A promessa foi cumprida. Depois de sete anos a viver no estrangeiro, o ex-presidente da Catalunha Carles Puigdemont regressou a Espanha, discursou e foi aplaudido em Barcelona por uma multidão com mais de três mil pessoas. Terminou após seis minutos de discurso, gritou “Viva Catalunha Livre” e fugiu. “Não sei quando nos veremos novamente”, tinha acabado de admitir antes de escapar num modelo Honda branco. Ao fazê-lo quebrava outra promessa, que teria feito aos Mossos D’Esquadra: a de que se entregaria depois de falar e trazia à memória a sua primeira fuga, no já distante outubro de 2017.

Era domingo, o penúltimo dia do mês e a tentativa de declaração de independência da Catalunha uns dias antes tinha sido um fracasso. Em resposta, um conselho de ministros extraordinário reunira-se e decidira aplicar o artigo 155.º da Constituição Espanhola e demitir o governo regional. De seguida, o Ministério Público apresentava queixa contra Puigdemont e os seus aliados por rebelião e pedia uma pena de prisão para todos. A juíza Carmen Lamel tinha aceitado e nessa manhã era posto em marcha um plano secreto, que facilmente serviria de trama para um filme de ação, para retirar Carles Puigdemont de Espanha. Só foi possível graças à ajuda da mulher e um grupo de quatro Mossos D’Esquadra — entre eles o condenado e recentemente amnistiado Lluís Escolà, que o acompanhou durante grande parte da fuga —, como recorda esta quinta-feira a imprensa espanhola.

Tudo começou ainda no dia 29 de outubro, quando pela hora de almoço um Skoda Octavia de vidros fumados entrou na propriedade de Puigdemont em Sant Julià de Ramis, Girona. Um mosso d’Esquadra seguia ao volante, sozinho, um cenário que não era estranho para os moradores desde que Puigdemont e a família tinham regressado ao chalet. No dia seguinte o homem entraria e sairia várias vezes da propriedade, onde Puigdemont vivia com a mulher, a jornalista Marcela Topor, e as duas filhas.

“Estamos a assistir à lenda de Puigdemont”

Foi no Skoda Octavia de vidros fumados que o ex-presidente da Catalunha partiu de Sant Julià de Ramis, alegadamente escondido no porta-bagagens do carro — um rumor que sempre foi desmentido pelas figuras próximas de Puigdemont. O que é certo é que foi naquele carro que seguiu durante alguns quilómetros até a um ponto previamente acordado, ainda em território espanhol, em que mudaria para outro automóvel.

A troca, como na altura relatou o jornal El Mundo, seria feita graças a mais dois agentes da polícia implicados pelo mosso d’Esquadra, a quem o carro foi pedido emprestado, sem que fosse partilhado o plano de fuga. Isso mesmo relatariam os dois à Divisão de Assuntos Internos na investigação que se seguiu à fuga de Puigdemont.

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No novo carro, Puigdemont seguiu caminho para a fronteira. Para trás ficariam os documentos do veículo, algo que não o impediu de entrar em território francês. Na passagem da fronteira, as câmaras de vigilância ainda captaram a passagem do carro. Não é claro, como noticiava na altura o El Diário, se Puigdemont se agachou nesse momento ou regressou ao porta-bagagens. Certo é que não aparece nas imagens. Em Marselha apanhou um avião para Ryanair que o levaria a Bruxelas.

A 31 de outubro reaparecia e, diante de centenas de jornalistas de todo o mundo, anunciava que a sua decisão de fugir foi motivada pelo desejo de “tornar evidente o problema catalão no coração institucional da Europa” e denunciar “a politização da justiça espanhola”. A partir daí começaria um longo caminho como exilado.

Em novembro desse ano chegou um mandado de detenção europeu, assinado pela juíza Llarena, e que levou Puigdemont a entregar-se à justiça belga, apenas para ser libertado com medidas cautelares. No início do ano seguinte decidiu instalar-se num chalet em Waterloo e pouco depois foi detido durante uma viagem de carro, na Alemanha, quando fazia caminho para regressar a Bruxelas, como recorda o El País.

O mesmo jornal relata que foi admitido na prisão de Neumünster, mas libertado pouco depois, quando um tribunal decidiu extraditá-lo por desvio de fundos, mas não por rebelião. Quase um ano depois conseguiu ser eleito eurodeputado, uma decisão que foi contestada, mas que acabou por ser reconhecida pelo tribunal da União Europeia.

Puigdemont ainda acabou por ser detido novamente, desta vez em Itália, em 2021. Mas foi  libertado no dia seguinte e autorizado a deixar, temporariamente, o país, enquanto a justiça italiana não se pronunciava sobre o pedido de extradição emitido por Espanha. Esta quinta-feira regressou a Espanha e está novamente em fuga depois de discursar junto ao Arco do Triunfo em Barcelona. A polícia catalã já abriu uma investigação para identificar as pessoas que ajudaram o ex-presidente da Catalunha. Por agora já foi detido um agente dos Mossos D’Esquadra que é suspeito de ter ajudado na fuga. Como há 7 anos.