Está sol. Tudo o que é preciso para que as feiras corram de feição, a par da clientela. Com a pandemia, mercados e feiras saíram muito afetados, mas já começam a recuperar a vida que antes conheciam. Depois de este sábado ter visitado o Mercado de Alvalade, Carlos Moedas escolheu a Feira das Galinheiras, na freguesia de Santa Clara, para visitar na manhã deste domingo. É lá que espera recolher votos com a primeira ação de campanha do dia e até parece ter a tarefa facilitada. Entre cumprimentos e “vou votar em si”, o candidato da direita à Câmara Municipal de Lisboa ouve também queixas dos feirantes contra Fernando Medina, que uma hora antes ali passou com a comitiva socialista.

“Ó senhor Moedas, passou aí um candidato a Lisboa que nem cumprimentou ninguém. Passou só no meio e fizeram ‘Uhhhhh'”, atira um feirante.

– “A sério? Isso não tem jeito nem maneira”, responde Carlos Moedas.

– “Pois não tem. O senhor não sabe quem é? É o Medina. Não cumprimentou ninguém! O senhor é sincero, cumprimenta as pessoas. Agora aquele passa no meio… tem o rei na barriga”.

Sem esforço, Carlos Moedas tem a deixa perfeita para matar a conversa: “Eu venho aqui, não é para estar a passar no meio. É para vos cumprimentar. E já sabe que eu estive cá da última vez…” O candidato social-democrata não deixou uma única banca por visitar. Fez até questão disso — no final da visita de quase duas horas, voltou a entrar, porque faltava cumprimentar “uma outra senhora do pão”. Assim fez. Ziguezagueando por entre cada banca, distribuiu “bom dia”, cumprimentou cada feirante e foi perguntando pelo negócio. Os flyers que o pessoal da comitiva vai distribuindo contêm algumas das medidas previstas pela candidatura especificamente para a freguesia de Santa Clara.

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Entre as várias queixas ouvidas, há uma em comum: o estacionamento da Feira das Galinheiras. Maria Ferreira vende pão e bolos e conta a Carlos Moedas que o negócio já está a recuperar. Mas é preciso mais. “As pessoas querem vir à feira e não têm onde estacionar os carros. Há falta de estacionamento e nós precisamos de alguém que ajude os feirantes”, explica. A crítica é feita também pelo “Zé do bacalhau”: “Diga lá ao presidente da câmara para ele mandar fazer um acesso para fazer um estacionamento em condições”, apela.

[Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador]

Na Feira das Galinheiras, Moedas “é sincero porque cumprimenta as pessoas” e Medina “tem o rei na barriga”

Apesar da receção calorosa, muitos dos feirantes que ali conversam com o candidato da direita à autarquia lisboeta não votam em Lisboa. Dizem que se pudessem “votavam”, mas votam “em Odivelas”, como muito se ouviu ao longo da manhã. Tal coisa não demove Carlos Moedas de continuar a distribuir sorrisos e conversar com os feirantes. E apela ao voto na coligação”Novos Tempos”, sempre com o candidato à Junta de Freguesia de Santa Clara lado a lado, ele que conhece bem quem ali trabalha. Há até quem peça a Carlos Moedas para retirar a máscara, para poder comparar com a fotografia impressa no flyer e confirmar que é mesmo o candidato Carlos Moedas.

“Estive a ver o vosso debate em frente à Câmara de Lisboa. Gostei muito daquilo que você disse sobre os bairros municipais. Tentei ligar para si, para o número que está no programa, para lhe dizer que eu ia testemunhar contra o Medina, porque o que você disse é verdade. A renda acessível não é eu ganhar 665 euros e pagar 230 [euros], fora água e luz”, aponta António Trindade, que vende camisolas, t-shirts e até cuecas. Carlos Moedas vai acenando com a cabeça, agradecendo, e acaba até por ser merecedor um conselho: “Você tem uma semana para dizer uma coisa: faça como o Carreiras, o Carlos Carreiras. É o melhor presidente de Câmara Municipal com quem já trabalhei, como associação de feirantes. Ele diz que faz, e faz. E você sabe a obra que ele tem feito em Cascais!”

O feirante explica que “António Costa com a pandemia quis fechar as feiras todas” e que em Cascais paga “zero” até ao final do ano com as feiras naquele município. Carlos Moedas responde que em Lisboa “houve muito má gestão da pandemia” para depois agradecer e seguir para a capelinha seguinte. Ao contrário da ação de campanha deste sábado no Mercado de Alvalade, a Feira das Galinheiras, em Santa Clara, foi quase um “lugar seguro” para Moedas.

Gostei muito daquilo que você disse sobre os bairros municipais. Tentei ligar para si, para o número que está no programa, para lhe dizer que eu ia testemunhar contra o Medina, porque o que você disse é verdade”, apontou um dos feirantes.

Mais à frente, mais um feirante que, teoricamente, Carlos Moedas não precisa de conquistar. “O PS nunca levou o meu voto. A malta da direita… Já votei no Paulo Portas… São pessoas que fazem um bom trabalho”, confessa. Já outro trabalhador, morador em Santa Clara, aponta o atraso de Portugal em relação a outros países da União Europeia: “Você é um homem que é conhecido a nível europeu e eu acho que nós andamos muito atrás com um país tão bonito que nós temos. Podia evoluir muito mais se houvesse uma melhor gestão do nosso dinheiro”. É o momento perfeito para Carlos Moedas responder aos críticos que, nesta campanha eleitoral, o acusam de não conhecer a vida lisboeta. “É por isso que é importante vir também com essa experiência de fora para trazer para cá e tentar dar o meu melhor”, defende.

Já perto do fim da visita, Carlos Moedas depara-se com um jovem feirante que não fala português. Com um inglês perfeito e corrente, não tivesse o ex-comissário europeu um longo currículo no estrangeiro, o candidato pergunta de onde vem. “Afeganistão”, responde. “Do Afeganistão? Bem-vindo, bem-vindo a Portugal. Estou muito contente que estejas aqui”. Ahmed conta que está preocupado com muitos familiares que ficaram no país, que vive atualmente uma situação “muito má”. Qual jogo de cintura, durante cerca de dois minutos, Carlos Moedas muda o chip e conversa com o jovem afegão. “Estamos muito orgulhosos de que estejas aqui e consigas ter uma vida em Portugal. Lamento pela tua família e por toda a situação, mas aqui somos um país aberto e uma cidade aberta e espero ao menos gostes de aqui estar”.

Ahmed agradece e lembra também o apoio da União Europeia. “Ainda bem que dizes isso. É importante falar na UE, é um símbolo da liberdade. E reconhecer que também está a ajudar”, responde Carlos Moedas, acabando assim por não conseguir despir o fato de quem já teve um cargo em Bruxelas. O agora candidato à Câmara de Lisboa não resiste e compra dois blocos de notas artesanais, exibidos ao longo da banca logo à frente de Ahmed. “Sê sempre muito orgulhoso do teu povo, porque o povo afegão é maravilhoso. É muito mau que esteja a viver uma situação tão difícil. Infelizmente foram apanhados nesta guerra que destruiu o país. Tudo de bom para ti”, afirma.

Não só Fernando Medina não ouviu as pessoas como presidente, mas também não as ouve como candidato”, aponta Carlos Moedas já no fim da visita à Feira das Galinheiras.

Carlos Moedas abandonou a Feira das Galinheiras já depois do meio-dia. Em declarações aos jornalistas, o candidato da coligação PSD/CDS-PP/PPM/MPT/Aliança confessa que “é sempre bom ser bem recebido” num sítio a que já foi “várias vezes nos últimos sete meses”. Retira desta ação de campanha que “as pessoas estão cansadas do sistema atual” e fala numa Lisboa “muitas vezes escondida” por Fernando Medina. “Todos aqui pediam mudança e já não acreditam na governação socialista. E nós somos os únicos que podemos realmente trazer essa mudança”.

O candidato da direita à Câmara de Lisboa rejeita ter evitado o confronto com o adversário socialista, que uma hora antes visitou a mesma Feira das Galinheiras. “Não teria qualquer problema em cruzar-me, foi pura coincidência estarmos quase à mesma hora”. Já sobre as críticas ouvidas durante a visita, com feirantes a acusar Fernando Medina de não ter tido proximidade com as pessoas, Carlos Moedas é peremptório: “Fernando Medina nunca ouviu realmente as pessoas. E o que percebemos aqui é esse mesmo facto. As pessoas sentem que não são ouvidas, ou seja, não só Medina não os ouviu como presidente, mas também não os ouve como candidato. E isso em política é muito importante”, remata, assumindo-se um “político diferente”.