“Pororó” é o nome da “explosão sonora, livre, fecunda” e com “pozinhos de patanisca” que o músico brasileiro Domenico Lancellotti e o português Norberto Lobo estreiam este sábado, em Espinho, antes de levarem essa parceria para Lisboa.

Norberto Lobo não afina a guitarra por nada deste mundo

Naquela que é a primeira apresentação do projeto fora do estúdio que o cantor, guitarrista e compositor brasileiro tem em Portugal, na sua residência, o espetáculo no Auditório de Espinho combinará várias linguagens musicais, aplicando-lhes “cuidado estético“, uma certa dose de “fantasia e onirismo”, e ainda “fluidez e improviso”.

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A colaboração entre os dois artistas surgiu após o confinamento motivado pela pandemia de Covid-19 e, segundo adianta Domenico Lancellotti à agência Lusa, valoriza “a presença”, a exploração ao vivo, a criatividade partilhada num mesmo local.

“A pandemia e tudo o que aconteceu nos últimos anos, incluindo a minha vinda para Portugal, determinou muito da minha expressão artística. Lancei um disco chamado ‘Raio’, que foi finalizado à distância, e acabo de lançar um novo álbum chamado ‘Sramba’, todo composto e gravado em Portugal, mas agora só quero saber da presença —  valorizo todas as experiências do coletivo e que não permitam o uso de aparelhos como o telemóvel”, declara o músico do Rio de Janeiro.

Admirando Norberto Lobo pela sua faceta “muito livre e experimental”, Domenico Lancellotti reconhece ao guitarrista português também “uma profunda relação cultural com a terra”, o que reforça a sua perspetiva quanto ao potencial criativo e a identidade distintiva de “Pororó”. “Acredito que música é como uma fruta —  determinado sabor só existe ali, naquele quintal”, explica.

Domenico Lancellotti. Uma canção no caminho do bem

O brasileiro quer, por isso, que o concerto seja “uma espécie de ritual onde as coisas possam acontecer espontaneamente, com a ajuda do público”, até porque lhe interessa “expandir, dilatar, abrir as janelas da canção, criar espaço para saltos e voos”.

Norberto Lobo, por sua vez, aprecia o entusiasmo e a “alegria” do colega brasileiro, classificando-o como “um músico oblíquo e multifacetado que implode em mil estilhaços musicais”.

Para o concerto de sábado em Espinho e o de terça-feira no Teatro Maria Matos, em Lisboa, o guitarrista português anuncia assim um trabalho bem preparado, com um conjunto de “músicos fantásticos” em que se inclui também João Pereira e Ricardo Dias Gomes, e promete não só “improviso balizado com certeza, mas também canção delicodoce com pozinhos de patanisca”.

Os planos de Domenico Lancellotti e Norberto Lobo passam depois por registar “Pororó” em disco, gravando “arranjos bem dilatados para as suas canções, com bastante espaço de improviso”. A expectativa dos músicos é que o álbum ajude à digressão do projeto e, nesse contexto, o cantor carioca admite: “Adoraria levar a banda para o Brasil”.

Essa expectativa é acentuada pelo otimismo que retira da atual situação política do seu país, onde o novo governo demonstra maior incentivo à cultura como recurso económico e fator de progressão social.

“Termos conseguido eleger o Lula apesar da máquina de morte e destruição que estava estabelecida no poder, sustentada por interesses multinacionais, foi para mim um milagre, totalmente na contramão da ordem mundial, que tende cada vez mais a uma extrema-direita neoliberal e fascista”, argumenta o músico. E conclui: “Espero que a força e o carisma do Presidente Lula, que é também a força do povo brasileiro, tenham reverberações positivas e inspirem outros povos”.