A Ucrânia não pode deixar esquecer a grave crise de fome no Iémen, que vive uma guerra devastadora desde 2014 e está à beira de uma “catástrofe humanitária”, alertou esta quarta-feira a ONU, durante uma conferência de doadores.

O Iémen já não faz manchetes, mas o sofrimento humano não diminuiu“, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, na abertura da conferência virtual de doadores.

“A atual falta de fundos aumenta o risco de acontecer uma catástrofe” no país, acrescentou.

Milhões de pessoas estão a ser confrontadas com fome extrema, mas o Programa Alimentar Mundial teve de reduzir para metade as rações por falta de fundos. E novos cortes estão iminentes”, alertou Guterres.

Tendo em conta que as necessidades humanitárias estão a crescer no Iémen e a guerra na Ucrânia está a fazer aumentar os preços das matérias-primas, incluindo do trigo, o secretário-geral adjunto da ONU para os Assuntos Humanitários, Martin Griffiths, pediu aos doadores que desbloqueiem “cerca de 4,3 mil milhões de dólares” (3,9 mil milhões de euros) para ajudar 17,2 milhões de iemenitas.

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Dois em cada três iemenitas – ou seja, 20 milhões de pessoas – vivem em extrema pobreza.

A Ucrânia mantém-nos muito ocupados e é uma grande preocupação, mas é essencial que nenhuma outra crise seja esquecida“, sublinhou o diretor-geral do Corpo de Ajuda Humanitária da Suíça, Manuel Bessler, em declarações à imprensa.

Segundo a ONU, cerca de 161.000 pessoas vão enfrentar, em breve, “uma insegurança alimentar catastrófica, prenúncio do que pode acontecer a 7,1 milhões de pessoas que estão a apenas um passo desta fase final de uma crise humanitária“.

“A situação humanitária no Iémen está entre as piores do mundo”, recordou Martin Griffiths, em conferência de imprensa.

É provável que esta situação piore à medida que as incertezas causadas pelo conflito na Ucrânia levarem os preços a aumentar nos mercados mundiais de cereais.

Cerca de um terço do trigo usado no Iémen tem origem na Rússia e na Ucrânia, referiu Martin Griffiths, acrescentando que “os preços dos alimentos já dispararam e são esperadas restrições da oferta”.

O apelo da ONU torna-se ainda mais urgente por os fundos disponíveis para as organizações humanitárias estarem a esgotar-se.

“As agências são forçadas a reduzir ou interromper a distribuição de ajuda alimentar, bem como a prestação de serviços de saúde e outras ajudas que salvam vidas”, disse Griffiths.

Hoje, esperamos arrecadar os fundos necessários para reabastecer a cadeia de fornecimento de alimentos, dar provisões aos centros de saúde, fornecer abrigos a pessoas deslocadas e fazer saber aos iemenitas que não os esquecemos”, concluiu.

“Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para preencher a lacuna imediata de financiamento e fortalecer a distribuição da ajuda”, pediu António Guterres, lembrando que, sem injeções rápidas de dinheiro, quase 4 milhões de pessoas deixarão de ter água potável para beber.

“Não podemos deixar as pessoas à deriva sem ajuda humanitária”, sublinhou.