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António Fonseca tem muitos quilómetros nas pernas desde que começou a campanha eleitoral para a Câmara Municipal do Porto. A diferença para as campanhas anteriores é muita. Fonseca candidatou-se e venceu duas vezes, em nome do movimento de Rui Moreira, na junta de freguesia do Centro Histórico e é exatamente aí que consegue o auge da fama. Ainda assim, com moderação.

Se nessa zona da cidade praticamente toda a gente conhece o candidato independente que se candidata pelo Chega, nas outras zonas da cidade é um desconhecido. A grande maioria das pessoas nunca o viu, não sabe quem é, nem mesmo que é presidente de uma junta do Porto. “Não o conheço, nunca o vi”, responde um portuense após receber um panfleto das mãos do próprio. Ao apontar para a fotografia, Fonseca diz ao que vai: “Sou eu aqui, sou candidato à câmara.”

Não há tempo para muito, o ritmo é rápido e é preciso palmilhar muitas zonas para chegar ao objetivo. António Fonseca ambiciona a vereação, acredita que é possível, mas tem os pés assentes na terra. “Temos de trabalhar mais do que os outros, não temos dinheiro para grandes outdoors, mas temos pernas para distribuir muitos panfletos”, diz, enquanto olha para trás e tenta perceber se há possibilidade de avançar.

A equipa que o segue o candidato é pequena, as caras são sempre as mesmas. No primeiro dia eram pouco mais de dez, mas ao longo da semana foram diminuindo. Glória Gonçalves, segunda na corrida, está sempre presente, bem como Patrícia Tellechea, que também segue na lista. Alguns candidatos às juntas de freguesia vão aparecendo em dias específicos, mas Fonseca chega a andar só com quatro pessoas e uma assessora.

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A estratégia está bem definida: António Fonseca faz caça ao voto no aproveitamento do erro de Rui Moreira. Quando conhece os locais, como é o caso das ruas mais icónicas do centro, entra apenas nas lojas mais antigas e procura os patrões. “Esta loja já tem muitos anos, não?” A pergunta repete-se à exaustão na Rua 31 de Janeiro, perto do Teatro Sá da Bandeira e na chegada aos Clérigos. “E tem os mesmos donos?”; ou “há quantos anos mudou de mãos?” As respostas divergem, Fonseca encanta-se com a “decoração antiga”, com aquela que “nunca mudou” ou que tem sido capaz de sobreviver aos novos tempos.

E depois das apresentações — ali no centro não precisa de tantas — segue em busca do possível ataque a Moreira. “Como foi durante a pandemia? Teve algum apoio da câmara?” Nenhum comerciante respondeu positivamente e ali entrava a cassete que repetiu vezes sem fim: “Comigo seria diferente, não se pode deixar morrer o comércio. Comigo seria diferente, é preciso pagar indemnizações a quem esteve fechado, não deixar que as lojas fechem”, garantia a cada pessoa com que se cruzava no comércio, apontando que “Rui Moreira não tem perfil para gerir uma crise, pandémica ou não”.

A ideia é a mesma quando segue para outras zonas da cidade, mas a abordagem é diferente. Entra em mais lojas e apresenta-se como o presidente do Centro Histórico — e precisa de o fazer. “Não o conheço” e “nunca o vi” são as respostas mais frequentes. Mas há também quem tente amenizar a situação com um “vi-o no debate na televisão”.

António Fonseca. Quem é o homem que trocou Rui Moreira pelo Chega para se candidatar à câmara do Porto?

Há duas questões que enfrenta durante a campanha: a necessidade de explicar porque trocou o movimento de Rui Moreira pelo Chega e a luta em afirmar que é independente. Esta última é uma arma muito usada em confrontos ideológicos. Fonseca não os trava, prefere fugir com argumentos sobre o percurso na política. Desde o “sou independente” ao “também já estive com Rui Moreira, mas não cumpriu”.

O Chega é um partido democrático como outro qualquer. Mas eu vou como independente, tenho as minhas ideias e propostas para a câmara. Nunca fui filiado em nenhum partido”, insiste em transmitir. Mas justifica a passagem do movimento independente para o Chega pelas “promessas que não foram cumpridas” por Rui Moreira.

Pelo contrário, quem vai atrás não tem problema em travar as batalhas que Fonseca evita. Uma delas é num bairro na Avenida Fernão Magalhães. O candidato aproxima-se com cuidado para não acordar o bebé, anuncia ao que vem e a reação não tarda. “Não gosto nada do Chega!” É Hugo Paulos, candidato ao Bonfim que se senta no banco para ajudar à conversa, depois de ouvir que o partido está “colado a ideias populistas que toda a gente gosta de ouvir”, a “ideias extremistas e populistas”. A portuense não se identificou, mas quando questionada sobre o “o que fazem os políticos que estão lá e a necessidade de rutura”, diz acreditar que “o Chega não faria melhor do que os que estão lá há 30 anos”.

O candidato à junta local defende-se: “Não somos populistas e o André Ventura diz a verdade.” A  conversa não se estende muito com o receio que o bebé acorde e António Fonseca está desconfortável, prefere seguir caminho.

Noutro ponto da cidade, na Praça da Corujeira, António Fonseca já estava à espera de alguma reação ao partido porque é considerada uma zona mais à esquerda. Ainda antes da chuva que travou a arruada do dia, um panfleto recusado e uma questão de quem por ali passada: “A senhora tem que idade? Com essa idade devia saber o que era o fascismo”, atirou a traseunte, que também tinha um ataque para Fonseca.

“Que valor é que o senhor tem para ter estado no PSD e no Rui Moreira e agora aceitar este convite? Os seus interesses encaixam em todos os partidos?” O candidato do Chega à câmara tentava explicar entre as críticas que era independente, que tinha propostas próprias e que era um “democrata que aceita todos os partidos”.

“Não pertenço ao Chega. Sou independente”, insistia. Seguiu caminho, mas continuava o desabafo entre os pares: “Quem trabalhar terá o meu apoio e as pessoas que precisarem de ter apoio vão ter apoio. Quem conhece a minha natureza sabe que não sou fascista.”

A aparição de André Ventura no Porto: da demonstração de força ao candidato que ficou na sombra

A luta de António Fonseca é difícil pelo contexto, pela passagem de uma junta para a câmara e pelo percurso. Além disso, o Chega conseguiu o pior resultado das eleições Presidenciais no Porto, ainda que Ventura tenha obtido 8,42% dos votos neste distrito. No dia em que o presidente do partido esteve no Porto o cenário foi bem diferente de uma campanha num dia normal — incomparável —, mas Fonseca sabe que muitas daquelas pessoas não só não votam no Porto, como não se mobilizam para fazer campanha sem Ventura.