Sete pessoas ficaram feridas este domingo depois de “vários indivíduos de nacionalidade estrangeira” se terem envolvido em confrontos na Rua do Benformoso, o local onde, a 19 de dezembro, a PSP realizou uma operação de fiscalização. Segundo informações da polícia, uma “altercação entre dois grupos, por motivos não apurados”, levou ao transporte de três dos feridos para o Hospital de São José. Os outros quatro feridos foram assistidos na sede da 1.ª Divisão, “para onde se deslocaram por meios próprios” e onde receberam cuidados médicos de técnicos do INEM.
Segundo apurou o Observador junto de testemunhas oculares, tudo terá começado com um desentendimento entre duas pessoas por “motivos fúteis” em frente a um café na Rua do Benformoso — informações não confirmadas indiciam que na origem da discussão estará a disposição ilegal de bancas de venda no passeio.
Já depois de uma primeira altercação, um dos homens terá contactado outros indivíduos que se juntaram no local transportando com eles objetos como paus, barras de ferro e, pelo menos, uma faca. Foi aí que tudo escalou. “Uma vítima foi esfaqueada num membro inferior e outra na zona lombar”, informaria mais tarde a polícia.
No local, Enamul Hassan, dono de uma barbearia e morador na rua do Benformoso há mais de uma década, disse ao Observador que conhecia uma das vítimas que foi esfaqueada. Testemunhou a altercação da sua varanda e relatou que o amigo, “um tipo grande”, interveio na discussão com o objetivo de “acalmar os ânimos” — sem sucesso.
Ali, os ânimos só acalmaram depois de as sirenes da polícia se terem ouvido, descreve o mesmo morador. Mas as agressões continuariam noutro sítio da cidade, uns metros acima. “Quando ouviram as sirenes, a maioria fugiu para o jardim”, acrescentou Hassan, apontando na direção do Largo do Intendente. E foi lá que continuaram as altercações — cujas imagens já circulam nas redes sociais.
A polícia ainda não conseguiu ainda apurar as motivações do incidente. “Houve alguma violência, temos registo de dentes partidos, agressões com arma branca numa perna e na barriga, cortes na cabeça”, adiantou, sublinhando que “tudo indica que os ferimentos não são demasiado graves”.
Os relatos sobre a dimensão da rixa variam. Algumas testemunhas falam em menos de duas dezenas de pessoas envolvidas, outros apontam pelo menos 50 indivíduos. Muitos dos lojistas na rua ouvidos pelo Observador, que não quiseram ser identificados, relataram que as discussões são frequentes. Hassan, da mesma comunidade, disse ao Observador que já sugeriu aos seus compatriotas que as diferenças de opinião fossem resolvidas “à porta fechada”, com mediação dos moradores, e não com demonstrações violentas no espaço público. Mas os episódios continuam a repetir-se.
“Ouvi a confusão e fechei as portas”, partilhou com um Observador o dono de um café que preferiu não ser identificado, explicando que é o que faz sempre que há discussões. As testemunhas ouvidas pelo Observador garantem que a altercação começou entre duas pessoas da mesma comunidade e que se conhecem bem, negando a ideia de que se tratava de uma rixa entre “grupos rivais”, como chegou a ser avançado inicialmente.
A polícia chegou à rua do Benformoso depois de quatro dos elementos envolvidos nas agressões se terem deslocado até à esquadra da polícia junto ao Martim Moniz e pedido a intervenção da PSP, esclareceria depois à imprensa Iuri Rodrigues, comandante da 1ª divisão da PSP.
Royel mora em Arroios, mas desloca-se à rua do Benformoso frequentemente para “fumar, beber chá, discutir política e futebol”. Foi uma das pessoas que foi encostada à parede no dia 19 de dezembro. Este domingo, só chegou ao Martim Moniz depois de um amigo lhe ter telefonado a contar o que acabara de suceder. Em conversa com o Observador, Royel reconheceu que os problemas de violência se vão sucedendo e lamentou mais um episódio destes.
Numa declaração à imprensa esta tarde, Iúri Rodrigues, comandante da 1ª divisão da PSP, esclareceu que há “sete pessoas identificadas como vítimas” e que são “todos cidadãos estrangeiros” que “aparentam estar de forma regular em território nacional”.
“O que aconteceu aqui hoje vai ao encontro da informação que nós temos e que nos faz ter um olhar atento pela população que aqui reside, que aqui trabalha e que aqui se desloca todos os dias”, continuou o comandante da PSP, sublinhando, ao mesmo tempo, que o facto de terem sido os “quatro cidadãos estrangeiros” a deslocar-se “à quarta esquadra, na rua da Palma, onde pediram apoio à polícia revela a confiança que esta comunidade tem na polícia de segurança pública”.
Segundo Iúri Rodrigues foram essas vítimas que “informaram que as agressões ocorreram na rua do Benformoso”. “Prontamente foram acionados meios para o local, onde foram detetadas mais três pessoas ainda aqui, com sinais de terem sido agredidas, duas das quais com uma faca”, explicou o agente da PSP.
De acordo com o responsável, “é muito pouco provável que haja detenções“, uma vez que “estas sete pessoas que foram assistidas [e que se apresentaram na esquadra] são vítimas”. Ainda assim, Iúri Rodrigues garantiu que as autoridades estão “a efetuar diligências” para perceber o que esteve em causa, admitindo, todavia, que a “barreira linguística” poderá tornar o processo mais difícil.
A 19 de dezembro, a PSP realizou uma “operação especial de prevenção criminal” neste mesmo local de Lisboa, no Martim Moniz. A operação foi justificada com a necessidade de “alavancar a segurança e tranquilidade pública da população residente e flutuante”, mas gerou críticas de alguns setores da sociedade e de partidos políticos por ter incidido, sobretudo, em população imigrante.
Depois da cena de violência e à medida que a noite foi caindo, a rua do Benformoso voltou a encher-se de grupos que fumavam e bebiam café, tal como Royel descreveu. O dispositivo da PSP manteve-se no local da confusão muitas horas depois do sucedido.
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Este sábado, 11 de dezembro, houve duas ações de protesto simultâneas e motivadas por posições contrastantes: por um lado, o movimento “Não nos encostem à parede” convocou a iniciativa à boleia de críticas à forma como a PSP manteve, durante mais de uma hora, dezenas de cidadãos imigrantes encostados à parede para serem revistados; por outro lado, e como resposta à manifestação convocada para o Martim Moniz, o Chega organizou uma vigília em defesa da atuação da polícia e da “autoridade”.
Minutos depois de serem divulgadas as primeiras informações sobre a rixa, André Ventura recorreu ao X para reagir, com ironia, aos mais recentes acontecimentos: “Parece que no Martim Moniz voltámos a ter hoje rixas, esfaqueamentos e pessoas internadas. Jornalistas também atacados. Mas são só percepções e sensações, não se preocupem!.”
A referência aos “jornalistas atacados” diz respeito ao caso de uma jornalista da CNN que, na reportagem em direto, foi recebida com protestos de um elemento aparentemente da comunidade, que terá mesmo tentado impedir que a equipa da reportagem filmasse o que estava a acontecer.
Num segundo tweet, o líder do Chega atira-se aos líderes dos partidos à esquerda e ao que designa por “malta dos cravos vermelhos” por mais um episódio de violência. “Sangue nas ruas, pancadaria, facas e barras de ferro no Martim Moniz, em Lisboa. Onde andam agora o Pedro Nuno Santos, a Mariana Mortágua e o Rui Tavares? A malta dos cravos vermelhos? Os poetas da liberdade e da imigração livre? Onde é que estão agora?”
Lisboa serviu de palco ao combate político sobre imigração e segurança