Justino Santos foi o primeiro autarca de Odemira eleito democraticamente, em 1976, mas esta segunda-feira diz que é apenas médico, é comunista ferrenho, mas já não é militante, conheceu o concelho na miséria, ficou por lá e ergueu-o.

“Já fui militante, já não sou, mas sou comunista”, afirmou. Justino tem 81 anos. Está sentado de pernas cruzadas, com um cigarro entre dois dedos da mão esquerda, na esplanada do restaurante “O Tarro”, em Odemira.

“Fui presidente da Câmara de Odemira, de 1976 até… 1997, não tenho os números fixos”, disse, corrigindo, entretanto, que não foi autarca durante 21 anos, mas durante “17 anos, perto de 18”.

O número de anos enquanto primeiro presidente do município depois do 25 de Abril de 1974 está esbatido na memória, mas o que fez enquanto autarca e o que encontrou quando chegou não estão.

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É natural do concelho da Calheta, na ilha da Madeira, e estudou Medicina em Coimbra. O primeiro contacto com o PCP foi lá, através dos movimentos dos estudantes: “A minha ligação começou, precisamente, pelos movimentos académicos em Coimbra, que já eram uma coisa impressionante”.

Justino Santos fez parte da Aliança Povo Unido (APU), fundada em 1978 e que originou anos mais tarde a Coligação Democrática Unitária (CDU). Saiu do partido por causa de “algumas divergências”, mas é “comunista convictamente” e apoia o PCP “em qualquer ocasião”.

Chegou a Odemira e encontrou um território “infernal”. “As pessoas viviam perfeitamente isoladas. Havia zero”, sustentou.

O antigo autarca explicou que Odemira “tem o tamanho do distrito de Viana do Castelo, aqui cabem 11 concelhos, que é o caso de Viana”, mas antigamente “não havia nada”, quase a totalidade da população não tinha água, saneamento, eletricidade, o analfabetismo era a regra e os conceitos de estrada e telefone não passavam de ilusões.

A permanência de Justino era de apenas seis meses, mas, entretanto, foi eleito presidente da Câmara de Odemira e acabou por ficar. Ainda tem bem presente aquele momento, a “grande alegria para as pessoas” e o sentimento de “enorme responsabilidade”.

Depois começaram os dias de “angústia permanente” e “sem saber” o que priorizar dentro de uma terra que nada tinha.

“A gente voltava para um lado e para o outro e faltava tudo. Desde médicos a tudo o que pode considerar de um [país de] terceiro mundo”, acrescentou.

Odemira cresceu, houve erros pelo caminho, mas apareceram as infraestruturas necessárias e Justino Santos diz que o concelho tem “todas as potencialidades”.

Hoje é “extremamente crítico da atuação” do executivo do município, liderado pelo PS, e disse que há necessidade de mais médicos, mais acessos, mais habitação e também queria que as infraestruturas que deixou “funcionassem minimamente”, já que agora “a água falta permanentemente” e “as estradas estão esburacadas”.

“Odemira precisa de muita coisa. Precisa de inovação. Precisa de pessoas que se dediquem a tempo inteiro e com o coração a este concelho (…). Podia estar hoje numa situação vantajosa se tivessem tomado outras medidas”, completou.

Primeiro as manifestações académicas, depois a militância. Justino abraçou o trabalho autárquico e ainda foi mandatário no distrito de Beja da candidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República.

O médico conheceu a ditadura. Foi interpelado sobre o Chega. O assunto foi desvalorizado, mas não ficou sem resposta.

“É um fogo com pouca duração. Penso que isso em pouco tempo desaparece”, considerou, advertindo que “os partidos que estiveram no poder” até hoje são os culpados pelo aparecimento do Chega.

Hoje não vai estar presente na sessão pública com o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa. Vai estar a trabalhar, mas a mensagem já estava preparada.

“Dizia como dizia a todos os secretários-gerais, a todos os homens bons que vêm a este concelho: ‘Sê bem-vindo ao concelho de Odemira. Nós estimamos a vossa presença’. Era isso que diria, e que estava muito satisfeito com a vinda dele cá”, finalizou.