente ao PCP e ao BE que não vale a pena ter esse sonho da construção de blocos centrais. E é manifesto que o PSD já disse que não os quer. O interesse que o PSD manifesta é de dialogar com o Chega, portanto isso é outro caminho novo que se está a abrir na direita portuguesa”, disse o primeiro-ministro, que foi perentório ao dizer que “no dia em que a subsistência deste Governo depender de um acordo com o PSD, nesse dia este Governo acabou”.

Um entendimento com o PSD está fora de questão para António Costa, que diz que os sociais-democratas estão “neste momento numa deriva estranha que faz com que não só o dr. Rui Rio como inúmeros dirigentes do PSD tem passado a considerar o Chega um parceiro normal de diálogo político e até de coligação autárquica — ou sabe-se lá se a outro nível”.

E embora não queira chegar a um entendimento com o PSD, António Costa não deixa de piscar o olho ao seu eleitorado, aproveitando para de caminho puxar Marcelo Rebelo de Sousa para o seu lado: “Seguramente que o centro político se sente abandonado pelo PSD e encontra no PS e no atual Governo e Presidente da República um referencial de estabilidade e de representação daquilo que é o que deseja para o futuro do país”.

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