Os últimos tempos não têm sido fáceis para a Porsche. No espaço de aproximadamente um ano, foi julgada e multada por falsificar os sistemas de injecção e controlo dos motores a gasóleo que instalou nos seus modelos, para reduzir as emissões durante os testes de homologação. Isto em 2019, pois em Agosto de 2020 o construtor germânico optou por confessar – quando já era público que estava a ser investigado – ao procurador de Estugarda, à autoridade federal dos transportes alemã (KBA) e ao regulador norte-americano que também manipulou de forma ilegal a gestão dos motores a gasolina, mais uma vez para beneficiar de consumos e emissões mais reduzidos durante a fase de testes.

Agora, cerca de dois meses depois, a Porsche volta a confessar outro esquema, sempre de modo a conseguir baixar os consumos e as emissões durante a fase dos testes de homologação, tornando-os mais limpos nos ensaios em laboratório do que quando a circular na via pública. Envolvidos estão mais uma vez os motores a gasolina, mas desta vez a manipulação das medições realizadas e controladas pelas autoridades foi conseguida não à custa da electrónica, mas sim graças a modificações introduzidas nas caixas de velocidades para fazerem baixar o regime do motor exclusivamente nas unidades de teste.

Porsche culpada e multada no caso Dieselgate

Esta forma de actuar não é nova e visa conseguir alguma clemência por parte da justiça, além de multas menos graves. Segundo a publicação germânica Business Insider, depois de receber a informação que a Porsche terá montado carretos diferentes na caixa de velocidades para tornar as mudanças mais compridas, reduzindo a rotação do motor para a mesma velocidade e, com isso, minimizando os consumos e emissões, o procurador abriu já uma investigação e acusou quatro suspeitos, sem que os seus nomes tenham sido divulgados.

Gasolinagate. Porsche suspeita de manipular também motores a gasolina

De acordo com a Porsche, a manipulação das caixas de velocidades foi efectuada entre 2008 e 2016, o que abrange o período em que Matthias Müller e Oliver Blume desempenharam o papel de CEO da marca, uma vez que o segundo substituiu o primeiro a 1 de Outubro de 2015, apesar de Blume já fazer parte da administração da Porsche desde 2013, onde era o responsável pela produção e pela logística.

A Business Insider recorda ainda que no passado, durante a crise originada pelos motores a gasóleo fraudulentos, Uwe Hück, membro da administração com assento no conselho de supervisão, acusou a Audi – que, tal como a Porsche, é uma marca do Grupo Volkswagen – de ter fornecido “motores diesel doentes” à Porsche. Alegava Uwe que tinha sido a Audi a falsificar a gestão dos motores e a colocar em causa a imagem da Porsche, ameaçando-a  mesmo de “ter de pagar por isso”. Torna-se agora evidente, segundo a citada publicação, que a Audi efectivamente fornece à Porsche uma série de motores, tanto a gasolina como diesel, e as respectivas caixas de velocidades, mas estes são depois adulterados internamente pela Porsche.

Dieselgate. Gravações condenam quadros da Porsche

De recordar ainda que Wolfgang Hatz, ex-director de Investigação e Desenvolvimento da Porsche, quando “pressentiu” que iria ser sacrificado e apontado como responsável pelos crimes de que a marca é acusada, falou ao telefone com os seus superiores hierárquicos, de Müller a Blume, passando pelo seu substituto Michael Steiner, à frente do R&D da Porsche. Essas conversas foram gravadas e posteriormente entregues ao procurador, o que deixa antever que surjam mais (más) notícias em breve.